31.8.16

Vida, paciência

Um dia, vai para mais de um ano um amigo perguntou-me: "Mas tu não tens medo do futuro?". Respondi-lhe "Não. "Tenho confiança em mim". Omiti a outra metade: "e na vida".

"Na vida" é pouco claro. É uma confusão, uma mistura incontrolável, uma mistela de meia tijela que transborda o tempo todo e foge em todas as direcções, uma sequência de tempestades entrecortada por breves períodos de bom tempo. "Tenho confiança em mim" deve ser lido como é: dito por um marinheiro. Ou seja: "Eu sei que uma tempestade é um milhão de vezes mais forte do que eu mas tenho confiança na minha capacidade para lhe fazer frente e ganhar. E se perder, olha... Paciência".

Diz criminalizar, diz.

Portugal conseguiu descriminalizar o uso de drogas, sejam elas leve ou pesadas e acho muito bem. É aliás tema de conversa e admiração por esse mundo fora. Pena que não se fale tanto de outras descriminalizações que o nosso bem-amado país fez com um sucesso indescritível, se bem mais escondido.

Falo, por exemplo, da descriminalização do estacionamento ilícito. Qualquer condutor sabe que pode deixar o automóvel em qualquer sítio - exceptuando, naturalmente, os que são inacessíveis ao veículo, como o topo das árvores e os corrimões das famosas escadinhas de Lisboa - sem que por isso seja punido. Ou da discriminalização do desrepeito pelos sinais de trãnsito: encarnado, verde ou laranja têm o mesmo valor operacional (ao contrário de outros países em que os condutores páram com os sinais vermelho ou laranja e avançam com o verde). Também se discriminalizou a condução na faixa da esquerda.

(Entretanto hoje ficou a saber-se que a Polícia Marítima, esse epítome da coragem, bravura e desprezo pela vida apreendeu duzentas e dez bolas de Berlim. Acho que as nossas autoridades deviam dar a conhecer estes feitos aos investidores que se inquietam com as constantes mudanças na legislação, por exemplo: contra as bolas de Berlim marchamos sem hesitar. Em defesa da saúde pública o nosso rumo é o mesmo. Ainda o ano passado, por exemplo, foram apreendidos cinco quilos de sardinhas a um senhor de setenta anos).

Adenda - hoje foi igualmente conhecido que os hospitais públicos devem uma fortuna aos fornecedores, mas impressionados com a nossa luta contra as bolas de Berlim e as sardinhas os investidores não atribuirão obviamente a isso grande importância. Eles compreenderão que saúde pública não se compadece com facilitismos.

A esperança do céptico

Quem espera desespera a menos que nada espere enquanto espera e aquilo por que espera valha todo o desespero do mundo.

Pôr a pata no pâté

Fiz recentemente dois pâtés e ficam as receitas ad memoriam (se alguém pensar que sou pedante não se engana redondamente).

Pâté de beringela:
  • Beringela grelhada (ou frita);
  • Hortelã-pimenta;
  • Gengibre;
  • Azeite;
  • Especiaria: coentros secos.
(Este é uma receita da T. P., a quem agradeço).

Pâté de cavala:
  • Cavala cozida (3 cavalas deram uma enormidade de pâté);
  • Pimento cru;
  • Coentro fresco;
  • Maionese (a receita habitual, com paprika, cominhos e pimenta);
  • Sumo de limão (o sumo de quase um limão sumarento);
  • Especiarias: paprika, cominhos, coentros secos, curcuma (merecia ter levado uma boa dose de piri-piri).

30.8.16

Noções básicas de gestão

Mais importante do que controlar os custos - mas igualmente difícil - é descontrolar os ganhos.

Hífen te

Andam por aí a rondar, em matilhas. Centenas ou milhares delas, vai saber. Não as vejo bem: estão longe, pouco claras, difusas nesta bruma matinal.

É o princípio do dia e as palavras cercam-nos. Aproximam-se devagar, timidamente. Depois fundem-se todas numa só.

É um verbo e com ele começo o dia. Hífen te.

29.8.16

Diário de Bordos - Lisboa, 29-08-2016

Vai-se Agosto embora a contra-gosto e eu gosto. Hei-de gostar de Agosto, é promessa, mas por agora gosto mais de o ver ir-se e chegar Setembro, "le mois le plus tendre", já o Nougaro o cantava e encantava na Ile de Ré a sua belle adorée.

Começou em Espanha, continuou em Portimão, passou por Aljezur, Odeceixe e Abrantes e acaba em Lisboa, devagar, não sei se por causa do calor se por amor.

Vai-se, é o que conta. E vem Setembro, mês de ternuras, novidades e aniversário.

........
Acabei Bartleby y Compañia, de Vilas-Matas. Fez-me ver que estou em boas companhias, que estas minhas reticências não são únicas.

Antes pelo contrário. Podem ser até quase honoráveis, se vistas pelos olhos certos.

Mas vai-se Agosto, vem outra vida e é tempo de lhes pôr fim. Acabam as reticências e começam os pontos de exclamação. Os de interrogação, esses mantêm-se. "Hei-de morrer assim".

........
Apetece-me cobrir a vida de beijos.

27.8.16

Hegemonias

Por uma razão que desconheço a ideia - correcta de uma forma geral - de que a história é contada pelos vencedores não se aplica a Israel. A narrativa pró-palestiniana é hegemónica.

Objecção contra o turismo

A vulgaridade nacional chega. Ter que levar com a dos outros é um sacrifício dispensável.

O que teria podido ser

Que teria sido de mim se não fosse eu?

26.8.16

Algumas noções de gramática

Marinheiro sem ter onde cair morto é o maior oxímoro da língua portuguesa.

23.8.16

A brincar

"Sou ambiciosa", diz-me S. "Portugal não é um bom país para se ser ambicioso", penso. "E menos ainda para se o dizer".

Mas é sem dúvida alguma o melhor país do mundo (ou pelo menos da parte dele que eu conheço) onde não se respeitar os códigos e normas sociais.

Com excepção da mesquinhez e da pequenez tudo neste país é uma aparência, não-dito, a brincar. Até a intolerância.

Considérations fumeuses

Há uma ética no bom gosto. Estética e ética andam juntas e não só graficamente. Apreciar o feio é imoral. A obscenidade é feia, tanto quanto a fealdade obscena.

21.8.16

Dúvidas, certezas

Que fica de um dia?

Passeio de bicicleta pelas margens do Tejo até Belém. A ideia era ir comer uma chamuça à D. Mónica, mas está fechada para férias. Comi num clube ao lado, mas não são a mesma coisa.

Um esplêndido almoço na Casa Museu Amália Rodrigues. Chamam brunch àquilo e eu não discuto a denominação. Brunch fica. Para mim é um almoço e dos bons.

Jam no Tati. Já por aqui falei milhares de vezes nas tardes de Domingo no café Tati, na qualidade da música do Gonçalo Marques, do esplêndido grupo de jovens que ele reuniu ao seu lado - prova, se necessário fosse, de que deve ser um professor competente -. Não tenho da música um abordagem técnica. Não sei distinguir um ré de um fá e reconheço o Parabéns a Você se estiver numa festa de anos; se não, tenho dúvidas. Quando eram mais novos os meus filhos pediam-me para não cantar nas festas de aniversário dos amigos. Crescendo, pediam-me para não cantar tout court. Abordo a música como aquele crítico inglês de vinhos dizia: "Um bom vinho é aquele que me faz dar um salto na cadeira". Para mim uma boa música - ou um bom músico - é aquele que me faz viajar até aos limites do universo e me arranca lágrimas de canyons que não sabia existirem em mim. Hoje coube a vez - pela surpresa - a um jovem baterista de boné revolucionário e pernas e braços finos como espinhas de um peixe frágil. Tinha um toque leve e aéreo, parecia que tocava com as penas de um pássaro.

Estas são as certezas. Não falo das dúvidas.

Que fica, de um dia? As certezas ou as dúvidas?

Pragas

Sou eu o único a pensar que o vegetarianismo se está a transformar numa praga?

Pequenos prazeres dominicais

Na série Coisas que dão prazer num Domingo de manhã: passo de bicicleta à frente de um restaurante e um dos empregados faz-me sinal com o braço para parar. Tinha sido ciclista dos "nove aos vinte e nove anos" e tivera duas Vitus. "Primeiro uma Vitus e depois uma Super Vitus".

Agora já não corre, mas ainda dá "umas voltinhas de vez em quando". Trocamos duas ou três amabilidades sobre o prazer do ciclismo. O senhor está visivelmente comovido. "Já não se fazem". Referia-se às Vitus e se calhar às pessoas que nelas tinham corrido.

Descobertas

Mais um blog de poesia: O Café dos Loucos.

Oiça um bom conselho, eu lhe dou de graça

Se não sabe o que fazer oiça Karen Dalton. Cura tudo, incluindo ataques súbitos e inexplicáveis de alegria.

Ou então faça uma pesquisa no Google como esta por exemplo.

20.8.16

Notas soltas - Uma tarde em Lisboa

Já passa das nove da noite e vejo uma fila de turistas para o Elevador de Santa Justa; à tarde tinha visto outra, tão grande ou maior para o 28.

Uma das vantagens do turismo - quiçá a que os portugueses mais deviam apreciar e à qual mais gratos deviam estar - é demonstrar-lhes que a imbecilidade não conhece fronteiras. "Lá fora" não merece a admiração que lhe tinham.

........
Talvez não fosse má ideia os restaurantes de certas zonas de Lisboa terem cartazes à porta a dizer "Fala-se português".

Se bem muito provavelmente seria qualquer coisa como : "Falasse purtuguêz". Talvez os cartazes devessem dizer "Não ligue aos erros de português. Não sabemos escrevê-lo mas sabemos falá-lo. E de qualquer forma V. vem cá para comer, não é?"

É.

.........
Os automóveis que apitam e fazem sinais de luzes e se impressionam muito porque vou, por exemplo, em contramão nunca estacionaram mal? Nunca passaram com um sinal encarnado? Respeitam os limites de velocidade? Põem o pisca-pisca a cada mudança de faixa?

Espero bem que sim. Lisboa seria a cidade do mundo onde se conduz melhor.

........
Nas cidades estrangeiras evito as zonas turísticas. Em Lisboa começarei em breve. Não que tenha seja o que for contra os turistas. Não tenho.

Acho simplesmente que se deve evitar o excesso de coisas boas.

19.8.16

Planos

Escrever, amar, ser amado e vender cafés para suportar tão vastos planos. O futuro afigura-se-me risonho.

18.8.16

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 18-08-2016

Saio de Portimão contente e grato. O hostel - Villarade, para quem estiver interessado - é excelente. A dona é uma rapariga nova, gira, simpática e instila naquilo um espírito de casa de férias mais do que hostel. Tenho alguma pena (podia ser muita mais, admito) das pessoas a quem incomodei por ressonar ou dormir nu. Só ressono quando bebo e só se vê que estou nu quando o lençol escorrega, duas circunstâncias cuja ocorrência simultânea é suficientemente rara para não me preocupar muito.

Conheci alguns restaurantes aos quais poderei voltar e não voltarei tão cedo a um que conhecia. Conheci o bar mais improvável de todos os bares improváveis nos quais já estive. Conheci ou reconheci um barman cuja nobreza e gentileza (as duas qualidades que constituem o profissionalismo de um barman) o levam para o pódio onde estão o Luís da Casa do Largo e outros que já aqui citei. Aborreci-me mortalmente durante os dias mas sobrevivi e não mandei o armador ou a pedante da mulher passear, irrefutável demonstração de que a civilização acaba por penetrar mesmo na mais troglodita das mentes, dado tempo suficiente. Enamorei-me e pela primeira vez em muitos anos tenho mais confiança nesse amor do que medo.

Escrevo num pequeno quiosque frente à estação que parece o cenário para uma versão portuguesa dos miseráveis. Talvez seja a isto que há tantos anos aspiro: ser feliz onde quer que esteja. Feliz não é o termo. É paz. Bonomia. Harmonia. Sintonia. Gratidão.

Não sei. É isso tudo junto.

Noites como esta

O Ricardo, poeta maior acha que não devemos falar dos sítios bons. Só dos maus, diz. A razão é óbvia.

Partilho a opinião mas não a prática: o Birimbar abre às quartas e sábados. Nos outros dias Portimão não existe.

Noites como esta

(Noites como esta: beber ti'punch feitos por mim enquanto oiço música demasiado boa para ser descrita.)

........
A questão é passar os diferentes obstáculos,  físicos e mentais, para chegar aqui.

Um bar destes no meio de prédios, à frente da CGD. A avenida chama-se 25 de Abril. Isto ou alguém no-lo aconselha ou passamos ao largo.

O meu amigo Ricardo compreenderá: o DV é para eu me lembrar. Os conselhos são uma consequência perversa.

Birimbar, Av. 25 de Abril, Portimão. Isto chega. O resto é conversa.

........
O sacana do percussionista é bom até na pandeireta.

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 18-08-2016

É Agosto e estou cansado; a noite merecia um sweater: está fresca, pelo menos na rua. É a última em Portimão. Resolvo descobrir um restaurante, já que daqui a pouco vou descobrir um bar. Não sei o que quero: "um restaurante que não conheço" é inoperacional, até para mim.

Acabo no Terezinha, recomendável ainda antes da segunda visita, que não sei quando será.

A espanhola da mesa ao lado é gira de cair; os carapaus estão excelentes; o preço quase me envergonha de tão decente. Já lhes perdi o hábito.

Portimão é uma cidade na qual é fácil perdermo-nos e regra geral desagradável. Hoje não me perdi. Encontrei.

........
A cantora não tem mamas mas é muito mais sensual do que noventa e nove por cento das mamalhudas que conheço. Canta bem, se bem já tenha ouvido e convivido com quem cante melhor (ajuda à sensualidade).

Fazendo contas a noite é óptima: o sítio um achado, parece a sala de estar de um gajo que acabámos de conhecer na rua e se revela exímio guitarrista; a mulher gira e boa cantadeira; a escolha de músicas é assim assim: agora vem uma do Pichinguinha, numa gaja que olhando para ela ninguém diria que conhece mais do que Roberto Carlos ou aquele anão da mesma altura. Outras vezes é fado ou música de Cabo Verde (ela avisou: vai ser uma noite lusófona); a assembleia é digna, mais do que digna: não me sinto nem avô nem neto de ninguém.

A fazer uma apreciação técnica diria que o guitarrista  (e dono da casa) é o melhor. Mas isso seria um tecnicismo irrelevante, deslocado. O percussionista tão pouco é fraco, antes pelo contrário. É bom que se farta. É o baterista de um grupo chamado Trovante, de que nunca fui excessivamente fã mas tem muitos (fãs).

A música tem uma função nobre: tornar possíveis noites como esta. O resto é conversa de chacha.

(Noites como esta: uma cantora gira num bar improvável com um guitarrista óptimo e um percussionista idem a beber Bayley's, véspera de ida para Lisboa e de aliciantes aventuras, às portas de novos mundos e novas vidas).

........
(Noites como esta: computador sem wifi. Há por aí muita gente a respirar de alívio. Isto de um gajo poder mandar e-mails quando lhe apetece (ou quando precisa) tem meia dúzia de espinhas. Ou uma dúzia.)

........
(Noites como esta: ensino o jovem e stressado barman a fazer um ti'punch e arremato com a história do "Chacun  prépare sa mort". Só tem Bacardi branco, mas sabe-me como se estivesse no Comme à la Maison, no Marin e em vez de um jovem, magro e tenso barman tivesse aquela senhora minúscula, gordissima e descontraída cujo nome esqueci, lamentavelmente. Enchia-me os pratos com tanta comida que tinha de deitar metade fora, às escondidas dela.

Talvez o jovem barman pudesse inspirar-se no exemplo da senhora e encher-me os copos...?)

17.8.16

Fragmentos antigos

As equações do medo são complexas.

Grandes amores

Talvez sorte seja o nome que damos à intuição; ou intuição o que damos à sorte e sejam as duas a mesma coisa. Talvez até sejam duas coisas diferentes e tenha sido o acaso que desta vez as reuniu.

É possível: acaso, sorte e intuição. Todos os grandes amores começam a três.

"Quem é aquela sombra que caminha ao teu lado?"

(Para a R. P.)

16.8.16

Dilema

Vou ao Micha que é um dos piores bares do mundo mas fica ao lado do albergue ou ao Bacchus, um dos melhores e longe?

Micha. O excesso de coisas boas mata tanto ou mais do que a ausência delas.

Quanto custa ser imbecil?

Isto anima-me: estou sentado ao lado de um gajo que é simultaneamente imbecil e chato.

Estamos num restaurante em Ferragudo, ele na mesa com a família e eu ao lado, dois dedos a separar os nossos territórios.

Em dez minutos o homem largou outras tantas imbecilidades. O empregado de mesa aguentou estoicamente.

Ele não pode,  como eu escrever. Mas posso gritar, ironizar, ser sarcástico ou, em último caso, mudar de mesa. Não fiz nada disso. Calei-me e comi (corvina cozida. Duas postas por onze euros. Com o vinho e os extras o jantar não chegou a vinte paus.)

Não sei o preço das imbecilidades, mas acho que podem vir muitas.


Diário de Bordos - Ferragudo, Algarve, Portugal, 16-08-2016

Pergunto-me se não seria melhor vender o computador portátil e com o dinheiro comprar um telefone igualmente portátil  (ou mais) que não se avarie.

A pergunta é retórica  (ia dizer portátil), claro: os telefones avariam-se menos mas estão sempre debaixo de água ou sem bateria ou sem saldo.

Assim que chegar a Lisboa mando reparar o coiso. Já sei que me espera uma vida comum cheia de incompreensões mútuas. Isto não engana: ou vai bem de início ou nunca.

Paciência. Vou manter-me fiel à Asus. Depois se verá, como dizia o marido.

........
Sublime fim de tarde em Ferragudo, com a Lua quase cheia, eu quase apaziguado numa tasca enquanto espero pela mesa no Velho Novo (ou Novo Velho? Não sei. É excelente! ) Estou no único café que vi até agora aqui no Algarve que não tem um único turista. Um, para amostra. Nicles. Zero. Pas un.

Não tenho nada contra os turistas, note-se, muito antes bem pelo contrário.

Mas um sítio assim faz-me sentir antes da guerra.

........
Quinta-feira estou em Lisboa. Para compensar aceitei um pequeno trabalho em Inglaterra, dois ou três dias.

Os que não trabalhei aqui.

.........
Vou gostar de vir aqui no Inverno. É a diferença entre um sítio deserto e um outro abandonado.


15.8.16

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 15-08-2016

"Casa em que mulher manda até o galo canta fino", diz uma canção brasileira. Olhando para a superfície das coisas as interacções a bordo do S/Y B. confirmam inteiramente o dito brasileiro.

Como de costume a superfície das coisas é uma minúscula parte delas e não mais do que isso.

O problema não é quem manda. É alguém mandar. Que neste caso seja a mulher apenas ajuda à anedota e às ideias feitas, mas pouco muda o fundo da questão. Um casal em que um manda e o outro obedece não funciona. Excepto, claro, se um mandar a fingir e o outro fingir que obedece.

O fingimento funciona melhor do que a assimetria, vá lá saber-se porquê.

........
Preços absurdos, serviço horrível e comida de merda.

A imagem que tinha do Algarve no Verão não se confirma sempre e em todos os pontos.

Há excepções: restaurantes caros com serviço mau e comida assim assim. Até já me aconteceu comer bem, imagine-se.

........
Verdade seja dita: são raríssimos os restaurantes caros e bons que conheço. Tem de ser excepcionalmente bons para vencer a barreira do preço. Não por falta de experiência, mas por opção ideológica.

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Incomunicabilidade:

- Wi-Fi do computador avariado;
- Bateria do telefone descarregada;
- Canetas de tinta permanente sem tinta. (Este resolveu-se depressa: tinha o tinteiro no saco).

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A cara da miúda na mesa à frente da minha. Oval, cabelos pretos compridos a emoldurarem-na, boca pequena, nariz idem e rectilíneo. O tipo de cara que associamos às índias da América do Norte, por causa do cinema e da má consciência  (os índios eram bonitos e puros, etc.)

Olhos pequenos também e expressivos: quando sorri utiliza o rosto todo, que de repente deixa de ser pequeno.

........
Já vi maus bares na vida. O Micha's na Praia da Rocha é tão mau que merece uma visita.

Afinal há quem vá ao jardim zoológico, não?

Noite

É da noite que devíamos falar. Da que não somos, da que queremos ser, da que um dia seremos e descobriremos que afinal não somos.

Saber a pouco

Devíamos, eu sei, entrar pela noite dentro como dois corpos que se procuram e encontram, duas quedas de água que se revoltam contra a gravidade. Nada disso: limitamo-nos a saber-nos.

Sabe a pouco. Sabemos a pouco.

Saber hífen te

Deixa-me dizer-te: o desejo aparece do nada. Um riso, uma vaga ligeiramente mais pequena do que a seguinte, um seio.

Saber-te é o rés-do-chão do desejo.

Corpo, abismo

Não é do corpo que tenho medo, é do abismo que fica para lá do corpo.

Procurar, encontrar

Um corpo é um corpo, pouco mais. Não é dos corpos que devemos ter medo, é do que está para além ou aquém deles. Um corpo não passa de um batido de morango ou um sumo de laranja natural.

É para além dos corpos que as cascatas se devem procurar. Ou antes deles, dir-me-ás, seios espetados e ventre plano.

(De ventres planos e seios espetados poderíamos discutir. Talvez um dia, quem sabe?)

Deixemo-nos de parênteses. (É um imperativo, caso não tenhas percebido). Do desejo pouco se pode dizer: um corpo é um corpo e não uma galáxia, excepto se tu ou eu o formos.

Galáxia é o que encontra quem procura, se souber procurar e encontrar. O que seremos, se nos soubermos procurar.

Agora, espaço

Está bem, eu sou a fonte. É de mim que tudo jorra. Ou em mim que tudo entra: quase a mesma coisa, entrar, sair.

Não te digo agora quanto te quero porque agora não tem espaço. Nem para entrar nem para sair.

14.8.16

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 14-08-2016 /II

Saí do Forte e Feio em estado de choque. Tentei atropelar pelo menos duzentas pessoas no caminho de regresso, mas lembrei-me a tempo de que:

a) As ciclovias em Portugal são feitas para as pessoas que não gostam de calçada - aparentemente a esmagadora maioria - e não para as bicicletas;
b) Se atropelar alguém magoo-me tanto ou mais do que o atropelado.

Ou seja: acabo no refúgio de sempre, o Bacchus Bar. O senhor Artur - já não tenho dúvidas de que ele é um senhor e era quem me fazia os cocktails há quarenta anos - quantificou, com a gentileza que lhe é inata e característica, o espólio do outro: "quatro ou cinco euros".

Por isso não vale a pena chatear-me e muito menos chocar-me.

.........
Enjoar é chic. Demonstra que não somos lobos nem somos do mar e sim seres urbanos, civilizados, adestrados que compraram um barco porque ter um barco é chic e enjoar é - a fortiori - ainda mais chic.

(O leitor atento terá descoberto aqui uma incongruência intra-textual. As pessoas chics não sabem o que a fortiori quer dizer e nunca utilizariam o termo. Pelo menos os meus BCBG. Talvez os de outros o conheçam. Não sei).

........
Fui jantar ao Forte e Feio:

a) "As sardinhas hoje não estão aconselháveis". (Aqui comi as melhores sardinhas da minha vida. Aprecio a honestidade do grelhador);

b) "Meio frango" é uma anedota nouvelle cuisine. O frango era simultaneamente raquítico e anão. Um inteiro não teria alimentado uma adolescente anoréxica. Estava bom, muito bom, tão agradável à vista como ao paladar, apesar de a ambos ter parecido uma miragem;

c) As batatas fritas são uma merda. Raramente como batatas fritas (cf b) );

d) Nunca mais cá volto em Agosto, excepto se for Domingo e tiver pensado nele como sítio para levar uma jovem senhora cuja aprovação espero merecer.

De modo espero tranquilamente que a garrafa de vinho se acabe (costumam acabar-se sozinhas) para telefonar ao Bacchus e saber se está aberto.

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 14-08-2016

O italiano da cama de baixo foi-se embora. Falei com Vera, a jovem que toma conta do Albergue (ou será Pousada? Albergue dá assim um aspecto de beneficência; Pousada parece mais rico. Já a jovem senhora dá um aspecto de saúde, vigor e energia cujo nome agora me escapa). O homem estava convencido de que tinha reservado um quarto privado; não tinha. Daí provavelmente a cara de poucos amigos com que enfrentava o infortúnio.

Enfim, foi-se embora. Desconfio de homens velhos de rabo-de-cavalo e de jovens que não falam inglês, façam o que fizerem com o cabelo. Este não o tinha, de todo; e tão pouco falava uma palavra de inglês ou francês. Como é que se viaja sem falar pelo menos inglês? Eu tenho sorte, sei: posso viajar por parte do ocidente e falar a língua dos indígenas. A lingua franca serve no resto do mundo. Um gajo que não percebe nem se faz perceber tem de conviver com injustiças, naturalmente. Como darem-lhe um dormitório em vez de um quarto privado. E levar com um velho que quando está grosso ressona no beliche de cima.

........
Ando em fase de sorte e os infortúnios são poucos, graças a deus. Por vezes lá me calha um ou outro, para não me esquecer. Mas nada que exija cara de poucos amigos e um diálogo matinal não cure.

........
Soljenítsin tinha uma alegoria muito bonita no Arquipélago, creio. Ou no Denisovich: o que os animais recebiam de deus depois do nascimento. Tenho que reencontrá-la. Eu recebi mais do que a minha justa dose de muitas coisas; como contabilizar o que não me calhou no cesto? Também foi mais do que a justa quantidade de ausência.

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 13-08-2016

O ódio que o italiano da cama de baixo tem por mim é visível  ( e se calhar justificado, vá saber-se). É igualmente óbvio que eu não devo ser a única pessoa que ele odeia neste mundo.

Estou-me um pouco nas tintas. Isto é, os sofrimentos e raivas do senhor são-me profundamente indiferentes.

Interessam-me mais os meus e mesmo a esses atribuo pouco tempo e atenção. Suponho que seja da idade, não sei:  os meus sei que passam mais tarde ou mais cedo, depressa ou devagar, com ou sem cicatrizes. Como não venho de outro planeta e não sou um mutante o mesmo se deve passar com os dos outros.

........
No meio disto tudo a boa notícia é que a Ménière está bastante mais fraquinha.

.........
Há uma pergunta que todas as pessoas com a capacidade de amar embrulhada na camada de cicatrizes que a minha tem se devem fazer.

No meu caso a resposta é sim.

13.8.16

Modos de dizer, modos de ser

Seja porque razão for sempre preferi as palavras pronunciadas de uma vez só a soletradas.

Quaisquer que elas sejam, as palavras.

Love poem / Poema de amor

Ultimately, we will lose each other
to something. I would hope for grand
circumstance — death or disaster.
But it might not be that way at all.
It might be that you walk out
one morning after making love
to buy cigarettes, and never return,
or I fall in love with another man.
It might be a slow drift into indifference.
Either way, we’ll have to learn
to bear the weight of the eventuality
that we will lose each other to something.
So why not begin now, while your head
rests like a perfect moon in my lap,
and the dogs on the beach are howling?
Why not reach for the seam in this South Indian
night and tear it, just a little, so the falling
can begin? Because later, when we cross
each other on the streets, and are forced
to look away, when we’ve thrown
the disregarded pieces of our togetherness
into bedroom drawers and the smell
of our bodies is disappearing like the sweet
decay of lilies — what will we call it,
when it’s no longer love?


(Tishani Doshi)

Li isto recentemente no Rua das Pretas (Ruadaspretas.blogspot.com). É das coisas mais lindas que descobri recentemente. Esta é a  minha proposta de tradução:

"No fim, perder-nos-emos um ao outro,
por qualquer razão. Gostaria que fosse
algo grande - a morte ou um desastre.
Mas talvez não seja, de todo.
Pode muito bem ser que um dia tu saias
depois de fazermos amor para comprar cigarros
e não voltes, nunca mais, ou que
eu me apaixone por outro homem.
Talvez seja uma lenta deriva para a indiferença.
Seja o que for, teremos de suportar o peso
da eventualidade de nos perdermos um ao outro
por qualquer razão.
Então, porque não começarmos agora,
enquanto a tua cabeça repousa no meu colo como uma lua perfeita
e os cães uivam na praia?
Porque não procurarmos a costura nesta noite do Sul da Índia
e rasgá-la só um bocadinho, para que a queda
comece? Mais tarde, quando nos cruzarmos na rua
e tivermos de desviar os olhares
e tivermos atirado para os armários do quarto
as peças esquecidas da nossa união e o
cheiro dos nossos corpos se desvanecer como
o doce murchar dos lírios - que lhe chamaremos,
que já não será amor?"

Tishani Doshi

Homem (ou neste caso mulher) prevenida vale por dois. Mais vale antecipar, não é?

Quase fragmento, sachant ceci

...je suis un homme libre. C'est tout ce que je suis, tout ce que je veux être, tout ce que je sais être. Je ne suis rien si je ne suis pas libre.

Je suis un métèque, partout et n'importe où, y compris dans mon pays.

Fais de moi  - attends de moi - ce que tu voudras, sachant ceci. 

Je suis à toi, si tu me veux comme je suis: libre et perdu.

Fragmento

"... C'est stupide, je sais. Mais depuis quand m'as-tu vu faire quelque chose d'intelligent?"

12.8.16

Reedição bis - Silêncios

É meia-noite e meia e provavelmente a vigésima vez que chego a uma cidade na esperança de recomeçar a vida. Aos quarenta e três anos é, reconheçamos, tarde. Nunca se reparte do zero, claro, excepto financeiramente: todos nós acumulamos uma bagagem à qual os americanos dão o nome, redutor, de “emocional” e um conjunto, mais ou menos rico – mas muito mais importante do que a dita bagagem – de silêncios, que levamos connosco onde quer que vamos. É por isso que o James Baldwin tem aquelas linhas fabulosas sobre o mundo, "sempre mais pequeno do que o viajante que nele viaja"; e é por isso que nos tornamos, com a idade, cada vez menos pacientes e cada vez mais tolerantes.

Há vários tipos de silêncio e várias receitas. Os meus são feitos de uma mistura - variável, naturalmente, com o interlocutor - de medo, arrogância e esperança. Há outros ingredientes, como o respeito, a liberdade, a indiferença, o embaraço, a cumplicidade. Cada pessoa deve escolher o seu silêncio – e os ingredientes que o compõem –, mas nunca se deve misturá-los, porque cada silêncio é diferente dos outros e não são miscíveis: misturá-los é fonte garantida de misérias ou de chatices. Os silêncios não devem, sobretudo, ter mentiras à mistura porque mentimos a nós mesmos – e isso acaba mal, invariavelmente –. Há silêncios sólidos e outros que o são menos; há silêncios que nos encurralam e silêncios que nos libertam (enfim, espero).

Há silêncios de vários níveis: a primeira vez que fui a Barcelona fiquei em casa de amigos que conheci durante as vindimas em França. Ele era basco, pequeno e atarracado, falava espanhol e francês. Ela era uma alemã interminável, com uns seios enormes que eu por vezes via, nus, sobre a cidade, como duas luas abençoadas e falava alemão e inglês. Compreendiam-se porque eram ambos estudantes na escola de mímica e mimavam todas as conversas, mesmo as mais triviais. Era agradável estar com eles, mas a magia perdia-se um pouco porque eu tinha que falar - não sabia, como eles, mimar o silêncio.

II
Os silêncios mudam, como o tempo ou o mar, rei de todos os silêncios. Hoje conto os tostões em Londres, bebo cerveja Courage e tento reanimar uma libido moribunda. A libido está para a saúde como a construção para a economia. Os próximos anos vão ser uma travessia do deserto, mais uma. Para que uma relação funcione é preciso que os silêncios de cada um dos parceiros sejam compatíveis. Preciso de apanhar os bocados de mim que deixei espalhados por todo o lado, que as feridas se fechem e  esta impressão de não servir senão para beber whiskies (a cerveja é uma adversidade, mais uma) me largue antes de poder sonhar com outros terrenos, outros corpos.

Uma vez conheci uma mulher pela qual me apaixonei. Um dia fui esperá-la ao aeroporto e vi todas as mulheres da minha vida, todos os aeroportos. Vi, como antes de morrer, todas as mulheres que esperei em todos os aeroportos e apercebi-me de que nos enganávamos de silêncio, ela e  eu. Amava-a demasiado para lhe infligir o campo de batalha no qual a minha vida se tinha transformado. Amava-a muito; ainda a amo, de certa maneira, como amo todos os silêncios inexplorados, incompletos, frustrados. Ela detesta-me, odeia-me, com razão: outro silêncio mal interpretado, outro silêncio mortal, outro silêncio de que portarei o estigma até ao fim. Há silêncios invioláveis, impossíveis de partilhar; os meus são-no cada vez mais, angustiantes.

III

Escrevia estas linhas em Londres. Nessa altura não media a amplitude da devastação. Hoje, nestes comboios quotidianos (que em breve acabarão, eles também), ainda ferido, ainda só, tento “quebrar o silêncio”, recompô-lo numa memória de computador, na minha memória. É difícil: quando se teve por única companhia, durante tanto tempo, um dado silêncio é difícil mudar: não se pode mudar de silêncio como se muda de camisa. Como não se pode mudar de dor, nem a dor.

Alguns silêncios têm cores. Um dos meus silêncios favoritos é negro, como os cabelos de uma rapariga por quem me apaixonei há uns anos numa praia de Moçambique. Estávamos deitados na areia, a olhar o céu e a falar – ela de Lanzarote, onde tinha nascido, de Londres, onde vivia, do trabalho, com o qual não estava contente. Eu das raízes, que teimam em crescer e das quais é tão difícil fugir, às quais é tão difícil voltar; de como é imperioso fechar as portas que deixámos abertas por muito que os anos tenham passado. O desejo subia em nós como a maré, como um copo que se deixa debaixo de uma torneira que pinga em silêncio. Olhava-a e via a mancha negra dos cabelos dela no branco da areia e falava, falava, porque frequentemente falar é o melhor silêncio. Hoje está a chover e a chuva é espessa e negra e brilhante como os cabelos dela na areia. Não sabia que estava apaixonado e de qualquer maneira não queria estar apaixonado, porque não queria sofrer mais, nem fazer sofrer. No fim, como sempre, os silêncios levaram a melhor ao desejo: disse-lhe boa noite, acompanhei-a ao quarto do hotel e fui deitar-me sozinho, dorido.

Agora é tarde, demasiado tarde. Já não estou apaixonado por ela porque o amor é como a chuva: ou nos deixa molhados e frios ou - como a erva nos planaltos do Zaire - leves, brilhantes e abençoados. Os silêncios, como as chuvas e os amores, podem ser muito diferentes mesmo se se assemelham imenso. Com essa rapariga falava espanhol. Uma língua que partilhamos com alguém é uma casa que tem cantos que nunca visitamos, silêncios. No “Leopardo”, esse milagre, o Príncipe diz: “uma casa da qual conhecemos todas as divisões não merece ser habitada”. Falávamos espanhol, mas eu não sei calar-me em espanhol; –  só devemos utilizar uma língua quando podemos utilizar os seus silêncios -. Já não a amo, como a chuva que parou e deixou as ruas molhadas, mas brilhantes; quero que ela seja feliz como uma paisagem africana depois da chuva.

Que fazer, para calar os gritos ensurdecedores dos meus silêncios? Escrever, talvez.

Londres, Neuchâtel, 2001

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 12-08-2016

Ontem arrefinfei-lhe um bocadinho. Estava coberto de motivos, apresso-me a esclarecer. Hoje de manhã o italiano da cama de baixo olhou para mim com um olhar ainda mais inamistoso do que o do costume. Também tirei o sofá à chinesa que dorme na sala porque não há mais camas. Foi dormir para a varanda e teve, coitada, de afastar os mosquitos da cara. É uma jogadora. Vive em Ayamonte e vem aqui para jogar no Casino. Já somos amigos. Agora está na cozinha a explicar as suas teorias sobre o jogo. Peguei no café e deixei a tarefa de a ouvir a um jovem americano que está a fazer ovos com bacon.

Ele também nunca entrou num casino. Enfim, também não é o termo correcto. Eu entrei três vezes. Não preciso de ajuda para perder dinheiro.

Além de que prefiro dá-lo a quem faz vinho e comida e coisas assim, benfeitores. Os dos casinos e das roupas, carros e casas não precisam de mim para nada. De qualquer forma é um falso problema. Raramente tenho mais dinheiro do que aquele de que preciso para comer e parcimoniosamente. Quantas vezes nem isso. A chinesa que gaste o carcanhol como entender.

Também falei com uma jovem mulata francesa. Tenho as ressacas alegres e comunicativas. Ainda por cima estou feliz. É só somas.
 
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Os dias sucedem-se e parecem-se todos. Quando está vento paramos do outro lado do Rio; quando não está vamos à Ria de Alvor. Se fosse mais novo acharia uma chatice. Agora estou-me nas tintas. Em Ferragudo ficamos fundeados no sítio onde, há quarenta anos, acordei no P. of Lisbon e pus um pé no chão e ooops, senti água até ao tornozelo.

É uma sensação estranha, um gajo acordar num barco e ter água até ao tornozelo. Depois voltou a acontecer-me, uma ou duas vezes, mas aquela foi a primeira e eu tinha só dezoito anos. É novo de mais para ser skipper, eu sei. Na altura não sabia. A verdade é que o armador gostava de mim. Um dia disse-lhe que me ia embora para um barco à vela e ele duplicou-me o salário, que já não era mau de todo.

Depois quis oferecer-me um prédio para construir e disse-lhe que não. Se fosse dado a isso perguntar-me-ia se fiz bem. Não sou e não pergunto. Para quê?

11.8.16

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 11-08-2016

De incêndios só conheço os metafóricos, aqueles que chamuscam por dentro e levam anos a apagar, aqueles de quem uma vez disse "por favor não ateies incêndios que não podes apagar" (não serviu de nada, claro, nunca servem essas súplicas porque nao dependem das pessoas, dependem de coisas que não controlamos, ninguém controla e não há bombeiros, apagam-se por combustão de todo o material combustível), aqueles que nascem de um acaso ou de um plano, de manhã ou à tarde ou à noite, premeditados ou não, aqueles que quando são bons todos os dias reacendemos e agradecemos e damos graças a quem no-los ateou.

Desses percebo e sobre eles por vezes até dou palpites. Dos outros percebo tanto como de futebol e tão pouco palpito. Enfim, perceberia se se pudessem perceber; não podem. Finjo que percebo e dou graças. E vivo-os, que já é mais do que muitos esperam deles.

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A Praia da Rocha para os matinais é um inferno; menos, verdade seja dita, do que Palma de Mallorca, mas inferno. E não peço muito: que tenha wifi (isto é fácil, abençoado país), uma tomada para o computador, esteja limpo e não seja frequentado por todos os bêbedos num raio de cinquenta quilómetros, pelas caixeiras e empregadas de mesa que querem ser admiradas a dobrar por esses bêbedos, tenha pão decente para as torradas e pouco mais.

Quesitos esses que o café Trolls reúne desde as sete da manhã, pelo que é provável que me torne cliente habitual, apesar do nome. (Um bocadinho pleonástico, não é, eu ir ao Trolls?)

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Tal como a "Europa" devia ter várias velocidades assim o tempo, para certas pessoas - normalmente, vá lá saber-se porquê, do sexo feminino - devia andar a ritmos diferentes.

A jovem senhora que me serve imperiais quando volto do "mar", por exemplo, não perderia nada se envelhecesse um ano por semana (desde que eu o fizesse a um ritmo mais lento, um ano por século, por exemplo).

Não que seja invejoso ou esteja eivado de maus sentimentos. Mas porque ele há coisas que requerem uma certa idade, digamos; experiência; sabedoria, até, para serem devidamente apreciadas.

(Este post é sobre estética. Nada de o confundir com lascívia por favor).

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Os meus padrões de sono não são os ideais para uma camarata, mas como no Villarade estas são pequenas só chateio um vizinho.

10.8.16

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 10-08-2016

Hoje atasquei-me na cama. Sorte a minha, começo a trabalhar mais tarde. Ele há boas coincidências.

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A Praia da Rocha tem mais gente do que a Baixa de Lisboa em vésperas de Natal. Confesso que não percebo o atractivo, mas a julgar pela quantidade de pessoas que por aqui anda é cegueira minha. Só penso em ir-me embora, ir para a minha praia, para o meu grande rio tranquilo, tufão calmo, ciclone lento, temporal de riso, mar do fundo.

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Escrever e servir cafés parece-me um projecto de vida tão bom como outro qualquer. Ou melhor, muito melhor.

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O DV tinha muitos poemas do Pedro Tamen.

Aqui fica um, para ti, R.:

"Nada a fazer, amor: tu és nascida
e eu também, por graça ou majestade;
de lados longe e de que portos parte
esta morte insolente e assumida
que se nos dá nos dando a maior parte
do pão que se mastiga e bruxo há-de,
além de miga, ser de vida a vida?"

Palavras, monstros

Em cada palavra há dois monstros: o que ela diz e o que esconde.

9.8.16

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 09-08-2016

A senhora é gorda, antipática, peneirenta e presidente "para Portugal" de uma empresa que se dedica a vender piramidalmente produtos de saúde, emagrecimento e nutrição. Hoje ofereceu-se para me apresentar os produtos da dita empresa. Declinei, espero, o mais gentilmente que me foi possível. Tenho mais nove dias, nove. Passam num fósforo.

Enfim, passariam, não fora a intromissão na minha vida de um abalo telúrico, tsunami de beleza inteligente e sorridente, abismo e cume impromptus, surpresa e pavor, tempo e eternidade (para quem não sabe: são coisas diferentes. "O tempo é a parte da eternidade que se atrasa"). É tão bom, não é? Isto é: pode ser tão bom, não pode? Isto é: vai ser tão bom, não vai? Já é; como poderia não melhorar?

Caindo, por exemplo. No abismo as quedas doem, Enfim, que dure a dúvida pouco. O frémito está para sempre.

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Próxima etapa: aprender a lidar com a pequenez. Continuo a preferir um gajo que não me paga dez mil dólares a um que tenta reduzir o meu salário em sessenta euros.

Isto tem de mudar. Sessenta euros é menos do que dez mil dólares, estúpido.

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Há pessoas que compram um barco de centenas de milhares de euros para ir à praia. O apelo da areia não tem limites.

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Portimão: costumava detestá-la porque me perdia de carro. Agora perco-me de bicicleta. Talvez não seja a cidade.

Dia de mudança de verbos

Algo me diz que um dia o verbo Gostar não vai ser suficiente.

Diz? Não. Grita.

Serviço público - Um bar e dois restaurantes em Portimão e Praia da Rocha

Bacchus Bar - Edifício Belo Horizonte, Praia da Rocha. Tel 282 418 620
Churrasqueira de Portimão - Rua da Olivença, 16, Portimão. Tel 282 418 627
Taberna do Filipe - Rua Bartolomeu Dias, Praia da Rocha. Tel 917 056 809

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 08-08-2016 (cont.)

Foi provavelmente no Verão de setenta e seis. Se não, foi no de setenta e cinco. É forçoso reconhecer que interessa pouco. Estava em Portimão com um Princess  de trinta e cinco pés cujo hélice se tinha partido no caminho de Lisboa para aqui.

Com o hélice fora-se a solidez da aranha e o barco metia água. Estava fundeado à frente de Ferragudo e vinha com o dinghy à praia da Rocha. Quando voltava para bordo bombeava a água e ia para um bar na praia do qual gostava muito e ao qual nunca mais voltei.

Na Rocha frequentava um bar chamado Bacchus que tinha aquele que para mim foi um dos melhores barman de sempre, ao nível do Luís da Casa do Largo, do senhor Miguel do Pavilhão Chinês ou do Luís do Procópio (o facto de eu me chamar Luís Miguel não tem rigorosamente nada a ver com esta selecção. Mero acaso).

Em setenta e cinco tinha dezoito anos; em setenta e seis dezanove. Não queria os cocktails que toda a gente bebia. A minha adolescência sempre foi ao contrário das outras: afastar-me do grupo parecia-me então mais importante do que integrá-lo. Hoje lamento-o, claro.  Menos whisky e menos Nietzsche teriam feito de mim um homem de sucesso. Aposto.

No bar Bacchus o barman fez-me perceber, não me lembro como, que sabia fazer cocktails. Todos os dias lhe pedia um diferente. Mas nada que saísse do livro de receitas. Queria um criado para mim, ali, então.

Ele só me perguntava Qual a base? (Já então não gostava de coisas demasiado doces). Todos os dias inventava um cocktail para mim, que depois declinávamos até chegar "àquele ponto, exterior ao mundo, para onde tendem todos os cocktails".

Poucos anos depois li num jornal que o barman tinha ganho um prémio qualquer Internacional no estrangeiro lá fora e tudo.

As minhas passagens por Portimão tornaram-se raras, espaçadas e esqueci-me de onde era o bar. Há alguns anos reencontrei-o e hoje bebo aqui Irish Coffees divinos.

Não só porque são muito bons, não têm açúcar e são feitos com natas em vez de chantilly. Mas porque são muito bons, não têm açúcar e são feitos com natas em vez de chantilly.

Adenda: o senhor - provavelmente o que há quarenta anos me fazia cocktails - esclarece gentilmente que nunca ganhou prémios lá fora no estrangeiro. Ganhou uma vez um em Portugal. Terceiro ex-aequo.

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A Praia da Rocha está cheia de gente. Uma multidão como a do Metro em hora de ponta. Tenho de sair desta rua depressa. Se isto são férias para estas pessoas como serão os dias?

8.8.16

Fragmentos dispersos

Há pessoas assim: puxam-nos pelas palavras como carteiristas pelas carteiras dos cidadãos desprevenidos. Com uma diferença: a vítima deste carteirista estende-lhes voluntariamente a carteira: "Roube-me, por favor", diz. "A minha carteira é sua, foi feita para si, foi cheia gota a gota para si. Levou anos, sabe? Mas olhe, aqui está. É sua."

De explosões percebo pouco. De abalos e acasos, essas coisas. O acaso é ciência dúbia, ambígua.

Por muito feia que seja uma mulher nunca o será mais do que um pénis desinteressado.

É uma viagem portuguesa com certeza

Fui comprar o bilhete à estação de comboios. O senhor confirma-me que sim, posso levar a bicicleta e imprime o bilhete, o qual diz claramente "Permite transporte bicicleta" (verbatim, neste português desprovido de artigos e preposições de que as instituições tanto gostam, vá lá saber-se porquê). Por descargo de consciência pergunto a diferença de preço entre a primeira e a segunda classe. "Seis euros". "Bem, nesse caso quero primeira, se faz favor". "Não pode ser. Com a bicicleta só em segunda".

O comboio chega com quatro minutos de atraso. Não é nem frequente nem grave. Grave é o revisor dizer-me que não posso embarcar a Vitus, que o comboio não tem sítio para ela, que para Sul não há bicicletas no comboio. Digo-lhe que sim mas também e de repente vejo o sinal de Bicicletas no exterior de uma carruagem. Subo e ponho a burra no sítio em menos de um piscar de olhos. Mal acabo chega o picas.

Segue-se uma troca de opiniões e pontos de vista divergentes, que por sorte termina com o comboio a arrancar e a burra nele.

A minha carruagem está cheia a abarrotar e o ar condicionado avariado. Vou ao bar, peço uma cerveja, faço uma piada com a senhora que está antes de mim. O homem do bar é feio como uma caricatura da fealdade. Diz-me que não tem congelador "porque isto é um comboio". Respondo-lhe que trabalho em barcos e temos congelador, mas separamo-nos amigos. Quinze ou vinte minutos depois vou buscar outra cerveja e ele oferece-ma.

Entretanto, depois da rica e animada conversa com o revisor sobre a permanência da bicicleta na "composição" perguntara-lhe quanto custa um suplemento para a primeira classe. "Não pode. Não há lugares vazios".

Depois da segunda cerveja o bar está cheio - há mais carruagens sem ar condicionado -. Vou para a primeira, vejo um lugar vazio, sento-me e faço nele a viagem toda.

Poupei seis euros, fiz um amigo no bar do comboio que prova que quem vê caras não vê corações (ainda por cima o homem parece uma versão feia do Manelito da Mafalda) e demonstrei irrefutavelmente que o P de CP significa Portugal.

6.8.16

Oiça um bom conselho...

Não procures o homem certo, mas o possível.

O certo transforma-se em errado mais vezes e mais depressa do que possível em impossível.

5.8.16

4.8.16

Diário de Bordos - Puerto Banús, Andalucia, Espanha, 04-08-2016 / II

Acabei por me vir embora da Taberna del Pintxo. O empregado insistia em oferecer-me os Limoncello e nada me chateia mais do que oferecerem-me coisas quando tenho dinheiro para as pagar. Quando não tenho - o que é muito mais frequente - ninguém me oferece nada.

Pelo menos com tanta vontade e de sorriso tão aberto. Vim ao Sud de France, que não deve ser bem um restaurante. É um cenário para um filme sobre a família, tipo aquela série que tem uma senhora colombiana, ou peruana, ou o que for.

Enfim, a verdade é que fecharam e deixaram-me ficar na mesa. Passo os pormenores. É um lugar que recomendo. Um canto de França num dos piores sítios de Espanha não pode dar errado.

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Puerto Banús sendo Puerto Banús encontrei uma loja que vende carregadores de telefone. Que sim, tinham carregadores para o meu telefone. Que sim, quero um se faz favor. Espere: posso só experimentar para ver se não será o telefone que está avariado? Pode, claro. Olhe, o telefone carrega. Óptimo. Já agora se não se importa experimento o meu carregador, só para ter a certeza. Claro, não há problema nenhum. Olhe, também carrega.

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Felizmente para norte do Sud de France há um café aberto. Com sorte vendem-me um Bayley's. Vendem, mas não têm troco para a nota que tenho. Não faz mal, paga amanhã. Não posso, vou-me embora muito cedo. Então ofereço-lho.

Talvez esteja na hora de ir para bordo, não? Sim, mas primeiro acabo o Bayley's.

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Nota bene: o restaurante chama-se La Salmoneria e fica mesmo ao lado do Sud de France nos Jardines del Puerto. A próxima vez que vier a Puerto Banús vou lá comer, fica a promessa.

(Cont.)

Frase a evitar: Sou amigo do peito dela. Substituir por: -------

Não substittuir. Levam todas ao mesmo.

Diário de Bordos - Puerto Banús, Andalucia, Espanha, 04-08-2016

O carregador do telefone deixou de carregar; o computador decidiu começar a actualizar-se e a este ritmo chega amanhã à guerra dos Cem Anos; estou demasiado cansado para me chatear...

O budismo é resultado do cansaço, sempre suspeitei. Tanta sageza não pode ter uma origem normal.

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Não sou eu que gasto demasiado dinheiro. É o país que é caro. Ou pelo menos a parte dele por onde ando.

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"Como consegues sair de casa sem um livro?" perguntaram-me há uns anos. É em momentos como os de hoje que vejo a pertinência da pergunta.

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Os empregados da Taberna del Pintxo são todos magríssimos. Não admira: nunca ninguém viu um gordo fazer atletismo.

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Quando aqui cheguei tinha fome, o telefone um bocadinho de carga, o computador estava apagado e não sabia ainda que ia "actualizar-se", coitado.

Sobretudo, a senhora de verde da mesa ao lado estava sentada com as costas direitas e o rabo espetado, provavelmente a posição mais erótica que uma senhora pode ter num lugar público fazendo simultaneamente figuras felizes (isto é, não fazendo figuras tristes).

Tudo mudou: as costas de senhora encurvaram-se (e depois saiu), o telefone emudeceu e assim ficará até eu encontrar um carregador, o computador chegou finalmente ao século vinte e um (pelo menos espero - [não chegou]), a minha fome foi-se num dilúvio de pintxos.

Duas horas mudam um mundo.

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Amanhã estou em Lisboa.

(Esta é a coisa mais importante que escrevi nos últimos duzentos e cinquenta anos).

Sorte telefónica

Os meus telefones têm três estados habituais: ou estão sem bateria, ou sem saldo ou debaixo de água. Nenhum destes estados exclui qualquer dos outros: organizam-se frequentemente em grupos de dois; e não raro (mas menos frequente) juntam-se os três.

Desta vez tenho sorte: é o carregador que está avariado.

Da série coisas boas de se ouvir pela manhã

Agradeço a J., o agente que me arranjou este trabalho. "Não tens nada que agradecer", responde. "Sabes qual seria o melhor agradecimento que eu poderia ter de todos os capitães a quem arranjo trabalhos? É que fossem todos como tu".

2.8.16

Más e consciências

Devia escrever qualquer coisa. Quanto mais não fosse para justificar manterem o café aberto só por minha causa.

Gravidade

Cair em mim, como por gravidade alguns planetas caem noutros.

Droga, vida

Hoje disse a R., o armador, que quero parar. Respondeu-me "vai ser difícil. Estás acostumado a essa vida. É uma droga".

Falamos em inglês, claro. Não sabe que em português droga tem dois sentidos.

Diário de Bordos - Cartagena, Murcia, Espanha, 02-08-2016

Esta coisa do wifi tem que se lhe diga. Fia mais fino, por assim dizer: não basta tê-lo; é preciso que funcione e chegue ao sítio onde queremos sentar-nos.

Felizmente no café La Taona todas as condições estão preenchidas, desde que o utilizador do sistema não se queira sentar na esplanada - não quero - e tenha um computador que não amue - não tenho. O meu wifi (meu por oposição ao do café) faz regularmente birras e deixa de funcionar sem quê nem porquê.

Que se lixe o wifi, para dizer a verdade. É um não-problema, um problema de homem branco, o que quiserem. Por mim, estou-me nas tintas. Escrevo, copio para Word, reinicio o computador as vezes que forem necessárias (às vezes são muitas) e ecco, o Don Vivo continua, o Facebook não escapa, o Youtube debita (não é frequente, mas enfim. Seria triste reconhecer em público que tenho poucos mails, ninguém me escreve, como se eu fosse um coronel à espera de carcanhol.

Não sou coronel).

.........
De que Cartagena falas?, pergunta-me quem vem de outros hemisférios. Da que um dia atravessei a correr e não daquela em que passava os dias sentado a beber café e a ler Gabriel Garcia Marquez. Tenho duas Cartagenas e gosto de ambas, se bem prefira o nome de uma delas: Cartagena de Indias é um erro sublime e faz sonhar como todos os erros sublimes.

Percorri uma e deixei que a outra me percorresse, mero num navio afundado, demasiado grande para sair do camarote onde entrou ainda novo. Ou uma versão nómada do Nero Wolfe, imagem aliciante s'il en est.

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Amanhã largamos cedo; trata-se de avançar o mais possível. Quinta-feira o tempo não vai estar grande coisa.

I wish you were here é uma grande canção, não é?

"So, so you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skys from pain.
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?"

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O café La Taona tem inúmeras vantagens. As tapas são a excepção: a única que se safa é a tortilla. Felizmente está ao nível da que aprendi a fazer há uns anos e é difícil de igualar. Esta não anda nada longe (não é difícil: basta confitar as batatas em vez de as fritar e não deixar secar demasiado os ovos).

Mas as vantagens compensam: é bonito, está vazio e fica entre a Filmoteca de Cartagena, que lhe dá uma clientela (pelo menos quando a há) vagamente intelectual, diferente da que polui o resto da rua e um palácio de que só entrevi uma sala mas deve ser lindo.

Enfim, sou injusto. Poluir é uma deturpação quase involuntária de povoar. Escreve-se por sons, não é?

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Há mais no café La Taona do que aquilo que se vê, mas agora é tarde para desenvolver isto tudo. Fica para depois, como a morte ou a loucura (de que a história do palácio ao lado está cheia).

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Livro de Lugares? Cada coisa tem o seu lugar, cada lugar a sua coisa. Cartagena seria o cenário dos amores.

No plural: os que sabemos e os que ignoramos.

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As religiões têm humor? Com excepção do Zen e do politeísmo grego (não deve ser o único) penso que não. Se tiverem não são religiões.

O cepticismo é de direita, a crença de esquerda? Tópico a desenvolver quando tiver acabado o sabão.

Retrato quase verosímil

Era membro fundador do clube dos amigos do peito.

Agosto, Cartagena

Agosto chegou, finalmente. Veio à socapa, no bico dos pés. Queria apanhar-me em Cartagena uma cidade que seria Agosto se os cafés fossem praias.

Agosto é uma longa e sinuosa praia. Cartagena é uma longa e sinuosa rua pedonal. Se não formos à praia descobrimos outro Agosto; se não formos à rua pedonal de Cartagena descobrimos outra Cartagena.

Em Agosto gosto da palavra, uma contradição escondida à vista de toda a gente: A-gosto. Não-gosto. "Des-gosto", diz uma poetisa brasileira de quem gosto poemas e do humor.

A (contra)gosto gosto de Agosto: prometi que ia mudar de vida e o primeiro episódio vai ser gostar de Agosto.

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Foi assim que de repente de tão cansado se me esvaiu Cartagena pelos poros todos.

1.8.16

Diário de Bordos - Cartagena, Murcia, Espanha, 01-08-2016

A grande vantagem de se ser skipper de uma embarcação a motor de setenta pés é que ninguém espera que seja eu a tratar dos problemas de merda (ou dos tanques de merda, para as almas mais sensíveis). A minha intervenção limita-se a identificar o problema e chamar a pessoa adequada para o resolver.

(Isto não impede que em Alicante tenha esvaziado seis baldes seis de água e merda, mas isso é só porque não sei não ser eu. Depois parei: em cada ciclo entrar e sair dos fundos consumia mais tempo do que o resto do processo.

Neste preciso momento está um aspirador gigante a aspirar o resto da água e elementos orgânicos).

Em Cartagena, claro. Ainda não fui à cidade...

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Hoje apanhámos um bocadinho de porrada à saída de Alicante e partiu-se o vidro de uma das mesas do salão. Nesta merda destas embarcações as mesas não estão aparafusadas ao chão.