22.7.17

Escrever nos jornais

"Escrever nos jornais é fácil. O escritor tem que fingir que é inteligente;  o jornalista apenas precisa de esconder a sua ignorância ."

Matías Vallés, in Diário de Mallorca, 21-07-2017 (a tradução é minha).

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Mallorca, Baleares, 22-07-2017

Ontem fui palmear e voltei palmeado para bordo. É bom, não fora a dor de cabeça e ter de ler posts sobre o racismo anti-mamas das mulheres feias que enchem as ruas de Palma. Não o apago. Contra factos não há censura que resista.

As estrangeiras são feias, com a notória excepção de uma vizinha portuguesa num Jeanneau 57 que se pôs ao meu lado (o Jeanneau, não a vizinha).

Toda a gente sabe que as mulheres do nosso país são as mais bonitas de todas, opinião essa partilhada por todos os homens de todos os países.

Com ou sem dor de cabeça.

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Ontem chateei-me com o armador, mas como sou um rapazinho crescido e responsável não desembarquei. É cada vez mais difícil queixar-me de mim. A continuar assim ainda acabo a acreditar que tenho razões para estar orgulhoso aqui do eu.

Enfim, que se me lixe. Voltei para bordo razoavelmente palmeado, a julgar pela extensão dos estragos.

........
Uma das muitas razões de queixa que tenho da embarcação que gentilmente me acolhe no seu (metafórico) seio é o cozinheiro. Chama-se Paolo, é italiano e é muito simplesmente o melhor cozinheiro (todas as nacionalidades consideradas) com quem já naveguei.

O sacana não cozinha: faz milagres, todos os dias um, declinado em antipasti, primo piatto, secondo e seguintes. Isto não se faz a um homem cujo grande objectivo na vida é emagrecer (depois de ser amado, claro).

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Hoje à tarde vem o novo grupo, uma família de equatorianos. Já lhes dissemos que o ar condicionado não funciona. Mas só o ar. Não lhes falámos das outras coisas: as que eles vêem estarão reparadas e as outras eles não verão. Só inverno.

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De Veneza dizia Cocteau que é uma preta reclinada no banho (cito de memória, a qual está razoavelmente palmeado, relembro).

Palma é essa preta a sair da banheira, esplêndida e reluzente.

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Vou tomar o pequeno-almoço e alugar uma bicicleta. A última vez que aqui estive custava cinco euros por dia e não me lembro de alguma vez ter gasto cinco euros tão bem gastos.

21.7.17

Factos e opiniões

Palma está cheia de estrangeiras feias e sem mamas, não por serem estrangeiras sem mamas mas por serem estrangeiras, feias e não terem mamas.

É factual, não opinativo.

A relação de Palma de Mallorca com a felicidade devia ser estudada

Animula vagula blandula
Hospes comesque corporis
Pallidula rigida nudula
Nec ut soles dabis Iocos.

Little soul, you charming little wanderer, my body's guest and partner,
Where are you off to now?
somewhere without colour, savage and bare;
You'll crack no more of your jokes once you're there.


Cada vez que estou em Palma penso neste poema de Adriano, chegado a mim via Yourcenar, Marguerite magnífica.

E cada vez que estou em Palma pergunto-me se se deve voltar a um sítio onde se foi feliz. A seguir pergunto-me se fui feliz em Palma (a resposta é sim, sem conversa de treta). Depois: deve voltar-se a um sítio onde se foi infeliz? (Nunca fui infeliz em Palma. A pergunta é parcialmente retórica).

Depois pergunto-me "porque sou mais tolerante com a minha cabeça do que com o meu corpo?" Porque me chateia mais uma anca que dói do que a cabeça que faz essa anca andar?

Nunca fui muitas vezes à Bodega Bellver enquanto aqui vivi, hoje um dos meus lugares favoritos nesta cidade (que amo, relembro, como se aqui tivesse nascido).

Pela razão simples e indiscutível que: (dois pontos): fui feliz aqui. Melhor: sou feliz, não porque viva no passado mas porque vivo no futuro.

18.7.17

Fascínio dos chatos

Uma das coisas que mais me fascina nas pessoas chatas é como conseguem ser sempre tão prodigiosamente chatas. Como fazem?

A senhora que não consegue dormir sem ar condicionado e com o gerador e dormia abandonadamente com o gerador, a música do Paolo, as palmas de toda a gente e sem ar condicionado está a fazer o grupo todo esperar há aproximadamente meia hora.

Como é que fazem?

Diário de Bordos - Pollensa, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-07-2017

O mínimo que se pode dizer é que o dia foi difícil; o máximo, que demos a volta por cima. O ar condicionado não está bom mas está melhor; o Paolo, depois do dia horrível que passou arranjou energia para cantar e tocar guitarra - faz bem as duas coisas - e temos os clientes todos no cockpit a cantar e a bater palmas e à espera de estarem todos prontos - um deles faz anos e vão jantar a terra -; a senhora por assim dizer freudiana dorme perdida no cockpit. O gerador, se misturado com música e com uma falta de paciência geral não é impedimento.

Eu escrevo e anseio pelo momento em que o bote fique vazio e possa ir à tasca beber um rum tranquilo, longe de músicas, clientes e tripulantes  (por excepcionais que estes sejam, e são).

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Se o vento cair esta noite começo a ter visões semelhantes às de Santa Hildegarda. Se não cair também.

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Para quem não sabe: o ar condicionado, para as pessoas do continente americano tem o mesmo estatuto que a religião ou a política: são coisas que não se discutem.

Ninguém vai dizer a um imbecil que a sua imbecilidade tem mais a ver com a necessidade de reconhecimento social  (vulgo status) do que com uma hipotética e o mais da vezes inexistente deficiência intelectual.

E ainda há quem se admire por tudo o que bebemos quando chegamos a terra

Uma das clientes é - usemos um eufemismo, Freud morreu há algum tempo - extrovertida.

Hoje apareceu a primeira sombra de um talvez de uma ínfima possibilidade de repararmos nós próprios o ar condicionado. Anunciei a notícia, com mais do que as devidas precauções: era a sombra de um talvez.

Resposta da senhora: "Se vocês conseguirem reparar o ar condicionado vamos ter o gerador toda a noite? Eu não consigo dormir com barulho".

17.7.17

Toalhas e patetices

Não é preciso conhecer-me muito bem para saber que eu não trocaria o que faço por nada deste mundo. Ou pelo menos por nada que não me obrigue a estar de sentinela numa lavanderia auto-serviço à espera que oito toalhas de banho sequem (agora. Já as lavei) porque se for - como era minha intenção - beber uma cerveja ou um balde delas arrisco-me a encontrar as portas fechadas. Já foi uma sorte estarem abertas quando cheguei. E agora espero (nos dois sentidos do termo) que a señorita encarregada de fechar as

Chegou. Fiquei eu encarregado de apagar a luz e fechar a porta.

Infelizmente não posso contar porque é que acabo de passar quase duas horas numa lavandaria de auto-serviço e a ela tenho de voltar daqui a quarenta e cinco minutos. O Don Vivo é um blog que se pretende sério, oscila entre o dramático e a tragédia e contar história cómicas (ou patéticas. Ou patetas) vai absolutamente contra a linha editorial.

Diário de Bordos - Ciudadela, Menorca, Baleares, Espanha, 17-07-2017

Já me tinha esquecido de como era bom. Ouvir música de merda todo o dia, ter que lidar com o ar condicionado que não funciona e a necessidade absoluta e imperiosa de uma toalha de praia além da outra, lidar com os arrufos da tripulação, ter de parar em tudo quanto é sítio bonito, poder ir devagar, comer sublimemente, dormir num camarote de merda, ter uma casa de banho na qual mal caibo e mal caberei enquanto não perder quarenta quilos, ser pago menos do que uma mulher a dias, trabalhar o dobro e ter cinquenta vezes mais responsabilidades, ser feliz.

Ser feliz.

PC, censura

O modo normal de lidar com a diferença de opiniões é a censura. Houve um breve intervalo de tempo, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a emergência do Politicamente Correcto (ou mais correctamente do marxismo e derivados) como ideologia dominante durante o qual se acreditou na liberdade de expressão. Essa época acabou. Os dois PCs ganharam.

15.7.17

Diário de Bordos - Menorca, Baleares, Espanha, 15-07-2017 (post a posteriori)

Isto dito, de Menorca até agora conheço dois restaurantes, um shipchandler e o escritório da marina.

Num desses restaurantes comi um bacalhau "panado" e que está claramente entre os dois melhores bacalhaus que jamais comi.

O outro foi na La Toupina, em Bordeaux. Não deixa de ser curioso que um português amante de bacalhau, conservador e céptico (passe a redundância) precise de ir ao estrangeiro para confirmar as ilimitadas capacidades gastronómicas do bicho.

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Vou ter problemas com esta malta por causa do ar condicionado. São mexicanos.

Como todos os latino-americanos "detestam" os Estados Unidos e copiam tudo o que os americanos fazem.

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Hoje de repente pareceu-me que em breve poderia ter uma proposta de trabalho num cata de oitenta e quatro pés nos Estados Unidos.

A proposta ainda não chegou mas já lhe disse que não. O Alentejo tem muita força.

(Inimaginável: é um dos botes mais bonitos nos quais me foi dado entrar, muitas vezes. Se alguém algum dia me dissesse que a minha cabeça se fechou a uma coisa destas eu diria "és maluco". Se acrescentasse que esta decisão me encheria de alegria eu diria "estás doente").

Não estou nem sou. A Flórida é muito longe do Alentejo (e de resto a proposta ainda não chegou).

........
Primeiro contacto com a alta burguesia mexicana? Não. Em Acapulco já tive o prazer dúbio de confirmar que na América Latina o mais pequeno dos problemas são os gringos.

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Logo a seguir a um bom amor a melhor coisa do mundo é uma boa tripulação. Um bom bote vem em terceiro lugar nas raízes do bem-estar, harmonia e felicidade.

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O charter é uma actividade nobre: trabalha-se para explicar às pessoas porque tiveram razão em esfolar-se o ano todo como nós nos esfolamos agora, nestas horas entre a saída de uns clientes e a chegada dos outros, e durante a estadia deles a bordo e depois nas reparações de fim da época.

Se bem seja forçoso reconhecer que a simetria não é perfeita. Longe disso, sejam Deus ou quem o substitui louvados.

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Quando era miúdo sonhava ser rico (como todos os miúdos, suponho) quando fosse "grande". Hoje sou grande e percebo até que ponto realizei o meu sonho de infância, apesar de não ter - literalmente - onde cair morto.

Enfim, literalmente é mentira: tenho setenta por cento da superfície do planeta. Deve haver pouca gente mais rica.

Talvez

[Pré-aviso de greve: se este post ficar a meio é porque eles chegaram.]

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Já passei por isto alguma centena de vezes; é sempre igual. É como convidar uma miúda para jantar, ela dizer-nos que sim lá para os lados do café e ir à casa de banho logo a seguir.

Refiro-me a este momento em que os clientes deixaram a bagagem a bordo e foram jantar.

Sabemos que eles voltam. Mas quando?

Sabemos - não nascemos ontem - que o quando? é a menor das questões (como de resto no caso da miúda que "foi à casa de banho". O que importa realmente é tudo o que virá a seguir).

Talvez.

Diário de Bordos - Menorca, Baleares, Espanha, 15-07-2017

Ainda é muito cedo para ter certezas. É sempre, de qualquer forma, não é? Só no momento em que estamos a ir desta para melhor o pudemos afirmar sem dúvidas. Mas tudo indica que estou outra vez num ciclo de sorte daqueles que o transporte do ano passado para San Diego me fez crer que não viriam mais e o deste ano para Atenas sim. E o job no Med o ano passado sim e o do Algarve não e o da Flórida nem sim nem não; e por aí fora. Não sei. Ninguém sabe.

Mas sei que sim, que tudo indica tive muita sorte: o bote é sublime, o armador idem e a tripulação também. Dois meses e meio de charter no Mediterrâneo nestas condições fazem-me agradecer ter ido comprar as místicas antes de vir: vou precisar das palavras delas para agradecer (não sei a quem, mas isso é outra história. A gratidão está cá).

Sessenta e cinco pés, quarenta e cinco toneladas de deslocamento, nove passageiros no máximo (normalmente entre cinco e oito). O barco é um desenho canadiano construído em 1986 e um pouco modificado por um armador americano. Ketch (e não sloop como inicialmente pensei).

14.7.17

Ódios de estimação - Aeroportos

É verdade que o mau humor provocado pela anca não ajuda. Mas é igualmente verdade que no aeroporto de Madrid nada ajuda: só não é o pior do mundo porque tem o de Miami para lhe fazer concorrência.

Tem os defeitos todos de todos os aeroportos do planeta - e mais agora, que estão transformados em centros comerciais -, aos quais se junta um de Espanha: o wifi é deplorável.

Tenho cinco horas de espera. Mais vale ir comprar um bocadinho de paciência. A de Ribera del Duero costuma ser boa.

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 14-07-2017

Sexta-feira feira de Julho, feriado em França. O aeroporto de Genebra está a abarrotar pelas costuras.

Depois lembro-me que amanhã estará pior e tremo ainda mais. Não por mim, que estarei em Menorca a tomar posse do novo escritório, mas pelos desgraçados que terão de suportar estas intermináveis filas, este horror de rodas e de beijos.

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Pergunto-me se a dor na anca me dará direito ao canal prioritário e decido que não. Não vou dar-lhe essa honra. Desprezo-a e tudo o que quero é vê-la fora da minha vida e não lhe dever nada.

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Três meses de charter no Mediterrâneo Central (Baleares primeiro, depois Córsega e Sardenha) num ketch 65'.

Não é uma miserável dor de anca que vai chatear-me.

É não ser no Alentejo.

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Uma semana deitado num sofá por causa de uma puta de uma dor e nunca senti que não estava em casa.

Será que se pode adaptar às casas aquela velha piada do gajo que dizia "eu não tenho um carro, tenho uma frota de carros. Estão pintados de verde e preto". As minhas casas não são todas da mesma cor mas têm outro denominador comum.

Começa por A.

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Comprei uma série de livros (enfim, três) de místicas religiosas da Idade Média. Se um dia tiver de descrever o que sinto naqueles dias que precedem um embarque preciso de modelos apropriados.

13.7.17

Manhã muda

Desejo. É do desejo que quero falar-te.

É do desejo que quero falar-te e por ele amar-te, surdo e cego: tu um alvo e eu um dardo, luz e eu janela.

Daqui partimos sem selas e sem rédeas.

Desejo, bendito desejo. Estupenda e interminável manhã muda.

12.7.17

Da liberdade (ainda, sempre)

- Mas a saúde, não posso desejá-la?
- De modo nenhum; nem de resto qualquer outra coisa que te seja estrangeira. Porque tudo o que não podes procurar ou manter como queres é-te estrangeiro. Mantém longe não somente as tuas mãos, mas o teu desejo. Se não, entregas-te tu próprio à escravidão, pões o pescoço no jugo se te deixas fascinar pelo que não te pertence, se te amarras ao que depende de outrém e é perecível.

Epictecto, in Da Liberdade, etc. (cf. post anterior).

Da liberdade

"É por isso que nós chamaremos livres apenas aos animais que não suportam a captividade e assim que estejam captivos se escapam pela morte".

Epicteto, in De la Liberté (extractos de Entretiens. Livres I a IV), éd. Gallimard, collection Folio, traduzido do francês por mim.

Democracia e andaimes

A Internet deu outro peso à expressão "sou um democrata". Literalmente: ser-se democrata radical, como sou, requer mais convicção, mais força de vontade, mais reflexão.

E concomitantemente faz o mesmo à ideia de que a ausência de democracia é pior: não se pode pensar a democracia sem a ter no espírito, como se fosse uma bengala ou um andaime quando se pinta um prédio. 

Nunca é de mais relembrar...

...que tenho cada vez menos paciência e sou cada vez mais tolerante.

Debates, Pavlov

A Internet é uma maravilha, estarei sempre na primeira fila dos que o afirmam. Mas tem um inconveniente muito grande: torna audíveis as vozes que antes só ouvíamos se quiséssemos e dá-lhes um espaço e um peso políticos que não tinham.

O recente "debate" (entre aspas porque se isto são debates eu sou a mulher do Papa) sobre o "racismo" (cito) das declarações de Macron sobre a natalidade em África é aflitivo. As massas de cães começam a ladrar antes mesmo de perceber a que ladram.

O debate politico é uma troca de reflexos pavlovianos entre clubes semelhantes aos de futebol. Sempre foi, verdade. Mas pelo menos estava confinado aos cafés e às tabernas, não nos saltava à cara cada vez que se vai ao Facebook. 

Arquétipos

Um homem está deitado, doente. Pensa no que lhe provocou a doença. Tem várias opções: Deus, uma bruxa ou o mau-olhado de uma mulher que algum dia abandonou, a sua falta de cuidado consigo próprio, ninguém. (Isto é, ninguém definível. Pode ser a idade, o uso normal do corpo, o ar do mar ou da montanha ou a poluição da cidade onde o homem viveu a sua vida). Não acredita em Deus, mas que seria de um arquétipo sem Ele? Tão pouco crê em bruxas, ou na sua própria capacidade de alterar a ordem das coisas, de influir no corpo que o leva aonde quer que vá. "Talvez seja o contrário, talvez seja eu que levo o corpo", pensa.

Não acredita na auto-comiseração: tem mais empatia com o mundo exterior. Uma árvore doente, um cachorro cego, um rio poluído, uma nuvem que se desfaz em chuva provocam-lhe mais dor e mal-estar do que a sua própria doença.

O homem jaz na cama, imóvel. Não sabemos se está morto se vivo. Podemos contudo adivinhar que na sua cabeça - morta ou viva - arquétipos se batem, constroem, desfazem. Pensa: "que fiz das ideias que me guiaram ao longo da vida? Se calhar não fui senão um joguete nas mãos dos arquétipos. O resultado de uma (ou muitas) das suas brincadeiras. Talvez tudo o que fui e fiz fossem apenas manifestações cómicas, patéticas e risíveis de um modelo qualquer que um Deus bêbedo reservou para mim, talvez eu não passe de um conjunto de ideias primordiais das quais só a dor perdurou. Talvez não seja nada, talvez seja tudo e tudo se resuma a esta doença, talvez haja algures no universo neste momento a ideia de quem eu sou a manifestação física e esteja a perguntar-se o que fazer comigo, de mim?"

Talvez. É noite, uma daquelas noites sem Lua e sem o perdão do sono.

Não. Cada um de nós é o arquétipo de si próprio, cada um de nós se constrói enquanto constrói a vida, simultaneamente. Morrer é acabar de nascer. Os arquétipos não existem: antes de morrer não estão completos e depois desaparecem, como se nunca sequer tivessem existido.

(Para a C., com um beijo que é o beijo de todos os beijos).

11.7.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 11-07-2017

As dores vão mudando no sentido dos ponteiros do relógio. Agora é a anca esquerda. Isto devem ser sintomas de que preciso de ir à revisão dos sessenta.

Até lá, uma vida de cão: como, durmo e vou passear a cadela para fazer xixi (ela, eu faço em casa). Passeios curtos, que os comprimidos ainda não começaram a fazer efeito.

(A palavra comprimidos começa a provocar-me uma aversão notável. Cada vez que penso nela, a escrevo ou oiço tenho vontade de sacar um revólver).

Como sempre, quanto menos se faz menos se faz. Ou, dito de outra forma: quanto mais se dorme mais sono se tem. Por enquanto ainda está na linha orçamental "descanso", mas os sinais de que em breve passará para "seca" acumulam-se.

10.7.17

Personagens ideais

Revolucionário céptico.
Sonhador realista.
Troglodita culto.
Vidente mudo.

Nesfake

O Nespresso está para o café como as fake news para as notícias e é igualmente pernicioso: está em todo o lado, é impossível escapar-lhe, parece café e não é, intoxica o ambiente.

Que se tenha tornado um símbolo da burguesia diz mais sobre ela do que muitos tratados de sociologia.

9.7.17

Paraíso fiscal

J. vai viver para Portugal por razões fiscais. Descubro com prazer que vivo num paraíso fiscal.

Só é pena é não ser suíço (ou francês ou belga): são os únicos que lhe têm acesso sem precisarem de ser ricos e de ouro.

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 09-07-2017

"O corpo é teu aliado", diz-me S. ao pequeno-almoço. "Não é teu inimigo". Depois de anos de uma guerra surda (nem sempre...) entre mim e o meu corpo parece que a idade, esse grande pacificador vai conseguir unir-nos.

Dou por mim a fazer a lista, como se a tivesse à porta. (Não está, claro. Falta-me simplesmente prática: na guerra entre mim e o corpo ganhei a maioria das batalhas). Descubro que só me falta uma coisa e mesmo essa está a caminho. Quando estiver feita o que vier a mais será conversa de encher chouriços, uma outra forma de paz.

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O calor e o sol foram substituídos por nuvens e aguaceiros. A normalidade retoma o poder, como sempre.

........
"Carouge emburguesou-se", queixa-se J., ele mesmo um belíssimo (literal e metaforicamente) exemplar de burguês.

Isto da burguesia é como o turismo: só acontece aos outros.

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Genebra é uma cidade tão limpa... Tudo é limpo aqui: as ruas, as pessoas, os carros, os passeios. Não admira que um gajo por vezes se sinta num museu de cera, por muito que goste de limpeza.

8.7.17

Desfasamento

Fui consultar o DSM, doutor e não encontrei "desfasamento múltiplo espácio-temporal" em lado nenhum. O DSM é tão exaustivo numas coisas e tão falho noutras, não é?

Não sabe o que é DME-T? Acabo de inventar o termo, mas o síndroma é conhecido desde a antiguidade. De Homero a Camus, Álvaro de Campos, Tagore... Foram tantos os que escreveram sobre esta sensação de se estar aqui e ali e não se ser dali nem daqui, de não se ser de hoje nem de ontem - como gostar da modernidade e como não desesperar quando se pensa que nunca a humanidade viveu tão bem -? Como não estremecer à vista de um senhor no mercado que vende "tomates pleine terre" como se os outros pudessem ser considerados tomates e não pensar ao mesmo tempo que esses outros "tomates" permitiram a milhões de pessoas acesso a legumes no inverno?

Estar grato ao ersatz, doutor. Talvez seja este o primeiro sintoma de desfasamento. Como se andássemos numa corda bamba sabendo que ela não está lá e agradecendo-lhe na mesma a ilusão.

Uma corda bamba que vai daqui para ali e de agora para o passado e nós - nós os que sofremos do síndroma - estamos no cruzamento das duas, apesar de ambas começarem onde nós estamos quando lá estamos e acabarem em nós, onde estivemos quando estivemos.

Não sou daqui e não sou de hoje, não sou de ontem nem dali.

Quiçá

Assim de repente parece-me o Gato Barbieri; mas a suposição é falível: estou sem óculos e o som demasiado baixo para a minha surdez. Só oiço fragmentos minúsculos da peça e é com eles que vou adormecer.

Penso nas paisagens do Jura, redondas e hipnotizantes, nos dias todos que vivi, agrestes e nada fascinantes, no quanto a minha vida sem ti se parece com um abismo alpino: olho para cima, tu estás e tudo é lindo; olho para baixo, tu faltas e tudo é escuro e feio.

Mas penso nisto apenas porque não sei se é o Gato Barbieri que está a tocar. Se tivesse a certeza pensaria outra coisa, quiçá melhor.

7.7.17

Dez mil e três

Queria fazer um post a celebrar os dez mil posts (publicados) do DV.

Um post modesto: desses dez mil há que subtrair as músicas, as fotografias e os disparates. Ficam muito poucos, mas seria injusto não reconhecer quanto precisei de escrever cada um deles.

Infelizmente passei os dez mil sem dar por ela. Aqui fica a marca, três depois.

Analogia, esperança

É como em Belize: nadamos à superfície e de repente encontramos um poço que parece não ter fundo.

Isto é uma analogia: nunca estive em Belize e só conheço os poços submarinos por fotografia.

Recomecemos: nadamos à superfície e de repente mergulhamos e pensamos "desta vez não me vou afogar".

Analogia é uma das formas da esperança, não é? 

Navegações

Imaginemos um corpo e tracemos na sua superfície linhas longitudinais - que num globo terrestre seriam chamadas meridianos - e transversais (paralelos).

Imaginemos agora esse corpo deitado ao nosso lado: digamos que os meridianos são o tempo que passou e os paralelos o que há-de vir. A navegação torna-se uma questão de tempo, de cronologia. Hoje estou aqui; amanhã estarei ali.

Imaginemos que esse corpo nos ama e que a embarcação na qual o navegamos se chama Amor. (É um nome banal mas adequado). Não se pode sem amor navegar um corpo durante muito tempo dado os seus inúmeros meandros; um corpo é um mundo. Sem um barco estamos confinados à nossa ilha. Com um barco descobrimo-lo; se esse bote se chamar amor o mundo refaz-se, como as peças de Mikado que saíram do jogo e esperam pacientes e arrumadas o próximo jogo.

Bom: chegados aqui temos de optar entre os caminhos da pieguice ("O amor é um pássaro azul no alto da madrugada", por exemplo) e os outros. Outros fica indefinido: a pieguice é um planeta àparte. Tudo o que não é pieguice é válido, incluindo a retórica (excepcionalmente).

.........
Falávamos de um corpo deitado ao nosso lado e de um barco que nele nos leva a navegar. O barco chama-se Amor.

O corpo és tu.

(Para a C., que sabe mais de navegações do que eu).

Vento, Lua e noite, verdade e territórios, jantar

O quadro parece simples: uma lua quase cheia, demasiado calor para a cidade, um jantar com o ser que nos conhece melhor em tudo o que está por baixo dessa Lua. O jantar estava bom, mas não era só o jantar. Era tudo o que o precedeu. Trinta e quatro anos.

Um amor evolui como um vinho: ou melhora com o tempo ou fica vinagre. Quando melhora transforma-se em amizade. Mas é uma amizade diferente das outras, talvez porque já por ali passaram outras linhas, outros pesos, outras fintas.

Não se pode mentir a quem nos conhece como se nos tivesse feito, tal como não se deve mentir a quem não nos conhece de todo. Esses são os territórios da verdade. Não há melhor terra do que a da verdade.

O resto é vento numa noite quente de Lua quase cheia.

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 07-07-2017

Vivi em Genève pouco menos de dezassete anos ao todo. Durante esses anos ausentei-me frequentemente e com ritmos irregulares: alguns anos passava seis meses fora e seis meses aqui; outros viajava mais vezes por períodos mais curtos. No Burundi estive quase um ano seguido; no Zaire seis meses.

Genève sempre esteve para mim associada a chegadas e partidas (durante alguns anos dizia na brincadeira que o meu lugar favorito desta cidade era o aeroporto). Quando me perguntavam se gostava de aqui viver eu respondia "gosto de chegar a Genève; e meia dúzia de semanas depois gosto de me ir embora".

Desta vez é diferente, de duas maneiras: gostei como sempre de aqui chegar mas não preciso de esperar "meia dúzia de semanas" para querer ir-me embora. E - outra diferença - a razão não tem nada a ver com Genève, cidade da qual de resto aprendi a gostar estando longe dela. A razão está numa cidade do Alentejo, que não se chama "centro de gravidade" mas podia chamar.

Talvez "ponto de fuga" seja mais adequado: é para ali que convergem todas as linhas do que vejo.

........
Continuo a não perceber (aceitar, vá) esta infantil antropormofização dos animais de companhia (ontem perguntaram-me se a cadela era "um menino ou uma menina". Felizmente não estava sozinho e não pude responder o que queria). Mas tratar da conjuntivite da "menina" - tarefa que me cabe em sorte devido à quantidade de tempos livres de que usufruo - faz-me sentir uma ternura pelo animal que me era desconhecida desde os quatorze ou quinze anos.

........
"Está um calor vulgar" (no sentido de ordinário), diz G. Respondo que não. Antes pelo contrário, abençoado seja. Contudo percebo-a (a ela e a todos os que oiço queixarem-se da temperatura): Genève não está "feita" para trinta e três graus, tal como Lisboa não está para os cinco deste inverno.

6.7.17

Re-edicão. Auto-retrato parcial. (Nunca é de mais).

Há coisas das quais me posso orgulhar: a liberdade, a independência, a incapacidade total, absoluta de emprenhar pelos ouvidos. Mais do que imune, sou alérgico ao zeitgeist. Sempre fui. A opinião dos outros nunca me interessou se não para aprender com eles o que não sei e ser capaz de fazer as minhas próprias opiniões. E o que pensam de mim é-me tão indiferente que chego a ter vergonha de tanta indiferença, nos dias piores - felizmente são poucos - .

Duvido a priori de tudo o que é consensual - não porque seja contra os consensos, mas porque acho que devem ser investigados e avaliados -.

Nunca me submeti à pressão de um grupo, fosse essa pressão de que natureza fosse. Não alinho em grupos, modas, clubes, partidos, sindicatos, escolas, facções ou seja o que for.

Respeito quem sabe mais do que eu quando me demonstra que sabe mais do que eu (ainda por cima nem é muito difícil, portanto não me parece que seja pedir de mais).

Não aceito argumentos ab auctoritate, não reconheço valor aos nomes das pessoas, às suas origens sociais, ao dinheiro que têm ou não têm; - reconheço sim e só ao que fazem. E quando há uma contradição entre o que dizem e o que fazem só me interessa o que fazem. Respeito as regras que devem ser respeitadas - a cortesia e uma das suas variantes, a ortografia - faço o que posso para ser um homem decente, sou um bom pai (se não todos os dias pelo menos a julgar pelos resultados). Mas a minha adesão a essas regras é voluntária.

Tenho uma aversão profunda, insondável a rebanhos, sejam eles do que ou de quem forem.

(Este post devia ser reeditado a intervalos regulares. Género uma vez por semana).

5.7.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 05-07-2017 / II

A Livresse é uma mistura de café e livraria que me atraiu pela localização, pela decoração (tradicional-simples-chic. O Marchand au goût du jour) e sobretudo - acima de tudo - pelo nome. Livresse é um jogo de palavras genial num país em que eles (os jogos de palavras. Geniais ainda mais) são raros.

É também um ponto de encontro e de militância sáfica, se bem isso se note pouco na frequência - nota-se na escolha dos livros e hoje na senhora que me serviu os demi-pastis. Tive que olhar duas vezes para perceber que era uma mulher.

É o equivalente feminino de uma tantouze e igualmente feio.

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Fui à Payot. Quatro andares de livros. Têm tudo, incluindo Hildegarde e Teresa d'Ávila. O que não têm demora entre um dia e uma semana a chegar.

Se alguém me arranjar um emprego numa livraria eu prometo que não passo os dias a ler.

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 05-07-2017

Uma das críticas que faço aos guias e artigos de viagens é que se um dia calha irmos a um sítio sobre o qual lemos a novidade não é total. É aproximada, por muito distante que seja a descrição da coisa descrita.

Por outro lado é forçoso reconhecermos o prazer que dá chegar a um lugar que nos é familiar: gosto de chegar a St. Martin, por exemplo; antevejo com prazer o dia em que aterrarei em S. Luis (espero que não muito distante); La Línea, pela qual troquei Gibraltar - e fiquei a ganhar com a troca.

Regressar a Genève é diferente. O lugar não me é familiar. É família. Hoje fui à Recyclables procurar livros de Hildegarde von Bingen e de Teresa d'Ávila. "Tem de ir a uma livraria grande", diz-me o senhor. "Pensei isso, mas gosto de dar prioridade às pequenas", respondi.

Não que a Recyclables seja pequena: é uma grande livraria de livros em segunda mão, com uma excelente escolha e enorme variedade de títulos que também vende livros novos. Há uns anos, quando começou a crise dos livros sacrificou uma parte do espaço para abrir um café e assim sobreviveu.

Por falar nisso: ainda não fui à Livresse. Acho que está na hora. Mas primeiro vou seguir o conselho do senhor da Recyclables.

Abençoado calor.

4.7.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 05-07-2917

Desta vez a Iniciativa (Popular, de seu nome completo) veio de um partido (a UDC, que por sinal tem dois ministros no governo): querem acabar com as subvenções federais à televisão e à rádio, o que implica acabar com as respectivas taxas. Hoje foi dado o primeiro passo de um processo que terminará para o ano num referendo: o parlamento rejeita a Iniciativa e não lhe opõe sequer uma alternativa (contra-iniciativa: quando o Parlamento reconhece um fundo de validade à iniciativa mas sugere alterações à proposta. Quando isso acontece o povo escolhe entre os dois). Ou seja, o assunto vai directamente para decisão do Soberano. As probabilidades de passar são poucas: vendo televisão na Suíça percebe-se bem o que significa o conceito de serviço público.

"Quanto mais se envelhece mais se gosta da Suíça", escreveu uma senhora num livro chamado La Triomphante (cuja leitura de resto recomendo). Estava prenhe de razão, a senhora. Em Portugal o projecto devia ser aceite, na minha opinião. A qual é reconhecidamente falha de bases sólidas: há muitos anos que deixei de ver regularmente televisão em Portugal, sejam os canais públicos sejam privados. Vislumbro de vez em quando, por curtos, brevíssimos momentos: chegam para manter viva a aversão e lhe confirmar a razão de ser.

Verdade que aqui vejo as notícias, só. O suficiente para ver que as subvenções não são mal gastas.

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Os filhos saíram de casa e eu, que não moro com eles há muitos muitos anos vivo o síndroma da casa vazia.

Não só psicológica mas tambem fisicamente: levaram as camas e estou outra vez a dormir no sofá da sala.

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Genève tem a maior concentração de miúdas giras por metro quadrado do planeta  (e uma delas é minha filha, o que me enche de orgulho e de bem estar. É reconfortante contribuir positivamente para a paisagem urbana).

Isto é uma opinião? É, sem dúvida. Mas se alguém quiser fazer um estudo para ver se se torna um facto eu ofereço-me como voluntário para o trabalho de campo. 

3.7.17

Cepo

Dizes "Escreve" e eu digo "Escrevo-te" e para mim são a mesma coisa. Digo-te "Ama-me" e tu amas-me sem o dizer e para mim são a mesma coisa: uma linha que começa no amor e acaba no silêncio nunca sai nem de um nem de outro.

Estamos nessa linha, os dois; em equilíbrio instável: todos os dias, todos os minutos pomos o que nos une no cepo.

Que se lixe o cepo: não tem espaço para os minutos todos que nos vai ter.

Remédio

- O meu problema não é encontrar mulheres, Doutor. É encontrar uma mulher. Tem remédio?
- Tem. Experimente o tempo. Duas vezes por dia, de manhã e ao deitar.

Da vontade e das coisas

Sendo as coisas o que são e sendo esse ser independente da nossa vontade pouco nos resta se não lutar contra o que as coisas são quando isso é razoável e lutar contra a nossa vontade quando não.

Matemática longínqua

Não há paz na liberdade. A liberdade não é pacífica.

Como o amor, de resto: não sabe o que é a paz. Só conhece a liberdade. Um amor pacífico não é amor: é uma prisão partilhada.

Inicialmente o amor é uma mistura de liberdade (cem por cento) e paz (zero por cento). Um dia, numa matemática longínqua  haverá cem por cento de liberdade e cem por cento de paz.

Mas esse dia vem longe e é preciso construi-lo. Não aparece feito.

2.7.17

A Leste tudo de novo

Não lhes conheço se não as superfícies e é delas que falo: se um dia tiver de escolher entre Chaves e Vila Real é aquela que escolho, sem hesitar. Além de tudo o mais está mais perto de Espanha, onde hoje fomos almoçar.

Chama-se Mesón do Emil, fica no número 21 da Avenida Luís Espada em Verin (Ourense). Há mais de um mês que não ia a Espanha: é demasiado tempo.

Sugiro sobretudo e fortemente as patatas bravas; a seguir tudo estava igualmente bom e igualmente sublime.

Depois do almoço fomos passear por Chaves, beber um copo à beira-Rio, conhecer Vidago e as Pedras Salgadas.

O interior de Portugal é um mundo de oportunidades e é nele que quero viver. De Norte a Sul sim, mas a Leste.

1.7.17

Serviço Público - Restaurantes Vila Real

Restaurante Cardoso - é o meu tipo de restaurante favorito onde quer que vá: bom, popular, barato, com um serviço surpreendente e agradavelmente eficaz.

Este tem um bónus: demonstrou-me que estava errado no que toca a francesinhas.

Já aqui o escrevi: posso ser - sou - teimoso como uma mula e fazer-me mudar de opinião é, digamos, pouco fácil (as opiniões não costumam cair-me do céu. É por isso). Mas poucas coisas me dão mais gozo do que alguém demonstrar-me por a mais b mais c mais d e por aí fora que estou enganado e ser forçado a fazer uma nova opinião sobre qualquer coisa.

Neste caso o alvo de tanta alegria (a dobrar: comer bem e descobrir que estava errado) foram as francesinhas. São excelentes. Não se pode dizer que não se gosta de francesinhas sem se provar as do restaurante Cardoso em Vila Real.

Bilacafé - Come-se bem e barato num ambiente simples e agradável à vista. O restaurante só tem um prato do dia, excepto às sextas, que tem dois - tripas e outro -. O vinho da casa é excelente.

Tudo isto num embrulho algo amador, que contribui para o charme da casa: é como se fôssemos comer a casa do amigo de um amigo.

Tasca do Malcriado - Creio que o verdadeiro nome é Casa Jorge, ou coisa que o valha.

Ali comi a melhor punheta de bacalhau (pudicamente chamada Salada de Bacalhau) desde o meu saudoso Miguel do M/T ALTAIR. As pataniscas de bacalhau são sublimes  (pedem meças e provavelmente bateriam as do Sr. David da Merendinha do Arco, por difícil que seja).

O pastelão de salpicão é igualmente notável de bom, ao contrário da decoração que é notável de feia.

Pastelaria Gomes - Um clássico da cidade. Os melhores covilhetes até agora.

Quem nos ama

"Amamos quem nos ama", escrevi há alguns anos. E também quem não nos ama, já sabia muito antes de ter escrito aquilo.

Pouco importa quem amamos, na verdade. Só conta quem nos ama.