29.4.20

Contextos

Tal como não se deve ir às compras quando se está com fome, não se deve elaborar políticas económicas quando se está de barriga cheia.

28.4.20

Outro dia

Escorrega-te o pé para a meia do sono e nem meia-noite é. Aproveita. Embarca, larga as amarras, iça a grande e a genoa dos olhos fechados. Amanhã chegarás ao outro dia, um porto tão bom ou melhor do que este de onde agora te preparas para largar.

Que a travessia seja calma e a barca aguente a tua solitária ausência.  

Assanhado

Até aos dezoito anos a minha luta não era política. A independência de Moçambique era-me indiferente, a Mocidade Portuguesa representava simplesmente a possibilidade de velejar - creio que fui uma vez a um desfile e foi para ver como era, mas nem isso posso garantir - e o que detestava no Estado Novo era a censura - de que sofria pouco porque tinha em casa tudo o que quisesse ler e muito mais.  Era uma luta que ia muito mais longe, mais profundo se preferirem, do que a política.  A minha adolescência (pelo menos a sua parte tardia) foi apoiada basicamente em Nietzsche e em whisky, em Reinaldo Ferreira, Fernando Pessoa e Jimi Hendrix, no meu Vaurien ADN e num e outro amigo (que ainda tenho, de resto). Não era uma luta política. Tinha mais de metafísico, de independência, de liberdade individual do que de política. Lia Thoreau, Camus, Hemingway, era rebelde - passei o sétimo ano graças ao 25 de Abril, que impediu os professores de dar nos segundo e terceiro períodos notas inferiores às do primeiro. Detestava a sociedade não devido a um aspecto específico dela, mas pelo simples facto de existir e eu sentir que me queria forçar a integrá-la.

Chego aos sessenta e dois anos e a luta é quase a mesma: a tentação totalitária tem de novo droit de cité. E ainda há quem não acredite que a vida - no sentido lato - é um círculo. Ou uma elipse, como a órbita terrestre. Talvez beba menos whisky mas não estou menos assanhado.

27.4.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-04-2020

Hoje havia crianças na rua. Pela primeira vez desde que esta tortura começou vi crianças, mais gente nas ruas, mais barulho, mais carros.

Inch'Allah!

[Adenda - por muito que se goste da modernidade (eu gosto) há duas ou  três coisas nela que tenho dificuldade em perceber e mais ainda aceitar.

Uma delas é como faz una sociedade para aceitar que durante um confinamento já de si inaceitável se deixe sair os cães mas não as crianças.

Não é retórica. Não há biologia, darwinismo, sociologia ou seja o que for capaz de me fazer compreender que para os pais o pânico seja mais forte do que a paternidade.]

..........
Foi mais difícil - correcção: está a ser mais difícil - do que inicialmente esperei. As dores de dentes e da anca atingiram-me mais fundo do que sempre pensei poderiam chegar, não sei se devido ao confinamento se devido à idade (como todos sabemos, tende a amaciar-nos, amolecer-nos). Agora passaram por causa dos comprimidos, não porque as causas tenham sido tratadas. Nada garante que em breve não recomecem, mas pelo menos voltei à tona. Enquanto o pau vai e vem eu estou «back to my former self», como diz algures o Bertie de P. G. Wodehouse. A alegria é sempre um bocadinho tola, não é?

........
Nem sempre. O P. avança. Hoje comecei os procedimentos para o inscrever nas regatas das Caraíbas que vamos fazer: Caribbean 600, Heineken e a Sailing Week, claro, a grande festa do fim da época. Dali partiremos para Sul, como sugeriu o outro: no Inverno, viajar para Sul. Aqui onde estou, ficaria muito  contente se pudesse ir para Oeste, para Portugal e para Nordeste, Genebra. Não me importo nada de esperar pelo Inverno, desde que possa sair daqui.

.........
«Hay islas que se incrustean en la mente y se convierten en un sueño, que espolean las ansias de viajar, que pasan a ser territorios deseados a pesar de ser solo vagas realidades.» Hoje chegou-me mais um livro de Lluis Ferrés Gurt, o autor de Secretos del Mediterráneo. Este chama-se La Isla Olvidada e se for tão bom como os Secretos e as primeiras páginas levam a supor vai ser outro  maravilhamento.

Até amanhã.

Desespero

Um dos poucos intelectuais socialistas por quem tenho algum respeito - algum é um eufemismo - é Edgar Morin. Teorizou o pensamento complexo, a complexidade, as relações biúnivocas entre causa e efeito. O Paradigma Perdido foi uma dos grandes etapas na minha vida (o Método não foi uma surpresa, foi uma confirmação).

Não deixa de ser desolador ver o socialismo hoje ainda acreditar num mundo linear. causa-efeito, isento de efeitos perversos. Nem com os seus maiores aprendem.

Como não hão-de dar ouvidos a Costas e Ferros?

Receita para o futuro

Simplesmente, reaprender que a morte existe. Deixar de a escamotear para debaixo do tapete.

O pânico é uma forma triste de acabar com um civilização que deu Copérnicos, Galileus, Pasteurs, Darwins, Freuds, Miles Davis, Hildegardes, L. Cohens, Fernandos Pessoa, Becketts, Borges, Yourcenars à humanidade.

26.4.20

Medo

Não tenho nada contra o medo, antes muito pelo contrário. Tem sido o meu grande companheiro, desde sempre. Como poderia dizer que não sou cobarde, se não o tivesse ao meu lado?

(Para o David P. F.) 

25.4.20

Fujam

Fujam, palavras. Ao menos vocês, não têm jaula que vos prenda, nem medo que vos maniete.

O ponto a que chegámos

Li há pouco um comentário a um post do André Dias ou do Henrique Pereira dos Santos. Não me lembro e pouco importa, não é disso que falo.

O autor do comentário - ele próprio alguém provavelmente com formação em epidemiologia, ao que me pareceu - chama negacionistas a quem duvida da versão oficial.

Negacionistas. A divergência hoje chama-se automaticamente e por defeito negacionismo. Fôsseis todos para o inferno das certezas e da bondade, já, que o mundo fique de novo respirável!

Biografia resumida

Mordeu com todos os seus dentes, tal como morreu.

Com alguma má-fé à mistura, mas pouca e hoje é sábado

O socialismo científico - que, relembro para os mais esquecidos (como eu) - antes de ser de Marx foi de Proudhon - nunca teve nada de científico. O socialismo sempre foi uma crença religiosa, desde os seus inícios. Acontece que no século XIX, ao contrário de hoje, a ciência era bem-vista e apreciada. Apelidar de "científico" aquele conjunto de ideias descabidas, lamúrias e mentiras que mais parece uma forma ocidentalizante de voodoo não passou de uma manobra táctica.

Bem sucedida, infelizmente. Deu cabo do século XX.

Ateísmo

A esquerda tem com o 25 de Abril a relação densa que um católico tem com a Páscoa. É  da ordem do religioso, do milagre, da fé. Por isso não entende a abordagem ateia à data.

Movimento das Forças Pró-corticóides

Je ne suis pas encore sorti d'auberge, mais j'ai la main sur la poignée de porte.

Quem não gosta de remédios e de química nunca precisou de tomar corticóides. Amanhã há dois 25 de Abril: o português e o da homenagem à ou às pessoas que os inventaram.

Para onde?

Há anos dizias que as viagens regressam inevitavelmente ao ponto de partida. Nem tu nem as viagens mudaram, mas hoje sabes que na verdade só há uma viagem que regressa inexoravelmente à partida. As outras limitam-se a acrescentar partidas, a baralhar e dar de novo, trocar as letras partida e chegada num daqueles copos de jogar aos dados.

Para onde voltas? Já vês terra?

Serei

Que parte da vida podes dispensar para que o que te resta dela seja vida ainda e não um ersatz? Que parte de ti é sagrada, aquela que mantém o fogo aceso? Se um átomo perder um electrão passa a ser outra coisa? Quantos electrões podes perder? Descontam-se aos que foste ganhando ao longo dos anos?

Tens que traçar uma linha, mesmo sabendo que não será direita, vai ser às curvas, às hesitações: para lá desta linha não há nada. Para lá desta linha, o que vires não será mais do que aquele conjunto de hipóteses a que os mais optimistas chamam memória e tu uma pergunta: este fui eu?

Este serei eu? 

21.4.20

Analogias? Adjectivos? Não. Analgésicos, pf

Se fosse uma cadeia montanhosa seria os Himalaias. Se fosse uma profundidade marítima seria a fossa das Marianas. Não é nada disso: não passa de uma dor de dentes inadjectivável.

PS - O título é falacioso e choramingas. Devia alterá-lo. Estou a ser medicado. Lamentavelmente a química não é uma ciência perfeita e muito menos imediata. 

Caderno de encargos

A função de um político não é transformar factos em decisões e estas em votos. Isso é o que um estadista faz.

Um político transforma (ou tenta transformar) percepções em votos.

20.4.20

Dispersas do dia - Palma, 20-04-2020

Imprensa

O El Mundo (um jornal decente) traz na primeira página - um quarto de página, nada de pequenezes - uma chamada para um artigo de duas páginas, duas (ditto) sobre... rufem os tambores... suspense ... O primeiro parto de gémeos em Espanha por uma mãe com Covid-19. Suspiro de alívio. A senhora não tem lepra, não tem peste bubónica, nao tem SIDA (não teria sido o primeiro, mas enfim), não é careca, não tem barba. Não, nada disso. Tem Covid-19.

É mais ou menos a isto que me refiro quando falo do suicídio da imprensa. O El Mundo não é propriamente um pasquim.


Suicídio

Outra forma de suicídio é a reacção de uma senhora ontem, entrevistada pelo Diário de Mallorca, jornal local com uma qualidade bastante semelhante à da imprensa regional francesa - isto é, muita. O governo das Baleares quer reabrir as ilhas mais depressa do que o resto de Espanha, com o argumento - numericamente imbatível - de que a infecção aqui foi muito menos grave do que em Madrid e que deve evitar o descalabro total do turismo.

Uma maiorquina reage: «não quero turistas estrangeiros!» Das  duas uma: ou a senhora quer suicidar-se e nesse caso devia talvez pensar nos outros e não fazer como aquele piloto austríaco que para morrer despenhou o avião nos Alpes com todos os passageiros. Aposto que nem todos queriam acompanhar o piloto. Ou, alternativamente, a senhora diz isto porque sabe que não morrerá (figurativamente, claro) e que alguém lhe dará de comer. Quem? Os alemães? Os neerlandeses? Os outros espanhóis? Destes, bem pode ela tirar o cavalinho da chuva, que já em tempos normais o turismo nacional é insuficiente para encher noventa por cento da capacidade hoteleira da ilha.


Desconfinamento, pânico

O que me leva a outro ponto interessante disto: como é que os governos que cederam ao pânico em vez de o enfrentar vão agora fazer marcha a ré? O pateta do Sánchez já fala em prolongar algumas restrições até Dezembro - suponho que pelo Natal lhe chegará uma vacina no trenó. Nem todos são do género de estar num buraco e continuar a cavar, mas gerir o dia a seguir parece-me bastante mais difícil e complicado do que fechar toda a gente em casa.

Decantado

- Não digas a ninguém, mas sou o resultado de todas as asneiras que fiz, todas as palermices que disse, todas as situações em que fui irrecuperavelmente ridículo.
- E na receita, não incluis nada de bom, nada que tenhas feito bem?
- Não.
- Acreditas na transmutação da matéria?
- Não. Acredito na decantação. 

Breviário do Mediterrâneo

O Breviário do Mediterrâneo,  de Predrag Matvejevich e traduzido (do francês) por Pedro Tamen sofre de dois defeitos. Um chama-se Secretos del Mediterráneo, de Lluís Ferrés Gurt; o outro são os erros de tradução no que respeita ao vocabulário náutico. São erros pequenos, de pormenor e provavelmente passarão despercebidos à maioria dos leitores. Mas há quem gostaria que o léxico náutico português  não desaparecesse, arrastado pelas embarcações de recreio que têm três quartos com camas de casal e uma janela cada um e espaço para uma televisão na parede, infelizmente sem uma marreta que ensine os respectivos armadores a falar correctamente.

A essas pessoas (isto é, à maioria) o Breviário parecerá o que é: uma excelente descrição do Mediterrâneo, escrita de um ponto de vista mais histórico do que o seu involuntário concorrente, que tem um leque mais  vasto de abordagens.

O Mediterrâneo é um mar que suscita ódios e paixões, ambos muito bem descritos ao longo da história. O Breviário (tal como os Secretos, aliás), pertence à segunda categoria, a das paixões.

O que só o torna mais irritante para os puristas do linguarejar náutico, que não atam ou desatam nós - fazem-nos e desfazem-nos - para quem uma abita de amarração é um pleonasmo e que ainda por cima naquele caso é um cabeço e não uma abita, distinguo só aparentemente leviano. Sendo que para entornar o caldo, o leitor francófono percebe imediatamente a origem do erro: bite d'amarrage. Em português: cabeço. (Não tendo os Secretos sido traduzidos não sofrem deste mal.)

Isto dito, os leitores farão muito bem se não ligarem a estes resmungos e comprarem a obra. É uma panorâmica histórica e geográfica do Mare Nostrum, um mar difícil de navegar, contrariamente ao que se pensa, fascinante, múltiplo, complexo, dividido em mil ilhas, mil penínsulas, mil línguas e outros tantos povos e estranhamente uno, misto, como se de uma ânfora que se tivesse partido alguém tivesse reconstituído a forma, deixando à vista as fracturas coladas.

19.4.20

Arquétipos

«Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e fingimento. Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem?»

(Fernando Pessoa, 8-4-1915 in Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão. Lisboa: Ática, 1979. - 1.)

Há cada vez mais provas de que o confinamento é ineficaz como remédio para a pandemia e cada vez mais certezas de que vai custar demasiado caro. A minha objecção à celebração do 25 de Abril na AR não tem rigorosamente nada a ver com ele.

Tem a ver com o tipo de relações que os nossos governantes têm com os governados. Essa relação é - há centenas de anos - enviesada, assimétrica. Os governantes mandam, os governados fazem pela vidinha. «O povo é quem mais ordena» foi uma ilusão passageira, o verso de uma canção que mobilizou as pessoas - isto é, as iludiu durante um curto período da nossa história. Mal essa ilusão passou, voltaram todos à sujeição inicial.

É portanto com um certo optimismo que vejo a petição contra as manifestações já ir em mais de sessenta mil subscritores. Não é, quanto a mim, a forma correcta de lutar contra essa abjecção - isso seria pura e simplesmente ir toda a gente para a rua, ignorando as ordens de reclusão - mas é um passo.

Uma das melhores descrições de Portugal que conheço foi uma vez feita por José Miguel Júdice e foi, naturalmente bastante repudiada: «Portugal é um país de merdosos.» Entre merdosos e medrosos a distância fonética não é grande. Pode ser que este seja a primeira etapa para que deixemos de ser um e outro e passemos das assinaturas para a rua.

Pela razão simpes e irrefutável de que «eles» não são mais do que nós.

Prova dos noventa

Uma coisa é certa: quem diz que a nossa sociedade não liga nenhuma aos velhos está redondamente enganado.

18.4.20

Rage de dents

Não há de certeza no mundo coisa mais enraivecedora do que uma dor de dentes feroz. Já vou no terceiro Tramadol praticamente seguidos e nada. É como se tivesse a tomar um placebo. Os dentistas estão fechados. A senhora com quem falei e me receitou o antibiótico - que amanhã recomeço a tomar, apesar de ter sérias dúvidas de que funcione - disse-me que não pode abrir porque não tem material de protecção. «Vão todos para os hospitais», explica, compungida. É para onde eu tenho vontade de ir agora, mas não vou. Prefiro um copo de tinto, deve combinar bem com a merda do comprimido. Quando isto começou pensei que seria como uma travessia, mas não pensei que fosse assim tanto. Antigamente andava com morfina injectável a bordo mas agora deixei-me disso. Está cada vez mais difícil encontrar um médico que ma receite e, verdade seja dita, nunca a usei. Pergunto-me o que faria se a tivesse aqui. As dores são todas diferenes, umas são mais simpáticas do que outras. A da anca, por exemplo, responde bem ao anti-inflamatório (e provavelmente ao Tramadol também). Amanhã começo o antibiótico. Aposto que tudo o que conseguirei é criar uma resistência à Amoxicilina, um antibiótico simpático, eficaz e polivalente. O vinho está a ajudar. Mais um copo e isto passa para um nível aceitável. Raiva, não contra a máquina, mas contra os dentes. contra a maldita quarentena, contra a minha maldita negligência. É que ao fim e ao cabo vem tudo ter a mim. Já ando para ir tratar dos dentes há não sei quanto tempo, acusar os outros é sair pela esquerda baixa, não posso sequer gritar contra o Sanchez, contra o pânico popular, contra a histeria colectiva porque lá no fundo aparece-me uma puta de uma voz fininha a perguntar-me 'Porque é que não foste ao dentista quando podias?» «Porque pensava que a água oxigenada seria suficiente em caso de emergência, estúpido» «Pois, mas não é» «Cala-te» quase grito ela cala-se e eu bebo mais um gole de vinho, vá lá que não é uma zurrapa e se isto não passa abro outra garrafa, por agora chega de Tramadol. Vou ver à net se o tabaco piora a dor de dentes. Nao vejo nada. Comprei um maço, o terceiro desde que isto começou, não tenho mesmo problemas de tabagismo - nem qualquer outra dependência, apresso-me a esclarecer a quem me vier chatear com o vinho - mas tenho realmente um problema em conter esta raiva. Não sou suficientemente grande para a acolher toda, tem que extravasar para a porra da quarentena e da falta de máscaras e... Um dos dentistas que contactei disse-me que podia abrir, mas eram cento e cinquenta euros por sessão porque tinha de contar o tempo das limpezas antes e depois respondi-lhe que não muito obrigado, ainda por cima era longe para burro ele que vá limpar antes e depois quem quiser a mim não me limpa cento e cinquenta paus por sessão as dores levam-nos ao fundo da raiva, não é? Ao fundo mesmo, à raiz da raiva e não é um jogo de palavras, deve ser a pior forma de impotência uma vez em Cape Town disse a um dentista que preferia um ciclone no mar a ir a um dentista, sentei-me e adormeci. Tinha bebido uma garrafa de whisky inteira antes de ir para lá. Quando acabou o homem acordou-me - com uma certa dificuldade - e disse-me que gostaria muito que todos os clientes dele fossem como eu. Emborrachou-se só com o hálito, suponho. Antes de adormecer ainda tive tempo para lhe pedir que verificasse o tratamento que a dentista russa me tinha feito um ano antes. «Está óptimo», disse-me à saída. Lembro-me da dor de dentes antes da chegada a Nakhodka, mas não me lembro de ter sido tão má como esta e deve ter sido muito pior, lembro-me que nem respirar pela boca podia por causa do frio. O Boca d'Ouro levou-me ao hospital no dia a seguir à chegada, ainda estávamos fundeados, foi a sessão de dentista mais alucinante da minha vida, uma sala enorme cheia de manchas de sangue em tudo quanto era sítio, a broca que devia ser do século passado (isto é do século XIX), a dentista a falar com a enfermeira enquanto me brocava o dente e de vez em quando perguntava «ballit?», foi a primeira palavra que aprendi em russo, significa Dói? e a certa altura doeu mesmo, afastei-lhe a mão, levantei-me e fui-me embora, o Boca d'Ouro estava lá fora e quando cheguei a brdo disse-lhe que queria outro dentista. Dois dias depois levou-me à mesma - as mesmas filas à porta, o mesmo edíficio antigo, velho e decrépito eram dezenas de pessoas e nós passámos à frente delas todas, como tínhamos feito da outra vez - e fui tratado como um rei. Só à saída de Nakhodka viemos a saber que o Boca d'Ouro, além de agente de navegação era o chefe da KGB local, ceci explicant cela. Tenho tido dores de dentes épicas, mas esta deve ser o Adamastor das dores de dentes. Mudei de vinho. Quem não tem whisky caça com vinho. Amanhã compro uma garrafa de rum, não vá o diabo tecê-las. Pareço uma farmácia ambulante. Aposto que lá por dentro está tudo podre, estômago, fígado, pâncreas, intestinos, tudo. A puta da dor acalmou um bocadinho. Acabo o tintol - até rima com Tramadol, não deve ser coincidência - e vou outra vez ver se durmo. A raiva não é um bom somnífero, eu sei. E não se dilui bem em vinho, antes pelo contrário. ¡Qué vaya! ¡Me cago en la rabia! O vinho é bom, valha-me isso. É um Petit Verdot de Alicante, ecológico, com pouca entrada mas bom fim de boca e alguma adstrigência, talvez complemente bem o sacana do analgésico. A uma dor de dentes os franceses chamam une rage de dents, uma raiva de dentes. Uma raiva contra os dentes, con.

17.4.20

As luzes apagaram-se depressa de mais

Só quem acredita mais em propaganda do que em números ainda pensa que os lockdown serviram para outra coisa além de aplacar o pânico popular. Para "conter" a epidemia, "achatar a curva" ou poupar os serviços de saúde não serviram com certeza. Há números, gráficos, artigos e videos suficientes para o provar.

O problema não é esse. É: porque é que quem utiliza números e a razão para analisar situações que os exigem é visto como um ser inumano, frio, sem compaixão? Como é que uma característica do ser humano - que eu saiba, os animais não sabem contar, por muito antropomorfizados que estejam - pode ser desumana? As crenças irracionais provocaram historicamente mais mortos do que a razão.

Porque é que o século XVIII acabou tão depressa?

16.4.20

Ali onde os dias vão morrendo, como a luz nas altas latitudes

É noite e o teu cemitério está cheio de vivos. Os mortos abandonaram-te. Estás sozinho à entrada, não vês luzes e o silêncio pesa, tanto mais que sabes não haver mortos ali. Quem está  respira tanto como tu, espera, deseja, pensa. Não se manifesta, é tudo. Avanças pela noite cega, a ausência de luz é total. Conheces o caminho: já ali viveste, já foste um deles. Um dia decidiste morrer, trocaste de mundo e agora avanças de novo pelas alamedas desertas. Os vivos estão por baixo das campas. Só tu, morto, vives.

As alamedas do cemitério não são rectilíneas. Circumvalações, labirintos, curvas, barreiras, portões - alguns abertos, outros fechados - degraus que não vês, não estavam ali quando lá vivias.

É aqui que os teus dias vão morrendo, deixando apenas quem neles vivia. Começam pelas noites, a gangrena sobe para as tardes e depois para as manhãs. Não te surpreendas: os teus dias morrem devagar. Quando chegarem, reencontrarás os outros, os que os povoaram contigo e agora te esperam vivos debaixo das campas.

Como a luz nas altas latitudes lentamente se converte em sombra.

15.4.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-04-2020

Resumindo muito resumidamente: o nosso central broker (ao contrário do que possa parecer, isto não é inglês. É linguagem universal) - uma peça central do charter (ditto) - pediu-me um antepara estanque. A ideia não é estúpida e eu próprio pensei nisso várias vezes, mas decidi não o fazer pois o pavilhão no qual vamos registar o P. não o exige. Mas uma coisa são as autoridades e outra o mercado. Se me é mais fácil vender lugares com uma antepara estanque, pois venha ela. Com o I. encontrámos uma solução não muito cara e que não obriga a grandes trabalhos. É difícil explicar o gozo que me dá dedicar-me finalmente àquilo que gosto realmente de fazer: tomar conta de embarcações de recreio, preferivelmente de vela. É certo que preferiria fazê-lo a navegar mas é igualmente certo que tudo o que tenho estado a fazer no P. aumentará o meu prazer quando chegar a essa fase.

Consegui também convencer o contramestre da marina a deixar-nos reparar o convés a nado. Vai ser preciso ir para seco antes de começar a época, mas prefiro fazê-lo o mais tarde possível.

Para já, o objectivo número um é sairmos de Mallorca. De momento ainda estamos a trabalhar a meio-gás - só pode estar uma pessoa de cada vez a bordo - mas não é impossível que daqui a um mês façamos as provas de mar. Inch'Allah!

..........
Entretanto em Portugal a novela principal - desta vez, mais do que justificadamente - tem uma sub-novela. Uma estação de televisão disse qualquer coisa sobre as pessoas do Norte e as armas da revolta levantaram-se em uníssono. Até um presidente de câmara por quem tenho certo respeito - a saber, Rui Moreira - se deixou levar. Não conheço bem o senhor (politicamente, claro. Pessoalmente não o conheço de todo) mas creio que o bairrismo é o ponto fraco dele.

O complexo de inferioridade do Porto relativamente a Lisboa já nao é nada do que foi - feliz e justificadamente - e este tipo de atitudes não serve senão para lhe retardar a agonia.

.........
Entretanto, os media começam timidamente a pensar que tudo isto vai ter um preço. Daí a reflectirem sobre o seu papel vai um passo de gigante. Que eles não estão prontos a dar, claro.

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Nunca votei nem votaria no PSD, mas lamento o papel de bombo da festa a que Rui Rio se presta. Talvez chegue onde quer - ser o número dois de Costa - e talvez até consiga daí subir um degrau. Espero que não.  O homem não tem uma concepção muito clara do que é uma democracia e como funciona.

.......
Tinha prometido não falar de política aqui no DV, mas isto não é política. É muito mais do que isso.

14.4.20

Sinais, deuses

Este sinal interior de ardor no peito não sinaliza coisa nenhuma. Não é sinal de nada. Um sinal para o ser precisa de um sinalizador e um sinalizado. Numa ilha deserta só há sinais quando alguém os vê. Antes disso não passam de palhaçadas destinadas a fazer rir os deuses.

Na verdade, não sabes se gozam ou invejam a tua solidão. Um deus nunca está sozinho, tem sempre quem martirizar ou perseguir ou amar ou salvar de um destino cruel. O teu sinal não vale nada: ninguém o vê e se por milagre ou engano divino alguém o vir não sabe o que fazer dele.

Refúgios

Se fizéssemos das palavras grutas? Isto é, de cada palavra un refúgio. Pega-se numa ao acaso. Pode ser um verbo, um adjectivo, um advérbio, uma preposição, um artigo definido ou indefinido. Palavras, cada uma delas uma gruta numa longa, interminável parede vertical, como as da ilha de la Gomera onde viviam os hippies tardios. Cada pessoa pode escolher um número infinito de grutas, mas não tem a exclusividade delas. Deve partilhá-las. Ter sido o primeiro a chegar não lhe dá direitos nenhuns.

Alguns refúgios são mais procurados do que outros. Amor, por exemplo. Felicidade. Estão cheios e tu detestas multidões. Tens de te afastar, encontrar um canto só para ti naquele longo corredor que entra pela rocha dentro, sem que se lhe possa vislumbrar o fim. Às vezes cruzam-se: amor e dor, sede e deserto, amanhã e pele,  pele e mão, olhar e quando.

Cada uma destas grutas é um refúgio e lá tu te encontras, quando te perdes de ti mesmo.

H. e o tempo

Voltas e mais voltas, como água que se escoa pelo ralo. Mas este não se escoa: é o tempo. Cola-se às paredes, às janelas, às portas, escorrega pelas mesas como os relógios de Dali. H. sentia-se como se lutasse contra uma gigantesca teia de aranha invisível, fenómeno físico do qual só podia observar os resultados. O processo - os fios da teia, os movimentos desesperados que fazia com os braços e as pernas para se libertar - não eram perceptíveis a olho nu.

H. apercebeu-se de que as próprias paredes se moviam: acompanhavam o seu esbracejar, os seus pontapés,  as rotações do torso. Solitário, sabia que não podia esperar ajuda exterior mesmo que, num inesperado e improvável momento de modéstia, submissão ou aceitação a solicitasse. Era o epítome perfeito do homem solitário: nascera só, vivera só e não é desta que morrerá só.

"O melhor é parar", pensou. "Fazer-me de morto, enganar o tempo: fazer um arco de agora para o futuro. Ocupado como está a tentar afogar-me não se aperceberá. Não é fácil enganá-lo, eu sei. Mas tão pouco é impossível. Passar um cabo a um dia longínquo, esperar que faça fixe a qualquer coisa e deixar-me puxar, imóvel. Como se num túnel estivesse parado e fossem as paredes a passar por mim. Como se?" H. riu-se. "Como se num túnel... Onde pensas que estás? Numa planície ao ar livre?"

H. monologava e apercebeu-se de que a pressão de teia se aligeirara. Pouco, mas pelo menos já não o asfixiava. "O meu cabo está a funcionar. Talvez seja esta a solução: o futuro sou eu. Está em mim, digamos assim."

Parou e esperou. Enquanto não chegar, não se saberá como acaba esta história: faz parte do tempo, ela também. 

13.4.20

Globalização

Uma coisa é certa: quem diz que nunca se viu nada assim está podre de razão. Uma histeria colectiva globalizada como esta deve ser a primeira da história. Nem as religiões o conseguiram.

12.4.20

Doenças demasiado recentes para serem nomeadas com precisão

Histeria colectiva induzida pelos media (HCIM ou MICH, no acrónimo inglês)? Ou Histeria colectiva alimentada pelos media (HCAM ou em inglês MFCH)? Prefiro MICH, é mais fácil de pronunciar. 

Sociedade de redes

Se fosse hoje, S. Jorge não mataria o dragão. Bloqueá-lo-ia nas redes sociais.

11.4.20

Rente às palavras

«For Watt now found himself in the midst of things which, if they consented to be named, did so with reluctance
(S. Beckett, in Watt)

A relutância das coisas em ser nomeadas é bem conhecida de quem tenta nomeá-las e um dia descobre, décontenancé, que há mais coisas a nomear do que palavras para o fazer.

Rente - Reedição

Amo-te rente ao chão e rente ao céu, amo-te rente às nuvens e rente ao mundo, amo-te rente às árvores e ao vento e ao mar, amo-te rente à vida e ao tempo. Porque tu és a vida e o tempo e leve como a vida rente ao tempo.

Faz daqui a menos de uma semana nove anos que escrevi isto. Hoje não tenho a certeza de que «rente ao tempo» funcione como aliteração, mas como descrição funciona de certeza. 

«Antes do anoitecer, antes da sombra rente às árvores» (R. Belo)

É naquela linha que o Sol poente traça entre a luz e a sombra, aquela linha que delimita o luminoso hoje do sombrio amanhã, o cor-de-laranja do cinzento, o que fomos do que seremos. as casas que vemos das que adivinhamos... É nessa linha que habitamos, todos. Alguns sabem-no, outros não.

[Adenda: já agora, fica a transcrição dos versos:
«"É antes do anoitecer suavíssimo dos deuses
antes do começar da sombra rente às árvores...»]

10.4.20

Debord de hoje

O meu livro favorito de Debord não é a Sociedade do Espectáculo (é o Panegírico,  mas isso agora pouco interessa). O que interessa é a dificuldade que tenho - e se vai avolumando a cada dia - em não pensar nesse livro.

No longer is science asked to understand the world, or to improve any part of it. It is asked instead to immediately justify everything that happens…. spectacular domination has cut down the vast tree of scientific knowledge in order to make itself a truncheon.“

„The spectacle is not a collection of images; rather, it is a social relationship between people that is mediated by images.“

Ponho em inglês porque pouca gente percebe francês e gostaria muito que  este post fosse lido e compreendido por muitos. (É mentira,  mas é uma mentira bonita, pode ficar. A verdade é que não me apetece perder tempo a procurar o texto francês para um post  que de qualquer forma ninguém vai ler.)

Debord não foi o primeiro intelectual marxista a descobrir que o sistema soviético era uma imensa fraude, mas foi provavelmente o primeiro que o descobriu, o denunciou e se manteve marxista. Ideologicamente poucas coisas tenho em comum com ele - se bem tenha sido com os situacionistas que comecei a reflectir seriamente sobre a liberdade, a erigi-la em sistema - mas duas ou três coisas lhe reconheço: em primeiro lugar, destacado, o seu maravilhoso francês. Ler Debord é um fascínio. Tem construções com as quais não se concorda nem com as vírgulas  mas cuja beleza nos deixa hipnotizados, paralisados, com falta de ar; em segundo lugar, era um visionário.  A sociedade do espectáculo que ele descreve é mais verdadeira hoje do que nos anos sessenta, quando começava a despontar no horizonte; final e mais debativelmente, gosto da  honestidade intelectual do senhor. Não é que concorde com ele, repito; mas quando o comparo a esquerdistas de pacotilha tipo Daniel Oliveira ou Catarina Martins (para não mencionar os mais patéticos, a classe Rui Tavares ou aquela coisa inenarrável que dá pelo nome de Marques Lopes - nunca percebi bem se é de esquerda ou simplesmente de baixo. Em França, poderia pensar-se em Mélenchon) é impossível não lhe reconhecer estrutura nas ideias e a cultura na qual se fundamentam.

A primeira das duas citações parece que foi escrita para esta crise, não é?

É. 

9.4.20

Futebol, palavras

"How vain it is to sit down to write when you have not stood up to live." Henry David Thoreau.

On n’habite pas un pays, on habite une langue. Une patrie, c’est cela et rien d’autre.” Cioran

Balizas entre as quais se joga o Don Vivo, na respectiva língua original.

Faltam a portuguesa: "Em tudo o que faças..." e a espanhola:

"Everness
Sólo una cosa no hay. Es el olvido.
Dios, que salva el metal, salva la escoria
y cifra en su profética memoria
las lunas que serán y las que han sido.

Ya todo está. Los miles de reflejos
que entre los dos crepúsculos del día
tu rostro fue dejando en los espejos
y los que irá dejando todavía.

Y todo es una parte del diverso
cristal de esa memoria, el universo;
no tienen fin sus arduos corredores

y las puertas se cierran a tu paso;
sólo del otro lado del ocaso
verás los Arquetipos y Esplendores."
Jorge Luis Borges

Quatro balizas que há muitos anos delimitam o meu campo...

Delimitar não é a palavra certa. Balizas tão pouco.

Pontapé de saída? Não sei. Não percebo nada de futebol. 

Nada do que é humano me é estranho

Ao mesmo tempo, não nos podemos queixar: estamos a viver a primeira histeria colectiva global da história.

Nem as religiões - as formas domesticadas, estruturadas da histeria - conseguiram arrebanhar tanta gente ao mesmo tempo.

8.4.20

Tarde e tarde

Amanhã vou acordar cedo e como já é tarde terei dormido pouco. À tarde inevitavelmente dormirei muito portanto à noite adormecerei de novo tarde.

Números, sentimentos e bom senso

"Feelings, nothing more than feelings" dizem as pessoas que desprezam quem tenta analisar problemas baseando-se em dados quantitativos, em números, em estudos. (A cançoneta é um bocadinho a cair para o xaroposo, mas isso é outra história.)

Pergunto-me - e de caminho pergunto-lhes - se preferem viver num prédio calculado com fórmulas ou feito com sentimentos? E os automóveis, as estradas, os portos, os aviões, aeroportos? Também dispensam fórmulas, cálculos, números e fazem-se só com emoções?

A análise racional e o sentimento não se excluem. Devem, antes pelo contrário, coabitar, como tão bem demonstrou um compatriota nosso. Não se pode é misturar-se-lhes a utilidade.

Nunca ninguém conseguiu demonstrar a superioridade moral do sentimento sobre a razão, nem a desta sobre aquele. Desde que sejam usados sensatamente, claro.

O tempo pairando

O tempo parece um disco voador parado à frente da janela. Alguma coisa tem de estar a funcionar para ele se manter ali, mudo e quedo, mas não se ouve ruído nenhum, não se vê qualquer movimento, vibração,  um frémito que seja.

A cidade parou, pôs-se a olhar para o tempo por trás das cortinas, como se estas a protegessem dos tripulantes da nave. Tem a forma clássica do disco voador, uma meia laranja em cima de um prato de sopa ao contrário. Não se lhe notam janelas, vigias, portas, escotilhas.

É simplesmente o tempo parado, silencioso e parado. A cidade pergunta-se quanto tempo vai ele ficar ali especado, a fazer ninguém sabe o quê.  "Porque nos escolheu? Quando se vai embora?" Estas são as perguntas suspensas em todos os lábios: ninguém se atreve a fazer barulho com medo de o acordar.

É o tempo pairando, sustentado pelo medo, mudo e quedo.

6.4.20

Insondáveis

A analogia não é perfeita e será progressivamente melhorada, mas o que se está a passar é: o paciente parte uma perna, vai ao médico, o médico receita-lhe acupunctura, o osso solda-se sozinho e tanto paciente como médico deduzem que as agulhas são bastante eficazes no tratamento de ossos partidos.

Os mecansimos da crença são insondáveis.

Adenda 1 - Uma prima do vizinho do sr. José foi um dia à China, faz agora cinco anos e ouviu dizer que a acupunctura é uma forma de tratamento fantástica. O sr. José parte uma perna, vai ao médico e exige que ele o trate com agulhas. O médico está um bocadinho desorientado, não sabe o que há-de fazer, mas cede perante a determinação do Sr. José. O osso solda-se sozinho e ambos concluem que sim, a acupunctura é bastante eficaz no tratamento das pernas partidas.

Adenda 2 - Enquanto o tratamento dura o senhor José - espetado de agulhas pelo corpo fora, que isto dos meridianos é para todos - definha a olhos vistos, porque não pode mexer-se. Médico e paciente concluem «Não faz mal, alguém há-de pagar. Importante é que a perna se trate.» O sr. José andava numa cadeira de rodas há quarenta anos.

5.4.20

Querer, às vezes

Às vezes basta uma palavra, uma faísca, um olhar de esguelha, uma vírgula, um acorde musical, a sugestão de um raio de luz entre as folhas de uma árvore, uma planície deitada no olhar por um deus generoso, a luz do nascente a reflectir-se no convés, as curvas arredondadas das montanhas do Jura, o toque involuntário de um antebraço, o sol a brilhar no branco da vaga que a esteira deixou para trás... Tudo tão pouco e daí jorram palavras, sentimentos, a promessa de fixar esse instante para todo o sempre, de o estender até para lá do fim do amor.

Às vezes basta querer encontrar o que não procuraste, o que veio ter contigo sem saber que eras tu, sem tu saberes de onde vem. Às vezes, basta amar.

(Para a A. B., depois de uma conversa sobre números e sentimentos.)

Dilemas

Há em mim um humanista e um céptico. O humanista desespera; o céptico encolhe os ombros e pergunta-me:
- Que esperavas?

Ganha o humanista, a contragosto. Amar alguém é amar os seus defeitos. 

4.4.20

Planear uma viagem

- Quando é que começa uma viagem?
- Quando acabou a última, claro.
- Isso é impossível, porque as viagens começam, mas nunca acabam. Somos feitos de viagens como a bebinca é feita de camadas.
- Patetice. As viagens acabam quando chegas a casa. Ou quando regressas ao ponto de onde partiste.
- Patetice? Quando voltas não és o mesmo. Sem ti, a tua cidade transformou-se e longe dela tu mudaste. Não há regressos. Somos um tijolo em cima de outro tijolo em cima de outro tijolo e a argamassa que os liga é o que a viagem fez de nós e a sua memória, aquela que em nós perdura. Enquanto ela viver connosco a viagem não acabou.

Para mim, uma viagem começa quando começo o respectivo planeamento. Mas antes disso é preciso explicar que eu só viajo de barco. Por terra ou por via aérea não viajo, desloco-me. (Esta regra tem excepções, sobretudo no caso da via terrestre. Não são para aqui chamadas, agora.) Uma viagem marítima exige um cuidadoso planeamento e é disso que venho aqui falar.

A navegação começa com um ponto de partida e um ponto de chegada. Vês a distância e o rumo – a rota, ou o caminho. Se for em longitude decides se queres fazer uma ortodromia ou uma loxodromia. Como estamos a falar de embarcações de vela esquecemos aquela: um veleiro mede as distâncias em tempo e não em milhas. A duração de uma viagem num veleiro não depende da distância a percorrer. «Nós, que definimos a distância em dias, semanas, meses...» Quem disse isto? Pouco importa.

Sabendo o meu ponto de partida e o meu ponto de chegada, vou determinar quais os ventos predominantes ao longo desse percurso. E as correntes, claro, se bem nas longas distâncias estas normalmente sigam os ventos e nas curtas dependam das marés (isto é, da Lua, do Sol e do estranho baile que os dois dançam). Consulto as Pilot Charts (e se for caso disso as cartas de marés) que me mostram uns bonecos muito bonitos com flechas orientadas segundo a rosa-dos-ventos e de diferentes dimensões. (Claro que para as rotas habituais isso é conhecido de todos, mas aqui interessam-nos os caminhos pouco percorridos.) Em função dessas flechas escolho o meu percurso, que pode ser uma linha recta, um arco, um ziguezague ou uma combinação de tudo isto. Vejo se há obstáculos em cada uma dessas componentes: ilhas, baixios, piratas (sim, ainda existem, infelizmente) e adapto o meu percurso. Aqui chegado, tenho uma ideia aproximada do tempo que a minha viagem vai levar e pergunto-me:
- A embarcação tem autonomia para isto? Tenho combustível que chegue? E água? E provisões? Tenho de parar no meio para embarcar ou desembarcar tripulantes? O porto para onde vou não é um porto de entrada daquele país?

Bom, vamos recomeçar, desta vez introduzindo uma escala (ou duas, ou três, as que forem necessárias). A minha viagem tem agora vários pontos de partida e vários pontos de chegada. Os ventos não mudam radicalmente – podem mudar, perto das costas, por causa das brisas térmicas, mas isso fica para outras núpcias (uma viagem é um casamento e não vice-versa, contrariamente ao que muita gente pensa). Revejo obstáculos, baixios, correntes, ilhas, ilhéus, rochas e vejo se alguns desses portos tem constrangimentos ligados às marés, aos ventos, aos regulamentos administrativos. Posso entrar a qualquer hora ou tenho de esperar pela enchente? Posso – ou será prudente – entrar de noite? Nesse porto há abastecimentos, combustível, marina, reparações? Há serviços de saúde, para o caso de ter de desembarcar alguém doente ou acidentado?

Pronto, a primeira parte do meu planeamento está feito: sei de onde largo, sei para onde vou e sei onde tenho de parar entre os dois. Sei o que me espera em cada um desses portos, se as ajudas à navegação são fiáveis ou não, quais os documentos que as autoridades me vão pedir, se há constrangimentos ligados à nacionalidade de um dos tripulantes, se o porto é caro se é barato, se é fácil arranjar lugar ou se tenho de reservar com antecedência. Tenho planos dos portos, que encontrei nos guias náuticos – provavelmente a literatura de viagens mais apaixonante que existe.

Dito assim, isto parece que foi muito rápido, não é? Não foi. Precisei de consultar inúmeros documentos, confrontar informações, eventualmente falar com alguém que conhece a área, para tirar uma dúvida ou outra; de qualquer forma ainda não acabou: agora, ao longo de todo o percurso, tenho de encontrar portos para emergências. Pelo menos um ou dois em cada “perna” (navegação entre dois portos ou, em regata, entre duas marcas. É um anglicismo). E o processo recomeça, desta feita para os portos de contingência.

Planear uma viagem é como subir uma escada da qual não se vê o fim. Se quisermos ser mais românticos: é como fazer a corte à senhora que se ama. É preciso conhecê-la, saber onde e como abordá-la, a que horas, se é preciso licença do pai ou não.

É o princípio do prazer que ela nos vai dar, o princípio dos sacrifícios por que vamos passar, o princípio do mistério: cada viagem, mesmo aquelas que já fizemos muitas vezes, consiste em estabelecer uma cumplicidade com os elementos – o vento, as costas, o mar, os faróis e outras luzes, os recifes, os baixios, os portos. Planeá-la é como sermos apresentados à família da noiva, mas só com as fotografias de cada um. O processo é longo, moroso (quando não se conhece a área para onde se vai, claro. Se se tiver de planear uma viagem que já se fez dez vezes é muito rápido.) É, sobretudo, apaixonante. E é por isso que uma viagem nunca acaba: o que aprendermos nesta vai servir-nos para a próxima.

Apologia de Palma

É tão fácil uma pessoa apaixonar-se por Palma como é a um homem enamorar-se de uma senhora que nunca viu mas lê todos os dias: não caímos pelo que vemos, mas pelo que pensamos quando a lemos.
Há uma pergunta universal, toda a gente que vem a Palma e por uma razão ou outra por aqui se demora a faz. Essa pergunta é: porque é que todos gostam de Palma? Que tem esta cidade de mágico, de tão atraente? É como se uma diva de cinema se deixasse aproximar e aceitasse um convite para um copo: está ali tão perto e tão linda, mas não se dá a conhecer. Olha-nos polidamente (isto é o que pensamos ao princípio. Depois percebemos que o olhar é de indiferença) e diz que sim.

Palma foi oficialmente criada no ano 123 A.C. por um general romano cujo apelido era Metelo, que também existe em Portugal. Talvez os laços entre Maiorca e o nosso país, agora escassos, sejam mais antigos do que se pensa... Antes dos romanos já cá tinham estado Fenícios, Vândalos, alguns povos pré-históricos de que restam poucos traços. Situada no centro do Mediterrâneo Ocidental, Palma foi desde sempre um lugar de passagem, de pilhagens, de comércio, de pirataria. Depois dos romanos vieram bizantinos, árabes – mudando várias vezes de mãos. Sempre foi uma presa querida por todos.
A primeira comunidade judaica chegou provavelmente no princípio do século V e por cá se manteve desde então – passando, claro pelas dificuldades de todos conhecidas entre o século XIV e o século XX, quando (em 1931) foram levantadas as últimas restrições legais contra os Chuetas, como eram – e ainda são – conhecidos os judeus maiorquinos.

Voltemos um pouco atrás: no século XIII a ilha foi conquistada por Jaime I de Aragão e desde aí nunca mais deixou de ser um domínio católico – apesar de ainda ter passado uns anos em mãos francesas. Uma história conturbada, no mínimo – e nem sequer falei muito dos piratas, uma constante na vida da cidade até ao século XIX.

É provavelmente por isto que os maiorquinos são tão reservados. Aqui, um estrangeiro é estrangeiro até pelo menos à terceira geração... Já viram passar de tudo e preferem não se misturar. Ou seja: na verdade há pelo menos duas cidades de Palma: a dos maiorquinos e a dos estrangeiros – sendo que esta se subdivide em três categorias: a dos turistas, a dos residentes e a dos yachties (tripulantes de iates de luxo, de que Palma é um dos pólos mundiais). É possível viver vinte anos em Palma e não falar uma palavra de espanhol (e menos ainda de maiorquino, o dialecto local, parente próximo do catalão). Cada uma destas categorias vive separadamente das outras: residentes não se dão com turistas, estes não se dão com ninguém – muitas vezes por falta de vontade, outras por falta de receptividade alheia – os maiorquinos não se dão com ninguém (de resto, também não se dão muito entre eles, as divisões sociais na ilha são enormes), os yachties flutuam nos bares da Lontja e não sabem sequer que Palma passa para lá da Rambla, os residentes estrangeiros pensam que estão no paraíso e ninguém no seu perfeito juízo faz muitas perguntas sobre o paraíso quando nele habita.
Curioso é: todos eles gostam de Palma. Porquê?

Em primeiro lugar, porque a cidade é linda, plácida e cálida, com uma arquitectura rica – há muito dinheiro há muito tempo – cafés e restaurantes para todos os gostos, galerias de arte, lojas de moda, livrarias (espanholas, inglesas, alemãs. A francesa fechou há um ano). Depois, porque devido à indiferença dos locais e dos diferentes grupos, cada um faz o que quer, vive como quer e ninguém se aborrece por isso. Acresce que a ilha é lindíssima: são duas ilhas numa só. A metade oeste é montanhosa – uma espécie de serra de Sintra com cem quilómetros e paralela ao mar em vez de perpendicular; a outra é uma planície que, se formos distraídos, nos faz perguntar em sobressalto se estamos no Alentejo e porque é que as casas são castanhas e altas em vez de brancas e baixas.
Palma tem tudo: é uma cidade vibrante, cosmopolita, onde cada um encontra o que procura, seja o que for. Tem uma ilha lindíssima à volta. Está a duas horas de voo da maior parte da Europa. Há uma e uma só coisa que Palma não tem: mulheres feias. Por um milagre qualquer da evolução, nesta cidade até as feias são bonitas. Suponho que o mesmo se passe com os homens, não sei. Só sei apreciar a beleza masculina se estiver esculpida em mármore.

É por isto que todos gostam de Palma: é uma casa que cada um mobila à sua maneira.

E Deus sabe se as divisões podem ser diferentes. Desde restaurantes e café locais como o bar Rita a tascas mexicanas como o 7 Machos, passando por restaurantes de luxo, cafés onde o vermute é uma religião, tascas colombianas, discotecas da moda, há de tudo em Palma. Quem prefere igrejas tem uma em cada esquina e, sobre a baía, a catedral, a segunda maior da Europa, construída entre 1229 e 1601. Como tudo em Maiorca a Catedral sofreu várias alterações de planos durante os três séculos que durou a construção. As últimas – que levantaram uma celeuma da qual ainda hoje se ouve falar – foram as obras de Gaudí, que deitou abaixo vários elementos e deixou um candelabro (e muito mais, bem bonito, perfeitamente integrado no edifício), antes de ser expulso da ilha. Os maiorquinos são conservadores, o bispo que lhe encomendou o trabalho e o protegia morreu e o arquitecto voltou para Barcelona, para a sua catedral, a dele e só dele.

Conheço poucos edifícios mais bonitos, mais comoventes do que La Seu, como é chamada em maiorquino. Quando se chega por mar a Palma a catedral vê-se ao longe; se for ao fim da tarde, o Sol poente ilumina-a com a luz alaranjada da hora e as pedras – alaranjadas elas também - parece estarem em fogo, grandioso incêndio, cântico iluminado e mudo à fé, às energias primitivas, fundamentais, aos arquétipos.

Palma é uma senhora burguesa que aos domingos se aperalta para ir à missa e nos recebe, distante e em fogo. Não nos liga muito, mas nós ligamo-nos a ela, para sempre.

Arroz Vishnáveis, vinho Planície Ardente e outras coisas boas para todos

Uma grande ilação que podemos desde já tirar desta história do vírus: é mais fácil induzir pânico do que induzir procura.

Talvez a malta da publicidade deva começar a incluir umas ameaçazitas nos slogans. «Compre sabão Interlopem ou os serviços de saúde do seu país entopem!» «Proteja os vulneráveis: arroz Vishnáveis!» « Não saia sem beber um copo de vinho Planície Ardente! Abstinente sim, mas em casa. Na rua proteja-se!» «Ou rum Narachal ou surto viral!» «Grupo de risco? Aguardente Não Arrisco!»

3.4.20

Dispersas da noite - Palma, 03-04-2020

As pessoas fecham-se em casa e para não se sentirem sozinhas dizem aos outros para se fechar também. Gostam de ser parte do rebanho; a solidão é fria, já o alemão dos bigodes e da Salomé o dizia. 

Parai o mundo, os marcianos pagam. Só gostava de perceber é o que vão fazer de tanta felicidade: baleias nos canais de Veneza, golfinhos nos lagos suíços, vacas a fazer ski de fundo no Sahara.

Ou será antes a voar? Acho que essas, a serem, vão voar baixinho, nestes próximos anos. Se calhar deviam ter ficado em casa, como os donos.

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Enfim, Palma vazia é como os livros de colorir que ainda não foram usados: é só formas vazias, sem cores. Nunca mais reclamo contra o excesso de gente nas ruas.

Salva-nos o mercado, continua aberto. Todos os dias lá vou de manhã, dou voltas e mais voltas, digo olá aos vendedores que conheço, compro-lhes qualquer coisita. Imploro a todas as alminhas do céu que aquilo não feche. É o novo ponto de encontro da cidade.

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Consegui quebrar o enguiço e escrevi um texto para a J. Amanhã revejo-o. É sobre Palma, a de antes e a que aí vem.

Agora não é nada, uma espécie de distopia, um não-lugar. Só me falta aparecer aí um bando de gajos vestidos de peles, aos guinchos, de mocas na mão e a deslocarem-se nos outros três membros: sobreviventes da última guerra nuclear.

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Vá lá. Ao menos o vinho é bom e o trabalho agradável. Podia ser pior. 

2.4.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-04-2020

O frio continua e recomeçou a chuva. Pela primeira vez em muito tempo fui ao Passage Weather: de manhã estávamos mesmo no centro da depressão. Depressões em todo o lado.

Hoje fui parado pela polícia. Foi a primeira vez, estava mesmo à frente de casa; limitei-me a apontar para o cesto das compras - estava cheio - e para a porta de casa, balbuciei qualquer coisa que espero tenha sido tão ininteligível como eu queria que fosse, o homem sorriu-me, fez-me sinal para continuar e ficou por aqui.

Agora apetece-me sair, sem cesto e dizer ao homem - se lá estiver, do que duvido - que vou comprar tabaco. Ou camisas-de-Vénus. Ou rum. Lido pior com a estupidez colectiva do que com a individual. Com esta ainda aguento - pouco, mas aguento. Aquela esfrangalha-me a paciência. Deve ter a ver com a relação difícil que tenho com a autoridade. Já por aqui o disse muitas vezes: a única hierarquia que aceito é a do saber. A estupidez colectiva arvora-se com demasiada facilidade em autoridade. Ponham-lhe um casse-tête nas mãos e um apito na boca, ela não pede senão isso. É como se sente bem: mai-lo uniforme, bonito, de capacete branco ou mesmo - vá lá saber-se - um Pickelhaube. Não há cabeça por esse povo fora que não sonhe com um.

.........
O que sabemos desta pandemia?

- O vírus parece ser extremamente contagioso, mas isso é contraditório com o histórico das infecções pulmonares;
- Ataca sobretudo pessoas de idade, com outras patologias - coração, diabetes, respiratórias;
- Até agora, na Europa (incluindo portanto Itália e Espanha) provocou menos mortes do que a gripe de 2017. Cf. https://www.euromomo.eu/;
- O excesso de mortes (isto é, o nº de mortes acima da média anual para cada país) é tão pequeno que não é detectável (se bem venha provavelmente a sê-lo em breve, mas nunca nas proporções que se andam para aí a acenar);
- Não há diferenças visíveis no nº de mortes entre países que adaptaram diferentes abordagens à crise. Cf. https://ourworldindata.org/covid-mortality-risk.

O que é que não sabemos?
- A taxa de letalidade - quantas pessoas morrem por cada mil infectados (não se sabe isto porque ainda não se sabe o nº real de infectados; o que temos são estimativas e sabemos que elas vão baixar, como baixam em todas as epidemias);

Ou seja: estamos a sacrificar pessoal médico e a dar cabo da economia dos países por uma coisa para a qual já números mais do que suficientes demonstram empiricamente que uma abordagem gradual teria os mesmos efeitos e menos consequências na economia.

Paradoxalmente, os países que adoptaram medidas "laxistas" (para usar o vocabulário dos "especialistas-FB") são aqueles a quem iremos bater à porta quando se tratar de pagar esta loucura toda.

Fique em casa, não se preocupem. Os alemães, os holandeses e os suecos pagar-vos-ão as precauções.

(Obrigado a André Dias e a Henrique Pereira dos Santos.)

Contra o desperdício

Não gosto de desperdícios. O meu conflito com a irracionalidade vem daí: toda a gente tem um cérebro e salvo raras excepções todos o podem usar.

Não pensar, reagir irracionalmente é um crime de lesa-evolução. Isto não significa que todos devem pensar a mesma coisa, claro. Significa simplesmente que se deve pensar. Não seguir acefalamente tudo o que nos dizem, investigar, duvidar, aprender com quem sabe, partir sempre do princípio que "toda a gente" está muitas vezes enganada.

Não é ser do contra por ser do contra. É simplesmente não ser a favor por ser a favor. São duas atitudes diferentes. Não é não ir atrás do rebanho. É não ir atrás do rebanho sem pensar. Não ir atrás de ninguém, na verdade. Ver e ouvir antes de decidir. É para isso que temos um cérebro: para podermos decidir por nós próprios.

E para poder ver que nos enganámos. O erro faz parte da aprendizagem. Não continuar cegamente o caminho se a meio tudo indica que vamos na direcção errada.

É muito desconfortável, eu sei. O desperdício é mais cómodo. Externalizar o raciocínio, confiar essa missão a alguém em quem se deposita o trabalho de pensar e reservar para nós a tarefa bem mais simples e leve de acreditar...

Que desperdício!

1.4.20

De cada um segundo as suas possibilidades

Cada geração tem o desafio que merece. Umas lutaram contra o nazismo ou contra o comunismo, outras puseram bombas e andaram na "luta armada" (aspas porque cito) contra o capitalismo. A nossa vai às compras e tenta iludir a polícia porque se esqueceu do talão.

Gratos governos

Terá sido esta a primeira vez na história que povos pedem aos respectivos governos para lhes restringir as liberdades em nome do medo? Os governos agradecem. 

Apostas e companhias

Digo sistematicamente que não quando tenho a absoluta certeza de qualquer coisa e alguém que pensa o contrário me propõe uma aposta. Parece-me injusto beneficiar dos erros dos outros, cometidos a maioria das vezes de boa-fé.

Hoje pensava nas duas apostas que já fiz sobre o coronavírus. Não tenho a certeza de que isto tudo seja uma monstruosa mistificação (em todos os sentidos do termo), induzida pela China e copiada devido à pressão popular e à cabeça perdida da maioria dos governos ocidentais. É uma hipótese na qual acredito mas está muito longe de ser uma certeza; é até bastante provável que, chegados ao fim, se descubra a verdade algures escondida ali no meio (mas mais para o meu lado, claro). Parece-me que encontrei uma boa alternativa, tanto mais que as duas apostas foram feitas com simpáticas e bonitas senhoras: quem ganha paga o jantar.

Assim salvaguardo o cavalheirismo de que me é tão difícil separar-me, enquanto janto em simpática companhia.