7.2.04

Imagens do mar

Entrar no Vieux Port de La Rochelle à vela;

Uma noite de Tramontane durante o Tour de France (neste site, a visualisar absolutamente - enfim, quem gosta de vela - o diaporama do Tour 2002): três Sélections lado a lado, paus de spi a tocar nos brandais do do lado, a cara do gajo do meio, branca fosforescente a gritar para o que estava a sotavento: "Não orces, não orces", e para o que estava a barlavento: "não arribes, não arribes". Os três a 14 nós, a bigodeira um metro acima da balaustrada - até que a formação se desfez, cangocha após cangocha.

Mais uma imagem do Tour: sete barcos em fila; o primeiro toca e vira de bordo. O segundo não vira logo: vai até onde o primeiro tinha tocado, toca por sua vez e só então vira - e os que vinham atrás fazem a mesma coisa.

O Piano Pub em La Rochelle, e os primeiros contactos com o whisky de malte. A generosidade do proprietário, enorme, jogador de rugby, bigode "republicano", que teve a paciência de me inciar e de me ensinar a distingui-los uns dos outros. E que revejo, no dia da largada para os Açores a correr no pontão, uma garrafa de Auchentoshan em cada mão - fiz marcha a ré para as ir buscar;

Um jantar que não comi em Boulogne, creio: estava tão cansado que adormeci à mesa, e a senhora só à hora do fecho conseguiu acordar-me; muito zangada - tinha-me chamado a noite toda, sem sucesso, e parece que mesmo sentado ressono muito...

As saídas no Tomcat, um micro de Dunkerque que foi a minha primeira experiência de vela num barco muito performante;

Os pequenos almoços delirantes do Raoul, em La Rochelle: ostras e champagne em quantidades industriais à 10 da manhã - tive que lhe dizer para parar, porque não conseguia fazer mais nada o dia todo;

O dia em que nos Açores me atirei à água porque vi uma barbatana de tubarão a 50 metros do barco - queria perder o terror primário que tenho pelos bichos e testar a terapia de choque (não funcionou);

O tubarão ao largo de S. Jorge - a descrição que a S. faz é: "ele disse-me para voltar já para o barco, num tom de voz muito calmo - mas ao qual era impossível não obedecer imediatamente";

Chegada a Lisboa com uma lestada muito forte - um dia inteiro a fazer bordos para cima e para baixo, porque o "Aquarelle" não bolinava.

Passagem da Roca no "Scarlett", vindo de St. Malo, sozinho, e a vontade que tive de não entrar, de continuar para as Canárias - o que devia ter feito, de resto.

O peixe que os pescadores nos davam, espontaneamente, nos Açores - tinha um gato a bordo que passou os primeiros meses de vida a comer espadarte.

La Rochelle, La Rochelle, La Rochelle;

Île de Ré, Île de Ré, Île de Ré;

A tromba de água a desfazer-se em cima de Fort-de-France - uma chuva que não era chuva, era como estar debaixo de uma cascata caindo do céu. A cidade ficou inundada em minutos;

As três dourades coriphènes que nos acompanharam desde o princípio dos alízeos até à Martinique;

A discoteca em Fort-de-France onde fui dançar com o pé no gesso. Quando pedi ao DJ um slow ele ficou tão impressionado que disse ao microfone que só ia passar slows, "pou wemewcier le Monsieur qui est là avec le pied dans le plâtwe";

O corpo da S., uma controladora de tráfico aéreo que fez a travessia, cheio de cicatrizes das quedas de mota, de pára-quedas, de parapente - e os seus cabelos encaracolados, o seu sentido de humor, o sorriso que vinha da criação do mundo;

Ainda durante essa travessia, a S. e a A. nuas (era o traje oficial de bordo) a coserem o spi - estava tão podre que no fim já usávamos os windbreakers; tive durante muito tempo uma fotografia delas concentradas na costura, parecia a capa de um disco do Leonard Cohen;

Os Ti'Punch no Abri Côtier, em Fort-de-France;

(Continua)

1 comentário:

Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.