25.4.04

Domingo (suite et fin)

Domingo chato, em casa, doente. Acabei "Middle Passage", o livro do Naipaul sobre alguns países das Caraíbas: Trinidade, Guiana Inglesa, Suriname, Martinique e Jamaica, antes da droga. O problema da raça, e as diferentes maneiras como cada um desses países lidou com ele, é o eixo principal do livro. Dos cinco, só conheço a Martinique. Tudo o que Naipaul escreve permanece válido (o livro foi escrito em 1961): presumo que o seja também para os outros.

Sou (agora menos, é certo), colour blind; sinto-me especialmente intrigado pelas povos, países, civilizações para quem a raça é um critério importante na distinção das pessoas. Este livro estuda três atitudes diferentes: a inglesa, a holandesa e a francesa. Paradoxalmente, a mais "aberta" e igualitária, a holandesa, foi a que piores consequências teve, pelo menos se aferidas pela força dos movimentos racionalistas. Mas a verdade é que não se pode falar numa atitude "inglesa": elas foram diferentes em Trinidade, na Guiana, na Jamaica.

Passei a viagem às Grenadines a fazer comparações com África - era inevitável, creio. Uma das coisas de que gostei muito foi que, mesmo quando estávamos em festas locais e éramos, o P. e eu, os únicos brancos, nunca senti no ar a agressividade, e por vezes o risco, que tantas vezes senti em circunstâncias semelhantes em África. Ninguém se aproximava de nós por sermos brancos, mas também ninguém por isso nos agredia ou tinha comportamentos agressivos - duas coisas que teriam acontecido em muitos países africanos.

Lembrei-me muitas vezes de uma frase do A., um colaborador meu em Bujumbura: "o problema em África é político, não é económico, nem tribal. O tribalismo é uma invenção dos jornalistas europeus, e a pobreza resolve-se com medidas políticas, não com ajuda humanitária". Apercebi-me muito depressa que ele tinha inteiramente razão, e hoje subscrevo sem hesitar essa tese - claro que depois há que saber como forçar os governos a aplicar medidas políticas "correctas", mas isso é outra história e outro debate.

Contudo, essa simplificação a que os media são forçados é inevitável - não é por serem idiotas que os jornalistas reduzem e simplificam problemas complexos, é porque um artigo de jornal não é um ensaio.