28.9.06

Douce France - II

Não gosto muito da Fraaaaance, e pouco dos franceses - excepto de alguns, e algumas, de quem gosto, e muito. Mas forçoso é reconhecer que por vezes gostaria que a minha língua materna fosse o francês.

Douce France

"Faut-il avoir honte d'être Français?", perguntava recentemente na capa uma conhecida revista francesa. Um povo que elegeu sucessivamente François Mitterrand e Jacques Chirac está dispensado de fazer essa pergunta.

27.9.06

Viagens

Já dei uma volta ao mundo porque uma determinada senhora não quis fazer amor comigo; e já aluguei um automóvel e guiei 400 km porque uma outra mo pediu. Nunca mais vi nenhuma delas; não me lembro da primeira, mas penso muitas vezes na segunda. O que prova que mau sexo é melhor do que nenhum sexo.

23.9.06

Todos os dias

Todos os dias ia de casa para o escritório, a pé, duffle coat abotoado até acima, la banque à gauche et l’eau à droite. Todos os dias voltava do escritório para casa, duffle coat abotoado até acima, la banque à droite et l’eau à gauche. Todos os dias. No inverno era noite e no verão o rio reflectia o sol nascente à ida, poente à vinda. Todos os dias.

À noite voltava para casa, mas tu não estavas lá. Estavas ao telefone, ou doente, ou cansada, ou cheia de trabalho, todos os dias.

L’air était vif et sec et tonique, le matin; à tarde tudo estava cansado, o ar, o relógio da torre no meio do rio, a água, a minha imagem reflectida pelos vidros do banco, decorado com maquettes de navios, antigos e modernos, muitas, todas elas bonitas, mas cansadas, também, à tarde. Todos os dias chegava ao escritório, e todos os dias chegava a casa. Não me lembro das crianças, nessa altura. Já eram duas, mas não me lembro se me viam partir de casa, duffle coat abotoado até acima, ou voltar, todos os dias.

Lembro-me de ti ao telefone, ou doente, ou cansada, ou cheia de trabalho. E lembro-me do meu duffle coat com botões de osso, abotoados até acima, reflectido nos vidros do banco. Nunca me vi no rio, mas era lá que queria estar, todos os dias. Até hoje.

15.9.06

11.9.06

Serviço público - Receitas

Podia estar com grandes descrições, mas não vale a pena. Está tudo dito, aqui. A sobremesa ideal é, claro, um Alexander, porque convém variar a ementa. Felizmente não tenho tendência para engordar, porque se tivesse seria uma maçada.

9.9.06

Vento

Está vento, muito, hoje em Cascais. E eu estou em terra. Gosto do vento, claro, mas não consigo impedir-me de pensar que, em terra, o vento não passa de uma punheta.

7.9.06

Pois,

e depois? Não sei, não posso e - sobretudo - não quero, fazer outra coisa. Hoje não há vento, amanhã quem sabe?, e depois de amanhã choverá. Que importa? É assim que as coisas se vão passar, e não de outra maneira: "ya todo está", lembra-te, o que vamos fazer, o que a cada dia construímos, o que, à nossa frente, todos os dias desaba; ruínas, todos os dias ruínas novas, futuros radiosos. "Ya todo está".

Excepto, claro, os teus reflexos no espelho que só amanhã verei, ou depois.

Por agora, Gould desfaz as Variações Goldberg, o Alexander flui, o futuro constrói-se, outra vez. Há sempre, minha querida, um futuro, uma ruína, outro futuro e outra ruína, e assim, sem fim, se vai construindo a vida.

6.9.06

Serviço Público - Blogs

"A direita liberal, ao contrário do beco sem saída em que se meteu a esquerda, acredita na pessoa humana. Esta realidade faz toda a diferença. Tanto no conceito de segurança social, como no planeamento da reforma, na defesa de programas de ensino livre, na saúde e em todas as demais áreas das políticas sociais, o discurso da direita é o de devolver o poder aos cidadãos. Na conquista do voto, onde a lei do mercado também funciona, vence sempre quem tem o discurso positivo. A direita liberal defende a liberdade e a dignidade humana. Acredita que as pessoa são capazes. Aceita, por estas mesmas razões, a própria incerteza inerente à condição de ser humano . O Filipe Moura pode até ficar muito triste, mas o futuro, meu amigo, já não está na esquerda."

Aqui.

3.9.06

Retrato

A boca nem muito grande é, mas ocupa toda a largura do rosto. Aquilo não é uma cara, é uma faca.

2.9.06

Blasfémia

Eu tenho uma dúvida sobre isto das salas de chuto: será permitido fumar tabaco lá dentro? Se sim, tal não vai contra a política proibicionista do Ministério da Saúde?

Concorrência

O Expresso pode ter todoss os defeitos que lhe quisermos apontar - e tem alguns deles. Mas "Sol" é foleiro a olho. "Dê-me o Sol, por favor". A resposta vem rápida: "Ó vizinho, quem me dera, mas com o dia que está acho que só vamos ter chuva".

- Quuero o Sol, por favor.
- Também eu.

- Tem o Sol, por favor?
- Tenho, mas está dentro de mim. -(Esta é improvável, mas...)

1.9.06

Um jantar improvisado

O ponto de partida foi uma intolerável vontade de caril de frango, e a forçosa lembrança do tão recente caril de lulas. Para conciliar uma e outra:

Óleo numa caçarola, frango (neste caso, do campo - parecia um perú, ou uma avestruz) a alourar. No mesmo óleo, retirado o frango, refogar cebola e, quase no fim, alho. Juntar o frango, envolver em concentrado de tomate (ma non troppo) e juntar as especiarias: caril, claro, pimenta, gengibre, açafrão-das-índias, tomilho e cominhos moídos. Deixar evoluir, muito devagarinho, até chegar a altura de se juntar leite de côco, 2 latas 2, e água para cobrir o conjunto.

Coze lentamente, claro, e durante a cozedura vão-se ajustando os pós. Pouco antes do fim: coentros picados, um pouco, muito pouco, de sumo de limão e pepino às rodelas.

Nessa altura já o arroz cozia alegramente. O resultado foi bom, muito bom. Ainda sobram cerca de dez porções...

A sobremesa foi um Alexander. As consequências, a nível logístico, muito graves. John Vickers e Heather Harper cantam, ele Peter Grimes e ela Ellen Orford. Longe, uma vida espreita.