22.7.07

Sonho em modo naïf

Estás num aeroporto, e só há duas portas de embarque. Não sabes para onde vão. Algumas pessoas escolhem a primeira, e quando a porta se abre tu vês um avião bonito, rutilante; as hospedeiras têm fardas dos anos 50, 60, 70, e recebem-te a cantar os grandes hits desses anos. Tu hesitas: o avião que se entrevê pela outra porta não inspira muita confiança. Os pilotos estão cobertos de óleo, a trabalhar um nos motores e o outro nos instrumentos de navegação. As hospedeiras estão vestidas da forma mais díspare possível, a música uma cacofonia ininteligível.

Esperas muito tempo, hesitas, perguntas-te, perguntas a quem passa - o aeroporto não tem balcão de informações. Na realidade não tem nada, apercebes-te agora, excepto aquelas duas portas.

Os anúncios sucedem-se - "Última chamada para o vôo ....", ou "....." - a um ritmo estonteante, mas continuas a não saber para onde vão os aviões. É sempre a última chamada, sempre, e os altifalantes debitam os anúncios sem interrupção. É agora. É agora. É agora. As pessoas entram, umas numa das portas, outras na outra.

A certa altura vês uma passageira - bonita, sorridente, mais ou menos da tua idade, ir decidida para uma das portas, e sentes-te tentado a segui-la. Em cima da porta acende-se um letreiro: "Passado". Os passageiros do outro avião não são assim, tão bonitos, confidentes, seguros de si. "O passado é acolhedor", pensas. "Hipnotizante".

No outro avião, cujas formas não distingues muito bem, toda a gente trabalha, toda a gente está, agora, coberta de óleo e a utilizar as ferramentas mais estranhas. É por ele que optas, finalmente: este é muito bonito, mas não sai dali, nunca descola. "E não vim para este aeroporto para ficar parado", pensas. Uma luz acende-se por cima da outra porta: "Futuro".

Mal entras perguntam-te "qual a ferramenta que conheces?" Inicialmente estranhas a familiaridade, depois vês que é a norma. Cada passageiro tem uma ferramenta diferente. Escolhes uma, a hospedeira põe-ta nas mãos e diz "se essa não servir experimenta outra. Até logo" e desaparece.

Estás sozinho no avião.

A coisa continua, sempre mais ou menos assim, até ao momento em que o nosso passageiro descobre que não, não está sozinho. Nesse momento o avião descola e ele apercebe-se que os pilotos são cegos: é ele que tem de pilotar o avião. Atrás dele as instruções sucedem-se, contraditórias, confusas, indecifráveis.

Pouco a pouco o avião vai-se esvaziando. Ficam duas ou três pessoas, apenas, poucas para um avião que estava tão cheio ao princípio. Continuas aos comandos, etc. O avião há-de chegar, se bem não saibas quando - pelo menos, sabes onde, e é isso o mais importante.

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