7.12.07

Se eu quisesse

Se eu quisesse enchia três páginas A4 com o teu nome escrito à mão, com aquela caligrafia pequenina, tão feia e tão ilegível com que escrevo por vezes quando quero escrever-te; se eu quisesse, escreveria o teu nome nas ruas de Pretória, em todas as ruas, sobretudo aquelas que levam à Villa Sterne, onde, pela última vez, nos amámos como se fosse a primeira, e comemos o melhor pequeno-almoço da nossa vida, na varanda com vista para a cidade, com a J. a contar-nos histórias do rei de Marrocos e nós perdidos de riso, e perdidos em nós; se eu quisesse, cobria as ruas de Lisboa com flores, como eles fazem na Ponta Delgada, mas não deixava ninguém andar-lhes em cima porque em cada pétala teria escrito o teu nome; se eu quisesse punha um avião no ar a escrever Amo-te Amo-te Amo-te até o piloto não saber se é ele que te ama, ou eu; se eu quisesse, mandava o Calígula buscar um bocado da Lua e entregar-to de joelhos, humildemente, esmagado por ti e pelo amor por ti; se eu quisesse, comprava todos os livros de poesia de todos os poetas de todas as livrarias de todas as cidades do mundo e lia-te os poemas todos, um a um, verso a verso, palavra a palavra, sílaba a sílaba, vírgula a vírgula, silêncio a silêncio, se eu quisesse.

Se eu quisesse, serias minha outra vez, e o nosso amor renasceria das vontades todas que tive, e não quis.

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