23.1.08

Um amor alemão

Ainda me lembro dela, sentada à minha frente com um cálice de Porto na mão e um sorriso irónico nos olhos. Amei-a por causa desse sorriso, e sabia que nele estava o fim do nosso amor. Digo "nosso", mas não é verdade: o amor era meu, só meu. Ela limitava-se a recebê-lo, como uma planta que recebe a luz do sol e a transforma em clorofila, sem querer. Por isso aquele sorriso lhe nascia nos olhos, primeiro, e lhe descia depois até aos lábios, longos e finos como uma linha de caminho de ferro há muito inutilizável.

Eu amava-a, garanto, estava apaixonado por ela, quase desde que nos encontrámos, em Berlim. De dia trabalhávamos e à noite íamos jantar ao Zwiebeln, ou ao café Einstein. O Zwiebeln era pesado e escuro e kitsch - e quando voltávamos para o hotel fazíamos amor, um amor lento, leve, despreocupado como a vida em Berlim. Pouco depois comecei a ir a Düsseldorf, e trocámos o café Einstein pelo Doctor Jazz. Sentávamo-nos nas escadas e só não nos amávamos ali porque não havia espaço para nos mexermos, sequer. Ela aninhava-se contra mim como se quisesse passar-me para o lado de dentro da pele, e eu apertava-a, bonita, magra e com uns olhos azuis muito abertos, parecia que estava sempre espantada; e eu um velho gordo, careca e reaccionário que lhe dava emprego como tradutora de alemão e de vida. O Doctor Jazz estava cheio a abarrotar, e aquela mistura de música, cerveja, olhos azuis muito grandes e um sentido de humor cortante como o frio que estava na rua enchia-me de força, de certezas e de futuros.

Uma vez fomos a uma discoteca e caí na pista de dança; ela caíu em cima de mim e expulsaram-nos aos dois, por causa daquele sorriso sardónico, exasperante, que não a largava nem quando estávamos os dois deitados no chão da pista de dança de uma discoteca em Düsseldorf e ela dizia "I am a virgin, I am a virgin".

Um dia disse-me "I was a Jungfrau, then" e foi-se embora. Estávamos num restaurante italiano de Frankfurt. Ainda hoje me persegue, como as personagens nos romances de Heinrich Böll, que andam no sentido oposto ao do tempo, e ainda hoje estou apaixonado por ela porque as minhas paixões não se substituem umas às outras, amontoam-se como roupa no chão numa noite de amor.