17.4.08

Diálogos possíveis

- Era uma rua tão estreita, tão estreita que nem uma gota de chuva lá cabia. E apesar disso foi por ela que me entraste no coração.
- A rua não deve ser assim tão estreita: não sou o único nesse coração.
- Não, não és. Amo o meu marido e não quero viver sem ti. De um lado há uma verdade, de outro uma meia-verdade. Em nenhum há mentira, que não suporto.
- Não sei se ele diria a mesma coisa.
- Poderia quando muito falar de uma mentira por omissão, o que não é o caso.
- Poupa-me os pormenores, por favor.


- Verdade, e meia-verdade: é mais do que a maioria das pessoas tem; e muito mais do que a esmagadora maioria dos amantes tem.
- Não chega, como justificação. Com o tempo verás.
- E quantas coisas conheces tu na vida que são justificáveis? O tempo explica tudo, talvez; mas não justifica nada. Nada, ou quase nada do que fazemos é justificável, se bem tudo tenha uma explicação. A vida é como é.
- A vida é o que nós queremos que ela seja [em parte, reconheço].
- A vida é o que é, e a nossa vontade tem muito pouco a ver com ela. Amo-te. Quero-te comigo e em mim. Quero-te sempre. E o mesmo acontece quando estou com o meu marido. Não penso sequer em ti.
- E eu não penso em ti, quando estás com ele. O que é melhor: o ciúme, ou a ausência de ciúme?
- Quero os dois.
- Queres tudo.
- Sim.

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