6.6.08

Harmonia

Envelhecia, e passava horas seguidas a olhar para animações de cartas de tempo, como esta:



Não porque quisesse saber onde, ou quando, iria chover ou fazer sol; há muito que os fenómenos atmosféricos o tinham deixado de interessar - passava os dias e as noites fechado em casa, a ouvir os poucos velhos discos de blues e de jazz que tinham sobrevivido às frequentes fúrias destrutivas, dele ou do tempo; nem porque gostasse de ver o movimento das cores, ou das linhas isóbaras - a estética era-lhe indiferente, sempre fora. Era daltónico das emoções, do gosto, dos sentimentos (ou da vida, simplesmente).

Apenas porque percebia uma indiscutível harmonia nos dias em que, como hoje, "tudo estava no seu lugar": o anticiclone dos Açores bem no centro do Atlântico norte, a depressão térmica sahariana a empurrar ar quente para o Mediterrâneo (a depressão ibérica ainda não estava lá, "mas pouco faltará, decerto"); as frentes cada vez mais a norte.

Sabia perfeitamente, há decénios, que nada "tem o seu lugar" - que não há sequer "lugares" para o que quer que seja; mas isso era-lhe totalmente indiferente. Harmonia.

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