11.8.08

Fragmentos possíveis

Sim, eu sei: é tarde, e tu estás em Nantes com o teu filho. Fugiste de uma tempestade, dizes-me, e esperas pela próxima. Aprecias a calma, o tempo, os gestos lentos impostos pelo bebé. Não te conheço, não sei de que tempestades falas - só conheço as minhas, que me enchem a vida e as noites, os dias e os futuros. Não gosto de escrever sem saber a quem, disse-te recentemente, numa dessas noites mortais de silêncio em que entre nós pouco mais passa do que o desejo, exarcebado pela distância, e a sede. "Apetece-me um grande whisky com muito gelo", disseste-me; e eu fui preparar um, que agora bebo enquanto oiço Frank Zappa rir-se de ti, de mim e da paz a que tanto aspiramos, como se nos conhecêssemos.

Já fui algumas vezes a Nantes, há muito tempo, de passagem: um avião para Marselha, o comboio para Genève, uma boleia para qualquer sítio. Pouco importa: é aí que estás, a fugir das tempestades, do desejo e do silêncio. Espero que estejas, ou fiques, bem. E que a próxima tempestade não chegue nunca - quando nos reencontrarmos gostaria de rever o sorriso doce e irónico que tantas vezes te vi em La Rochelle, o sorriso atrás do qual tentaste, generosamente, falar-me da paz - e com o qual só me falaste da vida.

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