6.1.09

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O comércio tradicional só tem duas maneiras de lutar contra as grandes superfícies, e são as mesmas em de Portugal aos Urais, do cabo Norte a Creta: uma é a proximidade - produtos de primeira urgência, horários de abertura alargados; a outra é o que não se encontra nas grandes superfícies: o chouriço de pequena produção, o vinho de derrière les fagots, os produtos artesanais.

Na área onde vivo há um vasto leque de lojas, algumas das quais já fizeram a reconversão; para a maior parte, contudo, o caminho vai ser longo.Todas as mercearias têm exactamente os mesmos produtos que os supermercados, mas nas gamas mais baixas, e com preços, naturalmente, elevadíssimos. Têm horários mais reduzidos - o que se compreende porque não podem pagar a empregados - e só sobrevivem por causa da lei das rendas.

Hoje contudo tive duas surpresas: uma é pouco relevante; a outra é de monta: entrei pela segunda vez na Charcutaria Moy, desta vez para ver com olhos de ver. Aquilo é patético: uma boa garrafeira de vinhos (nas gamas altas, naturalmente); uma excelente (enfim, excelente é um understatement) escolha de whiskies de malte; quanto ao resto, parece uma sucursal da Fauchon e da Petrossian.

Tem - aqui começam as surpresas - uma escolha fraca em variedade mas boa em qualidade de cervejas. Pergunto à senhora se tem Smithwicks, objectiva e indiscutivelmente (nalgumas coisas há que ser imparcial, objectivo e rigoroso) a melhor cerveja do mundo, como aliás já aqui expliquei. A senhora não conhecia essa marca de cerveja; depois perguntei-lhe se tinha café aromatizado com cardamoma, para fazer café turco. Queria especificamente moka, ou um arábica puro. Tinha moka, da Fauchon: 72 euros o quilo. Setenta e dois euros o quilo de café moka - nem sequer era Blue Mountain. Disse-lhe que achava caro, claro, e perguntei-lhe se tinham cardamoma em grão. Tinha. Da Fauchon. 8 euros o frasco de 50 gramas, ou coisa que o valha.

A ignorância paga-se sempre caro. Quando misturada com a pedantice paga-se a triplicar.

Pour la petite histoire: em Paris durante muito tempo ficava em casa de um amigo cuja avó comia caviar quase todas as noites. Um dia a senhora explicou-me que o comprava na Fauchon, porque aqueles estúpidos da mercearia das esquina não tinham (e era mais barato, evidentemente, do que na Petrossian). Era a única coisa que lá comprava. Tudo o resto vinha de chez les cons (verdade seja dita: ela tinha um feitio adorável. E enquanto os árabes da mercearia da esquina não tivessem caviar ela não descansaria).

Pour la petite histoire, 2: um dia o meu amigo descobriu, numa viagem a Moscovo, que lá podia comprar qualquer dos caviares em latas de 2 e 5 kg a preços de chuva em saldo. O problema era passá-las na Alfãndega do aeroporto. Mas isso é outra história, e fica para depois.

2 comentários:

  1. Pois eu gostei bastante dessa lojinha Moy, Luís, de que não explorei a garrafeira, mas onde descobri uns chás verdes muito agradáveis. Será que sou uma dessas detestáveis personalidades muito «Moët & Chandon» (e reconhecidamente «moîte» no Verão)? ;-)
    P.S.: E fico à espera da história do «contrabando» dos caviares.

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  2. Luisa, vamos por partes, como de costume. Pode ser?

    A Charcutaria Moy não vende produtos. Vende marcas. Nos casos em que a marca e o produto são a mesma coisa, é excelente. Nos outros, não.

    Um guru do marketing cujo nome esqueci, infelizmente dizia que "marca é informação: sobre o produto, sobre o consumidor, deste para os outros e, sobretudo, deste para si próprio". Uma marca fornece ao consumidor informação sobre si próprio.

    Não fornece chá (ou qualquer outro produto). Faça uma experiência, se um dia tiver tempo e paciência: vá a Cascais à Casa da Guia. No primeiro andar vire à direita e vá a uma loja de chá chamada Companhia do Chá.

    Idealmente estaria lá o proprietário, um senhor cujo apelido esqueci mas cujo primeiro nome é João. Compre-lhe chá, e vai ver o que quero dizer.

    A Companhia do Chá é uma das melhores casas de chá que conheço porque vende um produto, não vende informação. Conhecem esse produto, amam-no (o que não é despiciendo) e - melhor ainda - partilham esse conhecimento consigo. Ou seja: afinal, vende informação - mas, quanto a mim, a única que conta: sobre o produto. Fazem-no com entusiasmo e profissionalismo (isto não é publicidade à Companhia do Chá; é para comparar com a atitude da senhora que me atendeu na Moy - admitidamente, talvez a colega que naquele dia estava ausente soubesse um bocadinho mais dos produtos que está a vender).

    A história do contrabando de caviar fica para depois :-).

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.