10.7.09

Cenas da vida quotidiana

Sei que a senhora se chama Maria do Céu (ou Céu, tout court), e é de Valpaços - ela disse-o várias vezes. Sei também que é pequena, e que deve ter pouco menos de 70 anos, porque estou a vê-la. Coxeia, agarrada a uma muleta; é a custo que sobe para o autocarro que apanho para o escritório quando a bicicleta resolve lembrar-me quão barata foi.

O autocarro - um daqueles pequenos veículos com os quais a Carris treina os seus condutores para a Fórmula 1 (ou para o Paris - Dakar, dado o estado das ruas pelas quais os senhores evoluem a velocidades alucinantes) poderia ser muito mais do que um meio de transporte. É um verdadeiro laboratório social - a média de idades dos passageiros deve andar à volta dos 65 anos, e o estrato social pelos D - E.

Maria do Céu interrompeu a conversa de outros passageiros para contar a sua história: exploravam a habitual teoria xenófoba do perigo que os estrangeiros representam. Passo os argumentos, são conhecidos. Céu interrompeu-os com um "eu tenho estado aqui caladinha, mas estou a ouvi-los" que deu o tom. E continuou com uma história que mais ou menos resumida (enfim, muito resumida) dá isto:

Maria do Céu foi operada à perna direita, recentemente. E andava ainda de canadianas e com um aparelho exterior - "seis parafusos" - quando foi assaltada na rua depois de ter ido ao Multibanco. "Portugueses, eram Portugueses" - a ligação à conversa dos outros passageiros estava feita. "Pois bem", continua, "eram três: dois à minha frente e um um bocadinho mais afastado". Olha para a assistência, que começa a estar cansada com a quantidade de pormenores - o meu relato está mais do que reduzido: está amputado. "E o que é que a Céu fez?" - A pergunta retórica fez renascer o interesse; "pois dei-lhe um pontapé entre as pernas e com a canadiana parti-lhe a cabeça". O decréscimo de tensão na assistência é palpável; está pronta para o remate: "A Céu ficou com o dinheiro e o bandido foi para o Hospital".

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