19.10.09

A Quida e o Môr

Ele chama-lhe Quida e ela a ele Môr, o que em si mesmo pouco mais seria do que muito ligeiramente irritante. Além de que ela tem os seios pujantes e em grande parte à vista, o que amenizaria qualquer irritação, por muito grande que fosse. Mas o Môr está com uma horrível constipação e funga repetida, esforçadamente - também se assoa, devo dizer, ruidosamente. Aliás tem um certo ritmo: uma frase (curta), uma fungadela, uma frase, um assôo, uma frase, uma fungadela e assim por diante. Isto já é muito mais irritante - tanto mais que estamos os três (em mesas diferentes) na minúscula sala de um restaurante (passe o exagero, ou generosidade) indiano que há muito tempo queria conhecer; e não há seios pujantes que compensem.

O restaurante é medíocre, mas tem uma vantagem: a comida é picante.

A certa altura penso em dizer qualquer coisa ao Môr, uma observação ligeira, discreta, do género "quer um lenço?". Não funcionaria, porque o Môr tem, visivelmente, lenços; e porque cada um dos braços dele é mais largo do que uma das minhas coxas; a testa mais estreita do que um dos meus dedos mindinhos; deve gastar mais em ginásios e em esteróides anabolizantes num dia do que eu em cerveja num mês; ainda lhe faltam quase trinta anos para chegar à minha idade; e é segurança numa discoteca - não sei qual, mas deve ser uma das mais seguras de Lisboa, desde que não sejamos nós o alvo da "segurança", claro. Ou seja: ele recusaria decerto a minha amigável sugestão e se se ofendesse eu não duraria trinta segundos nas mãos dele.

Quando uma pessoa está em casa triste e a chorar sem saber porquê (ou sabendo, mas sem querer dizer) ir a um restaurante indiano no qual a comida é picante revela-se uma das melhores soluções. Espalhamos o bom humor: os empregados riem porque pensam que estamos a chorar por termos presumido da nossa resistência quando respondemos "muito picante"; os outros clientes pensam (enfim, não é o caso da Quida e do Môr) a mesma coisa e trocam sorrisos entendidos; e nós próprios percebemos, finalmente, que estávamos a chorar por antecipação, apenas.

A Quida tem uma visão do mundo que lhe é, visivelmente, dada pelas "revistas", que ela cita continuamente, assim mesmo em termos genéricos: "li nas revistas, vi nas revistas, estava nas revistas". De um mundo, entenda-se, bastante fulanizado ou sicranizado. Não retenho os nomes (tenho que escrever isto) mas ela sabe quem se casou e quando, com quem e quando morreu (a taxa de mortalidade dos "revistáveis" deve ser elevada). O Môr, em contrapartida, sabe tudo sobre os movimentos de fusão, aquisição e falências da noite lisboeta.

Quando me venho embora estão a pedir palitos. "Para os dentes", acrescentam quase em uníssono; com estes indianos nunca se sabe.

Sinto uma enorme ternura por eles. Ternura? Não: inveja.

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