5.5.10

Ana Maria (cont. e fim)

À medida que envelhecemos vamos reconstruindo o passado; ou ele refaz-se sozinho, sem a nossa ajuda. Lucas não conseguiu manter o seu posto na árvore muito tempo. Um dia o polícia do quarteirão teve pena dele e tentou impedi-lo de subir; considerou aquilo uma intolerável ofensa às suas liberdades de expressão e movimentos e acabou, ele que era o mais doce, simpático e prestável dos homens, na esquadra; de onde transitou directamente para o hospital psiquiátrico da nossa cidade.

Fiquei chocado quando Ana Maria me disse que aproveitava as exaltadas (e elevadas) declarações de amor do marido para o enganar; só mais tarde percebi o enorme amor que ela tinha por ele. Pedro - os "Pedros" todos: João, António, Manuel, Paulo, Ricardo - não eram para ela mais do que uma breve mistura de "pau e pelo", condenados sem o saber a serem postos na rua ao fim da segunda tarde ("A primeira vez nunca é a melhor, por isso os guardo duas vezes. Três em casos excepcionais"). Ana Maria amava Lucas, mas sabia que pouco podia fazer por ele, se não levar-lhe comida e tentar adiar o inevitável.

Fizemos amor pela primeira vez pouco tempo depois do internamento: tínhamos combinado ir jantar a um restaurante árabe na Feira do Livro. Não chegámos sequer a ir: quando a fui buscar a casa ela convidou-me para entrar. Não sei quem começou: sei que mal passei a porta a tinha nos braços. Poucas semanas depois tinha-a na pele, no corpo todo, na mente, na vida. Amava-a desesperadamente, pois sabia que em breve seria posto, eu também, "na rua". Como se ela fosse uma casa, um albergue, uma pensão.

Não fui. Seis meses depois vendemos as nossas casas e comprámos uma a meias. Exigência dela: qualquer um de nós poderia ter mantido a que tinha e comprado outra, mas Ana Maria não queria "mais uma árvore na qual se pudesse refugiar. Temos que saber que se nos separarmos vai ser duro, difícil, doloroso, horrível, penoso" disse-me.

O que mulher quer Deus quer, dizem os franceses, que sabem do que falam. Vivemos juntos há 15 anos. Às vezes acordo de manhã com Ana Maria a fazer-me uma felação; vejo-lhe os cabelos, espalhados pelo meu ventre, o corpo ajoelhado, os seios fartos e bonitos encostados aos joelhos. Parece uma gata. Tem quase cinquenta anos e continua a mulher mais bonita por quem me apaixonei.

Quando acaba anicha-se em mim, os dedos fincados na minha pele. Hoje disse-me "Lucas gostava mais disto do que de foder. Eu não; mas não me importo de o fazer. Ainda bem que tu também gostas, não é?".