11.12.10

Reedição - Culpas

Culpa - III

"Não te fiz amor. Desculpa. A última vez que mo pediste dançavas em cima de uma mesa, na festa mais alucinante que jamais dei. Eras branca, inteligente, eras um desafio e eu não queria senão a facilidade, o efémero. Há muito que tínhamos perdido o medo das granadas; lá fora, uma dúzia de soldados totalmente bêbados dormia, as kalashes entre as pernas, a apontar para o ar. Não eras muito bonita, repara, mas eras atraente: o teu charme era o olhar, era a dança no tampo da mesa, era o grito mudo que me dizia vem vem vem. Não fui. Hoje não sei se fiz bem. Pouco interessa. Já não interessa. Mas não consigo, repara, após todos estes anos, esquecer-te. Não quis fazer amor contigo porque sabia que a seguir ao amor viria uma amizade, e atrás da amizade um amor e atrás do amor um inevitável adeus.

Há muito que não acredito nas virtudes mágicas do coito, há muito que não acredito numa vida para lá do sexo, há muito que não acredito numa vida para cá do sexo. Nessa altura acreditava em tudo isso. E só pensava em evitá-lo."


Culpa - II

"Não me lembro do teu nome. Desculpa. Hoje, sabes, ainda hoje lamento não te ter amado. Tu merecias: fizeste-me as melhores felações da minha vida, fizeste-me o melhor amor da minha vida, fizeste-me o melhor sorriso da minha vida, e se calhar, não me lembro, o melhor jantar também. Lembro-me, repara, perfeitamente de ti: pequena, negra como um dia sem amanhã, bonita e ágil, inteligente e viva, viva, fresca e ligeira. Lembro-me da culpa que senti quando não te fui buscar a casa como te prometera, e lembro-me de ter sentido que tu interpretarias isso como o que de facto foi. Lembro-me de me ter sentido cobarde, coisa que não sou: sou um urso, sabes?, um grande e desajeitado urso culpado, um urso no verdadeiro sentido do termo. Tu não: eras pequena e ágil e enrolavas-te à minha volta como uma gazela à volta do medo, e eu, urso que era e sou, não me apaixonei por ti perdidamente, não te pedi em casamento, não te ofereci todas as flores do mundo, porque nessa altura eu tinha a mania que era monógamo e que fazer-te amor não era fazer amor, era outra coisa, cujo objectivo era só fazer de mim culpado e fazer de mim um urso, que era o que sou. Uma vez, lembras-te, levei-te a um restaurante bom, na cidade em guerra. Tinhas lá ido muitas vezes, com o teu antigo namorado, um alemão que fugira - o teu termo é "que se foi embora" - quando a guerra começara. Mas tu estavas alegre e fresca e contente como se fosse a primeira vez que foras àquele restaurante, de onde se via a cidade toda, mas não se via a guerra - se bem que tivéssemos de passar por ela para lá ir, e eu vi que estavas com medo, por causa do teu nariz achatado e dos teus lábios grossos mas depois passámos a área perigosa e tu respiraste outra vez, e riste com o melhor riso da minha vida, e a cidade estava em baixo, com poucas luzes mas cheia de ti. Não me lembro do jantar, mas lembro-me de ti e da culpa que sinto por não me ter apaixonado por ti."


Culpa

"Se eu quisesse, enchia-me de culpa. Ainda mais culpa, isto é. Se eu quisesse, seria um saco de culpa, um contentor de culpa, um deus de culpa. Já o sou, sem querer... Imagina se quisesse. Nem tu me demoverias, tu que tens sempre razão, sempre. Nunca vi ninguém com menos torts que toi. Tu as toujours raison. C'est invraisemblable: l'on dirait qu'avoir raison fut fait pour toi, pour toi seule. Et avoir tort, naturellement, pour moi. Que beleza, tanta simetria: tu tens sempre razão, eu nunca, nunca. Não é força de expressão, é uma descrição lhana da coisa: tu tens sempre razão, eu nunca. Não me saiu na rifa, que queres, não ganhei razão na lotaria, não a aprendi na escola, não a obtive no guichet da assistência social, não ma deram de bónus nos milhares de empregos por onde passei até hoje. Por isso me posso encher de culpa tão facilmente, ao contrário de ti ..."

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