29.1.11

Febre

A primeira vez que ouvi esta canção foi numa draga de sucção holandesa na Ria de Aveiro; era o quarto da noite (trabalhávamos 12 horas por dia, das 7 às 7, alternando semanalmente os quartos de noite e de dia). Deviam ser uma ou duas da manhã, e eu estava com o chefe de máquinas na messe. Não sei se imaginam o que é uma messe numa draga: um espaço de 12 m2 com um sofá, uma mesa e um fogão onde mal se podia aquecer café e no qual um dos tripulantes fazia os melhores nasi goreng e bami goreng que jamais comi. E não sei se imaginam o que é uma noite numa draga de sucção: uma embarcação que oscila em torno de dois eixos, e que vai avançando como se andasse com muletas, que vibra e oscila e faz um barulho infernal cada vez que a porta da messe se abre. Cinco mil cavalos (era uma draga pequena) a aspirar uma mistura de água e areia por uma extremidade, e a expulsá-los pela outra.

Aquela noite estava excepcionalmente calma - às vezes trabalhávamos as doze horas seguidas, para tirar a porcaria que cobre o fundo de um porto de pesca e entupia a boca de dragagem. E não havia nasi goreng - só o chefe de máquinas e eu, o eterno café e, de repente, vinda do nada, a voz de Peggy Lee a cantar Fever. Fiquei siderado, paralisado. O chefe de máquinas, com quem eu me dava extraordinariamente bem apercebeu-se e perguntou-me "É a Peggy Lee. Não conhecias?" "Nem a cantora nem a canção", respondi quando finalmente consegui dizer qualquer coisa.

Foi há muito tempo. Foi ontem.



Pouco tempo depois comprei dois ou três LP da cantora, e ouvia coisas assim:



Mas nenhuma, nunca, chega aos calcanhares de Fever.

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