17.2.11

Breve e parcial autobiografia administrativa

Hoje estava a pensar nas minhas experiências com a burocracia portuguesa (experiências profissionais). Deu isto:

1986 - AQUARELLE – Multa por fazer charter sem licença. Mais do que justificada.
(Adenda: a multa foi anulada, e safei-me com a obrigação de tirar os posters que tinha feito para publicitar o day charter. Porquê? Porque na Capitania estava um polícia marítimo que conhecia o meu Pai. Tinha lá sido colocado porque estava implicado naquele gangue de polícias / traficantes de droga de Aveiro, e a Polícia Marítima não podia despedi-lo ante de ser julgado. Foi enviado para Ponta Delgada para esperar pelo julgamento. Depois foi preso, coitado de mim.) 

1987 - INDOMÁVEL – 18 meses à espera da subvenção do turismo dos Açores (prazo previsto: 3 meses); 6 meses à espera da licença de charter.
(Adenda: passo alguns pormenores sobre episódios caricato-lamentáveis, um dos quais me obrigou a meter-me num avião para vir explicar ao então DG do Pessoal do Mar - que decerto por causa disso foi evoluindo na carreira até chegar a IPTM - que não era por ter três camarotes que o INDOMÁVEL podia ter três tripulantes. Se assim fosse, os passageiros teriam de dormir no convés, coitados.) 


1988 - DON VIVO – Arrestado 4 meses na marina de Vilamoura, devido à falta de reconhecimento numa assinatura. A embarcação era francesa, o armador francês, e a Polícia Marítima portuguesa não tinha, quanto a mim, autoridade para arrestar a embarcação por esse motivo.

1989 - “SCARLETT” – 2 anos (dois anos) à espera de uma licença de charter, devido à “falta de um certificado de estabilidade dinâmica”. Não se obteve a licença. A embarcação era construída de série, foi um dos grandes sucessos do estaleiro Fontaine Pajot, havia centenas a navegar, e se as autoridades francesas tinham julgado que a estabilidadade dinãmica da embarcação era suficiente, as autoridades portuguesas poderiam fazer o mesmo.

Por outro lado, houve um pedido de suborno claro e explícito da parte do então IGN ao qual não acedi - verbatim: “O BMW da minha mulher está avariado e não tem reparação. Preciso de um novo” "Um BMW avariado? Que curioso! Eu ando de Fiat e nunca tive nenhuma avaria", ceci expliquant peut-être cela. (O senhor tinha dado um passo grande; às outras empresas pedia queijos e peças de bronze).

Multa de 250 contos por charter sem licença.

1990 - “--------” (Não me lembro do nome. Era um monstro alemão de 50 toneladas de deslocamento para 16 metros de comprimento f-a-f. Vinte anos de navegações constantes. Olhava-se para aquilo e tinha-se pena do ciclone que o encontrasse no caminho) - 2 anos à espera de uma licença de charter. Era preciso uma vistoria, e não se podia fazer uma vistoria sem os planos de construção de uma embarcação. Note-se que obtivemos os planos, mas não eram os planos de construção. Em nenhuma parte do mundo civilizado se pedem os planos de construção a priori. Pedem-se se alguma coisa parecer mal ou suscitar dúvidas.

Pedi que o IGN fizesse uma licença temporária para navegação no Tejo no Verão, enquanto esperávamos a licença definitiva. Foi recusada. Ao fim de dois anos os alemães foram-se embora.

2002 - “ZONACAT” – 3 anos à espera de uma licença de charter. As razões foram o mais variado e disparatado possível (um inspector do IPTM quis obrigar-me a condenar vigias de emergência, por exemplo). Na altura era frequente os inspectores do IPTM terem empresas a quem nos aconselhavam a pedir o registo das embarcações. Caso esse “conselho” não fosse seguido, os prazos dilatavam-se de uma forma inconcebível.

O caso do ZONACAT foi tão disparatado, tão insensato, que uns anos mais tarde pedi para consultar o processo no IPTM. Tinha “desaparecido”. Seria talvez interessante ver se esse desaparecimento se mantem.

Omito a partir daqui porque os prazos começam a ser "razoáveis": meros meses. Faltam duas coisas: por um lado os erros de gestão que fiz ao longo destes anos. Foram muitos, e foi um só: ter continuado. Devia ter aprendido e não aprendi. Ainda não aprendi.

A outra é... a outra que se lixe. Gostaria que isto mudasse, ponto final parágrafo.

2 comentários:

  1. "Gostaria que isto mudasse, ponto final parágrafo"


    pergunto: já fez alguma coisa paera mudar alguma coisa ou está a espera que a mudança caia do céu?
    Se está, sente-se, é melhor.

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  2. Cara Helena Soares,

    A lista das coisas que eu já fiz para tentar mudar deve ser tão grande como a do post.

    No preciso momento em que lhe escrevo estou a fazer um paper para o Turismo de Portugal (TdeP).

    Aqui vai um esboço muito rápido e que se pecar peca por defeito.

    - Integrei a equipe que ajudou a definir os vectores de desenvolvimento do PENT (Plano Estratégico Nacional para o Turismo).
    Nota: paguei 600 euros do meu bolso para ir a uma das reuniões. O TdeP ainda não conseguiu, coitado, encontrar essa verba para me reembolsar;

    - Propus, já por váras vezes - pelo menos 3 - ao TdeP ir fazer uma formação rápida em evntos náuticos e turismo náutico. De todas as vezes a proposta foi acolhida com entusiasmo - nunca aconteceu;

    - Fiz uma palestra na SGL e uma intervenção no Congresso Mares da Lusofonia, ambas sobre o tema do Turismo Náutico, com propostas e ideias concretas.

    - Com o que estou a fazer hoje já devo ir no 5º ou 6º paper que envio, sem qualquer remuneração, ao TdeP com ideias, propostas, descrições.

    Os franceses t~em uma expressão muito engraçada para designar o resultado disto tudo: "c'est comme pisser dans un violon".

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.