17.5.11

Livro de bordos - 24 (notas)

Há coisas, lugares e pessoas assim: um gajo adora-os antes de os conhecer verdadeiramente; e quando os conhece verdadeiramente ainda gosta mais deles. Aconteceu-me com Bequia: apaixonei-me a primeira vez que cá vim. Hoje, quase a vigésima, resolvi ir dar um passeio pela ilha, com os passageiros. É raro fazer isto porque me aborreço em terra e, regra geral, com os passageiros ainda mais; mas hoje é a última vez que virei a Bequia em meses (enfim, possivelmente) e achei que devia, de uma vez por todas, elucidar de onde vem esta paixão.

A ilha é bonita, e a vista de Admiralty Bay do forte comprova simplesmente que a baía é um longo útero. Quando cá chegamos, nós, marinheiros, homens habituados a ouvir coisas que ninguém disse e a ver outras que ninguém fez ficamos, simples e inelutavelmente, prisioneiros da magia. Depois passamos imenso tempo a tentar descobrir porque nos apaixonámos por estes 18km2 de ilha, mas isso é irrelevante: já estamos presos, e não queremos deixar de o estar.

O táxi trouxe-nos a uma das praias do lado Sul da baía (Lower Bay, para os fans do Google Terra). A praia está deserta; os passageiros tomam banho e eu bebo cerveja e oiço reggae no bar onde decidimos almoçar. Está calor, vento, sol; a empregada do bar é uma senhora escultural, de Trinidade, onde espero ir para o mês. A música é boa e a cerveja local - Hairun, "St. Vincent's Prize winning lager" - fresca e leve, como uma ou duas jovens senhoras que conheci ao longo destes anos todos; ou uma por quem me apaixonei.

Estou contente por não ter uma máquina fotográfica: olho para cada milímetro de paisagem com a sofreguidão do amante que sabe que em breve será esquecido, ou trocado por outro.

Estou a viver aquilo que pensava que iria viver, quando para aqui vim. Quase: nunca pensei ter que trabalhar tanto na Switch; e nunca pensei que seria tão bom, apesar de ser na Switch. Esta é a minha última semana; depois espera-me um bordo a norte, mais um, e o começo da partida para Sul num Athena 38 no qual vou navegar os próximos meses, entre a Martinique e a Guiana Francesa.

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