22.12.11

Diário de bordos - 221211

O AVOCET tem com a bolina e a velocidade a relação que eu tenho com os cem metros barreiras: sabemos que existe, temos imensa admiração e respeito pelos senhores e senhoras que praticam a modalidade, mas não é para nós, obrigado. Verdade seja dita que com o peso e o guarda-roupa que tem já muito faz ele. 

(A maioria dos navegadores que conheço pensa que há um compromisso entre o conforto de uma embarcação e a sua velocidade. Não há: o maior conforto de um barco é ser veloz. Não incluo na equação as máquinas de regata, claro - seria preciso criar uma categoria diferente.)

É um plano Van de Stadt de 1971. É um barco bonito - quase todos os Van de Stadt o são - e poderia ser rápido - idem. Mas tem um mastro "Cape Town" (um metro mais curto do que o normal), as velas são de antes da invenção das velas e - como todos os barcos que servem de casa, sem excepção - tem toneladas de coisas em tudo quanto é sítio. Uma casa acumula tralha ao longo dos anos, é sabido. Um barco acumula dez vezes mais, num espaço dez vezes menor. A diferença é que numa casa esquecemo-nos do que temos, e num barco não: o dono sabe exactamente o que tem, onde e de que caixote do lixo o recuperou. Junte-se a este cocktail um vento fraquíssimo e o resultado é 40' num dia. 

O AQUARELLE tinha três velocidades: 1, 2 e 3 nós; o AVOCET, que é do mesmo clan mas um bocadinho maior, tem 4: 1,2,3 e 4 nós.

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Ainda é muito cedo para contar a história, tanto mais que ainda não acabou. Estamos na marina de Rivière Sense, em Basseterre, Guadaloupe, onde cheguei rebocado por uma vedeta do SNSM (o equivalente francês dos nossos Socorros a Náufragos). Foi a primeira vez na vida - e espero que seja a última - que chamei um reboque para entrar num porto por causa de uma avaria. Mais do que justificá-lo, creio que as condições o exigiam: o vau de bombordo (sotavento) no convés, o de estibordo pronto a seguir-lhe o caminho [estava seguro por um centímetro de aço, numa circunferência de 15]. 

Passámos, a Lena e eu, quatro horas num semi-rígido que mete água mais depressa do que se consegue tirar e perde ar mais depressa do que se consegue encher. Um motor de 15 cavalos, e, num saco de plástico metido dentro de outro, o telefone - o VHF do AVOCET não funciona -, um pacote de bolachas e uma garrafa de água. Quatro horas a rebocar uma embarcação que deve fazer pelo menos 12 toneladas, com um mar felizmente não muito mau mas tão pouco chão. Tirávamos a água com um balde, constantemente; assim que o nível baixava enchíamos os flutuadores (encher é um exagero - púnhamos-lhes ar, o que podíamos); nos intervalos tentávamos manter um rumo mais ou menos direito. Estávamos a vinte e tal milhas da costa e o objectivo era chegar a uma distância com rede para o telefone antes de a gasolina acabar. Conseguimos cerca de meia-hora antes. Falar com o proprietário, acertar os pormenores, chamar a SNSM, descobrir que os serviços são pagos [oh quanto!], pensar nas inúmeras discussões de bistrot em que defendíamos que o deviam ser; e continuar o reboque, até a bateria do telefone se esgotar (já estava fraquinha no princípio) e a gasolina no tanque idem [boa decisão, os serviços da SNSM são pagos à hora e assim poupámos quase uma). 

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O AVOCET é uma magnífica embarcação, um plano Van de Stadt (já por aqui o devo ter dito) antigo. Não sou grande fã de quilhas corridas, poços centrais, velas grandes minúsculas e genoas a 170%, mas a verdade é que um grande desenho. Infelizmente, sofre com a habitual combinação de falta de massa e viver a bordo - neste caso, em família, o que não ajuda: se numa casa a tralha se acumula sem que saibamos porquê, a bordo sabemos: chama-se o síndroma do "pode-vir-a-ser-útil". É um síndroma que ataca todos os navegadores, sem excepção. Uns mais, outros menos, mas todos o portam. Quanto menos massa se tem mais dele se sofre; se à falta dela se junta o facto de viver a bordo temos a sopa feita e entornada. Assim por alto deve haver uma tonelada de material dispensável acumulado numa total desordem nos diferentes paióis e arrumações. Tudo: ferramentas, utensílios eléctricos (o barco tem um inversor), peças desconchavadas, bombas novas, bombas velhas, dois dinghies - o semi-rígido de que acabo de falar e um coco rígido, sem motor -, uma prancha de windsurf, porcas, parafusos, mosquetões, mais ferramentas, sacos de duche, material para fibrar, material para pintar, ferragens de toda a forma e feitio, cabos das mais diversas bitolas, três ferros - todos eles pesados de mais - jerrycans de gasolina, de água, de gasóleo, mais ferramentas diversas e mais de tudo isto. Tudo a triplicar, quadriplicar - o que não signica que tudo funcione. Há três alicates de pressão, mas todos eles enferrujados; não sei quantas chaves de fendas, mas só uma pequena fracção delas em estado de ser utilizada normalmente; duas caixas com pirotécnicos - mas os de uma delas expiraram em 2009 (e quando perguntei ao Ph. se os podia deitar fora - são perigosíssimos, os pirotécnico fora de data) disse que não. Tudo isto mais velas , molinetes, escotas, "electrónica" (não resisto às aspas, apesar de estar um pouco nas tintas para a dita), mordedores - não há um único a bordo - adriças de outro tempo (por acaso aquele em que comecei a navegar em cruzeiros, pelo que nada disto é uma novidade). Mas imagino o espanto de um miúdo habituado a uma embarcação moderna. O problema é que a manutenção é feita com cordéis, normalmente; e dos mais baratos - se alguma coisa correr mal encontra-se sempre uma solução. Neste caso o que correu mal foram os vaus, que estavam - descobri agora - a partir-se há muito tempo, sendo que a "solução" era ir fazendo marcas para medir a progressão das rachas. O de bombordo foi-se por 15 nós de vento. Às três e meia da manhã estava a Lena de quarto; chamou-me: "o pau de spi despeou-se". Quando saí continuou "não é o pau de spi, é outra coisa qualquer". Era o vau. Pouco havia a fazer: era o vau de sotavento, estávamos a avançar bem, o de barlavento parecia em ordem, de modo fiz pouco: amarrei o brandal para não andar a balançar-se dum lado para o outro, fiz o mesmo ao vau no convés, mas não voltei a deitar-me. 

Às cinco e meia o vento caiu um pouco e fui lá acima, apesar de ainda não ser dia. Dava para ver que o vau não era reparável (ainda tive a esperança de que se tivesse simplesmente desencaixado) e - pior - tacteei o de estibordo e vi que estava a pouco de cá vir parar abaixo. Arreei o pano todo, claro - a vela grande estava toda rasgada - e comecei a pensar no que fazer. Continuar estava fora de questão - pouco mais e teria o mastro no convés; fazer a reparação no mar - no estado de fadiga em que tenho andado parecia-me irresponsável. Uma queda seria mais do que provável, e para além de me magoar a Lena não saberia o que fazer; ir dormir e tomar uma decisão quando estivesse menos canssado - uma excelente solução, mais frequentemente do que se pensa - aborrecia-me porque a deriva nos afastava do caminho [depois vim a saber que derivámos pouquíssimo] e porque não descortinava solução a bordo em tempo útil: ou o vento caía muito, o que a meteorologia não previa, ou teria de passar um bom par de horas, ou vários, pendurado no mastro - perspectiva essa que não me atraía de todo. 

Ou seja: precisava de um reboque. Nunca pedi um, apesar de já ter estado várias vezes em embarcações - e até um navio - que o pediram. É uma coisa que me repugna, tal como regressar ao porto que se acaba de deixar, ou rizar porque "pode vir mau tempo" (riza-se quando o mau tempo chega, não antes). E para pedir um reboque ou esperava que passasse um navio e utilizava os pirotécnicos que estavam o prazo ou utilizava o telefone. Estávamos a 26 milhas da costa. Pouco mais e teríamos rede. Por isso passei quatro horas dentro de um dinghy a cair de podre. A SNSM chegou duas ou três horas depois - o tempo de descansar um bocadinho e pôr ordem no bote. O mestre fez uma manobra de atracção comigo de braço dado que me vai ficar na memória. E cobrou um montante que calo, por vergonha. O senhor que me respondeu ao telefone "não sabia" o custo. Se soubesse talvez não os tivesse chamado e fosse dormir. Não sei. 

Não sei funcionar com se, infelizmente. Talvez os tivesse chamado. Felizmente os franceses são franceses e, por muitos defeitos que tenham têm também algumas qualidades, para além do queijo, do vinho, da Marguerite Duras, le Clézio, Camus, Jacques Brel (que por acaso era belga, mas pouco importa), Serge Gainsbourg, Cognac (prefiro Armagnac, mas não quero dar a impressão de ser pedante), Pineau des Charentes, Yves Montand, Raymond Aron (deixo o melhor para o fim) e muitas outras coisas; e lá consegui chegar a um acordo quanto ao pagamento [hoje enviaram-me um mail a dizer que se "tinham enganado" e afinal a factura era 25% inferior à que me deram inicialmente]. 

......
Saímos de Basseterre dia 20 às 17h30, areboque da mesma lancha do SNSM. Chegámos a Falmouth às 09h30 do dia seguinte - e podíamos ter chagdo ante, se eu não tivesse tido um daqueles esquecimentos em que sou mestre. A média absoluta é de 4,71 nós, mas na realidade viemos em permanência a 6 /7. Parafraseando uma das minhas frases favoritas, "this boat can move, given the right stimulus". O estímulo certo, neste caso, são 25 a 28 nós pelo través (enfim, um bocadinho por ante-a-vante do dito, mas não vamos agora picuinhar).

Os vaus aguentaram, e a vela grande também. esta última não sei por que milagre.

Algumas fotos do iPhone, mais ou menos completamente desordenadas:


Ao fundo, meio escondida pode ver-se a lancha da SNSM.

A marina de Rivière Sens.

A reparação do vau de bombordo começou cá em baixo.

Fica sempre inquietante, um mastro sem um vau.
Peixaria no campo.

Pai em St. George's Town, Grenada

Whisper Cove Marina, Woburn Bay, Grenada

O nosso dinghy após um dia no porto. Antes também estava assim.

Ainda não está tudo. Aguentou quase 30 nós de vento e várias viragens de bordo.
Pai nas alturas.


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