2.5.12

Manguitos e desespero

Claro que a tentação é dizer que a burguesia portuguesa será sempre portuguesa (pelo menos aqueles que não emigrarem e mudarem de nacionalidade) e burguesia, e que a simples vista de um pobre a beneficiar de qualquer coisa a horripila - isto, claro, assumindo que só os pobres foram ontem aos Pingo Doce, coisa na qual de todo não acredito.

Ajudar os pobres sim - agora terem eles a iniciativa, tira o cavalo da chuva. Aquela gente pura e simplesmente não tem maneiras e mal se apanha à solta é o que se vê.  Uns selvagens sem qualquer espécie de dignidade humana. Deviam era ficar quietinhos em casa ou nos lares ou nos centros de acolhimento e nós, aquela parte da burguesia que tem coração levar-lhes-emos toda a ajuda de que necessitam. Desde que, claro, tomem banho se lavem e aprendam a dizer por favor e obrigado. Há uma excelente crónica de António Lobo Antunes, chamada se bem me lembro "Os nossos pobres" que fala disso magistralmente.

A tentação é tanto maior quanto nem sequer é totalmente mentira.

Mas também não é totalmente verdade. Aquilo que realmente enfureceu a esquerda ontem - um dia que quase mereceria o epíteto de Segundo primeiro de Maio - foi uma coisa que eu conheço bem e é, de certa forma, compreensível.

A maior causa de traumatismos psicológicos na ajuda humanitária não são o horror, a violência, ou uma razão dessas facilmente identificável, intuitiva. É o trabalho humanitário ser muitas vezes dificultado, ou impedido, pelas autoridades dos países onde trabalhamos (enfim, os meus anos de ajuda humanitária já lá vão, graças a Deus). Um gajo querer ajudar uma coluna de, por exemplo, congoleses e serem as próprias autoridades congoleses a porem-nos dificuldades atrás de dificuldades; ou, e, a abotoarem-se com, como por exemplo em Kindu, 10% de todo o valor da ajuda.

É isso que provoca (pelo menos quando eu lá andava) a maioria dos pedidos de apoio psicológico (isto é um facto, e a fonte é uma publicação do UNHCR que li nessa altura).

Ontem a esquerda viu-se numa situação semelhante, mas pior: o povo que ela quer, coitado, ajudar, o povo que ela defende encarniçadamente (é caso para o dizer) fez-lhe um manguito muito grande e tratou da sua vida. E isso é deseperante, insuportável, doloroso.

Donde os ataques, insultos e lamentos de que foi vítima.

1 comentário:

  1. Excelente post.
    Excelente analogia - a dos congoleses.

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.