26.10.12

Simples

Tudo começou por causa do vinho tinto, um vinho bom, muito bom e simples. Cada garrafa custa dois euros e sessenta e cinco cêntimos, na loja do mercado onde compro as sobreasadas (e hoje comprei também um chouriço, excelente). É o senhor, ou ele e outros quem faz os enchidos, bons, simples; hoje vi que tinha vinho e resolvi comprar (dois euros e sessenta e cinco cêntimos é o triplo do preço do vinho mais barato do supermercado, mas a verdade é que para beber nunca comprei nada, excepto Cava, claro, a menos de três euros, portanto pensei na minha cabeça em voz baixa "estás a poupar 35 cêntimos e se o vinho for uma merda sempre servirá para a cozinha, não pode ser pior do que o que compras a um euro e meio no supermercado).

Mas o vinho não era uma merda, muito antes bem pelo contrário, é um vinho porreiro, bom, leve, fresco, simples. O ataque é melhor do que a saída, vigoroso, o que é frequente nestes vinhos; e o vinho é vinho, vinho só, simples, bom, o que é menos frequente.

De maneira passei o dia a pensar (acontece raramente, pensar; já as cacofonias são mais frequentes) na simplicidade. Fui cortar o cabelo ainda a pensar na simplicidade, à Peluqeria Bualde, a qual fica mesmo atrás de nossa casa e é uma barbearia simples, clássica, barata. Não sou muito bom a apreciar cortes de cabelo, ainda menos os meus, mas à primeira vista parece-me uma merda, contrariamente ao vinho.

Só me lembro de uma vez - não é uma imagem, é matemática - uma em que me levantei da cadeira do barbeiro e gostei de me ver ao espelho. É essa vez que agora me serve de padrão para avaliar os cortes de cabelo. Foi em Lisboa e a senhora chamava-se Zélia, se não me engano. Era alta, loira, muito bonita, linda; mas não é por isso que o corte ficou bem. É porque ela sabe cortar cabelos, ou então naquele dia estava inspirada.

A última vez antes desta foi em São Luís. O corte de cabelo mais rápido da minha vida: demorou menos de três minutos; cinco, vá. Deve ter ficado bom, porque só o cortei outra vez hoje, seis meses depois. Mas nada que se compare com o da Zélia. Não me lembro é se o corte dela foi simples. Ficou bem e foi barato, como o vinho de hoje.

O corte de hoje não; mas interessa-me pouco, para dizer a verdade. De qualquer forma não se encontra uma Zélia em cada esquina; estou habituado a ter cortes de cabelo medíocres (além de que é praticamente impossível transformar um velho troglodita como eu numa coisa visualmente apelativa, mas isso é outra história).

No Lizarrán a comida também é simples, boa e barata. E o ambiente é óptimo, festivo. No outro dia fui comer pintxos a um restaurante que não conhecia, chamado Origenes, em Santa Catalina. Eram uma maravilha, sobretudo o primeiro, de magret de cannard, e o último, de bacalhau confitado com tomate seco. Mas não eram simples, eram sofisticados, pensados, procurados.

Na verdade não há qualquer relação entre a simplicidade e a qualidade. São variáveis independentes. Nunca amei nenhuma mulher simples, por exemplo. Mas todas as que amei tinham qualidade, muita; e qualidades, claro.

A vida é uma coisa simples que nós passamos o tempo a tentar complicar. É por isso que a simplicidade é tão atraente (pelo menos a mim atrai, e muito - desde que não seja nas pessoas, é certo; e na música. Não gosto de música simples).

Mas gostei daquele vinho, tão simples, tão bom; gosto de algumas amizades - enfim, de todas: a amizade ou é simples ou não é amizade. Nunca tive amores simples; não sei como são. Já tentei várias vezes e nunca consegui. (Ainda bem.)