10.3.13

Metacentros, lua cheia

Há dias assim, em que de repente o repente se vai e fica apenas o que apenas tem de ficar. Nada mais. Dias nus, limpos de dor, de incertezas, de núvens; dias em que as mamas voltam a brincar com as mãos, as mãos com as peles, as peles com os olhos, os olhos com o mundo e por aí abaixo até à origem do mundo. Dias em que os Velvet Underground parecem uma banda de meninos de coro, em que o mundo parece fugir para o esgoto e nada fica se não o que deve ficar: nada. Nada. A ausência de dor vale a dor da ausência; tudo se equilibra. A altura metacêntrica do mundo volta a ser positiva. Uma esfera não tem metacentros longitudinais ou transversais. Tu és o metacentro do mundo, tu és positiva. 

Tudo é positivo, hoje: desde a areia na praia até à ausência de riso no mundo. É funesto, o riso em dias de chuva. Corre-se o risco de molhar a língua, insuficientemente protegida por estes lábios vorazes.

Sorvo a vida. A qual se deixa sorver com uma facilidade desconcertante.

Faz como a tartaruga. Refugia-te na concha, rebola com o mundo. A altura metacêntrica acabará positiva. Acaba sempre. Tudo acaba por se desvanecer no som de um mar desafinado, rouco de tanto gritar por ti. Mas tu não ouves. É impossível ouvir o mar, quando estamos na piscina. É impossível ver o dia, quando estamos na cama ocupados a calcular alturas metacêntricas de corpos esféricos. As mamas, por exemplo. os teus olhos. As nádegas, semi-esferas perfeitas.

Hoje a lua cheia bateu-me à porta. Entrou antes mesmo que eu lha abrisse. Queria, disse-me, libertar-me da dor de ser eu. Dor antiga, conhecida, com a qual convivo há aproximadamente duzentos e cinquenta anos. Recusei, polida e gratamente. Que restará de mim, se me tirarem esta dor? Que serei, quando tu não fores? Prefiro o positivismo, a certeza, o conhecido. O desconhecido inquieta-me. Não sei o que será de mim quando essa porta se fechar. Em que abismo me deixará?

Mandei a lua cheia passear e ela voltou vazia; tudo se foi, explicou-me. Só fica o que tem de ficar: tu e a minha sombra, vazia de luz.