30.5.13

Palavras, encantações

O símbolo do mal do nosso tempo é Hitler, não é Staline, Mao ou mesmo, estranhamente, Pol Pot; apesar de cada um deles ter morto mais gente do que o austríaco (com a excepção deste último, o qual apesar dessa pobre performance detem o invejável recorde de ter conseguido matar vinte e cinco por cento, um quarto, da população do seu país).

Isto deve-se ao poder encantatório da palavra. Por uma razão que não descortino, o nosso tempo é mais sensível ao que se diz do que ao que se faz. Se eu te matar "para teu bem" sou perdoado; se eu te matar porque não gosto da cor dos teus cabelos sou um facínora. Que o resultado para a vítima seja exactamente o mesmo é coisa que deixa uma grande parte dos nossos contemporâneos de mármore.

Enfim, talvez não seja de hoje. Ou seja uma manifestação tardia da frase de abertura de um livro muito conhecido, que diz "Ao princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus".

.........
Outra palavra encantatória, com poderes mágicos é "conscientemente". Dei-te um pontapé nos tomates, mas não o fiz conscientemente, portanto não sou culpado de nada.

Esta é mais recente, claro. Antes de Freud, um pontapé nos tomates era um pontapé nos tomates; hoje, para o ser, tem de ter sido dado conscientemente. O inconsciente não magoa.