11.5.13

Reedição


Foi num dia assim que tudo se desenrolou perante mim: Glenn Gould a tocar as Suites Inglesas, os correios a funcionarem bem, África a democratizar-se, Thabo Mbeki a reconhecer, finalmente, que Mugabe devia ir-se embora ("he should go home"), o fim da pobreza no Brasil; foi num dia assim

que tu respondeste, finalmente, e aceitaste vir para o mar comigo. "Não sei viver noutro sítio, sabes?", perguntei-te, e tu respondeste "e eu não sei viver sem ser em ti, vou amar o mar e amar-te e dar-te o mar que tu me deste", não sabia a que mar te referias então, hoje sei, e foi num dia assim

que pela primeira vi a tua voz, essa voz sem a qual não sabia que se podia viver, não pode, pois não?, ninguém pode, depois de a ouvir, e foi também num dia assim que amar fez sentido pela primeira vez outra vez em tanto tempo, como pode uma vida dissolver-se em amor, desaparecer e ressuscitar transformada?, foi sem dúvida num dia assim que descobri que pode, para isso tu foste feita, para inventar a vida; foi num dia assim

que disseste "é uma questão de pele". "Não é: é uma questão de pele, de olhos e cabelos e seios e ventres e coxas e é uma questão de corpos, de ar e de falta de ar e de gritos e de sussurros, de ânsia e de unhas e carícias e dentes e línguas e dedos e orelhas e bocas", é uma questão de querer mais e não querer outra, nunca mais, nunca mais outra vida, outra pele, outro corpo. Foi num dia assim

que me ensinaste "o sofrimento não presta, não enche uma vida, só a esvazia", e me mostraste que o passado passou, finalmente, e reencarnaste e me bateste à porta e me sorriste e me disseste "olá, sou eu outra vez, pela última vez sou eu". Foi num dia assim que Deus inventou as palavras - tu és os alfabetos todos de todas as formas da palavra amor - e os dias e o mundo

e o mundo és tu, perfeita.