9.6.13

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 08-06-2013

Comi muito bem em São Francisco, mas infelizmente é uma experiência que não se repete nos restaurantes "americanos" pelos quais vou passando. O do Balboa Yacht Club, por exemplo. Não consigo perceber por que raio de carga de água acham necessário pôr queijo em praticamente tudo o que fazem. Mau queijo em cima de um péssimo chili serve para quê? Se o chili fosse bom e o queijo também a pergunta continuaria válida, claro. E em todas as combinações possíveis, mau ou bom queijo, bom ou mau chili.

Talvez o bom e o mau se anulem, ou misturem, ou amenizem mutuamente na vida, no amor ou no trabalho; mas na cozinha não, definitivamente.

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A minha metamorfose continua. Nunca será completa, nunca serei um terráqueo. Mas tão pouco serei um "marinheiro que perdeu as graças do mar". Espero, pelo menos.

Olho para a frente e vejo que vou dedicar uma grande parte do meu tempo a uma tarefa muito borgiana: reconstituir as minhas bibliotecas. Todas, desde a adolescência. Projecto que me entusiasma tanto como há uns tempos me entusiasmaria uma proposta de viagem de três ou quatro mil milhas.

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Levei-te a ver o fogo e queimei-me. Uma queimadura profunda,  daquelas que deixam marcas muito depois de o fogo se apagar.

O fogo não se apaga, nunca. Quando muito transforma-se em brasas; e em carvão, para acender outros fogos.

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Quando estou no mar penso frequentemente que se estivesse a duas milhas ou dez de onde estou veria a mesma coisa que vejo agora.  Na cidade não: olho para as torres da "cidade nova" (entre aspas porque não sei se é assim que se chama) e sei que a paisagem seria diferente, tal como eu: não gostaria de estar ali; no mar, ser-me-ia totalmente indiferente, estar aqui ou a dez milhas (enfim, nem sempre, mas isto não é um tratado de meteorologia).

No mar a clivagem é imediata, absoluta: há o barco e o não-barco; em terra o espaço muda a cada rua, a cada quarteirão. E nós com ele: não somos os mesmos no Bairro Alto ou nas Avenidas Novas, no Cais do Sodré ou na Avenida da Liberdade, em Lisboa ou em Nova Iorque.

Acabo de fazer uma viagem de pouco mais de três mil milhas; estive em seis países, oito portos. Mas na verdade o meu país não mudou, o meu porto é o mesmo: o mar e uma embarcação de vela chamada ARCTIC FRONT, quarenta e quatro pés por treze de aço e noventa metros quadrados de dacron.  A metamorfose vai ser lenta, muito lenta.

Mas a perspectiva de aterrar em Panamá alegra-me. Parece-me uma daquelas cidades feitas por e para desenraízados: entre dois oceanos, dois continentes (ou meios-continentes, para os preciosistas), dois hemisférios, duas civilizações (que não se misturam, atracção suplementar), duas línguas, dois mundos.

Não deixarei de ser um desenraízado, mas pelo menos estarei num país feito para isso.