13.6.13

Diário de Bordos - Panamá, Panamá, 12-06-2013

" Panamiano não quero, está fora de questão". Foi preciso chegar aos cinquenta e cinco anos - e quase trinta a contratar pessoas - para excluir a identidade e referir-me a um grupo como critério de escolha. Sinal seguro de que a paciência está a diminuir (isso já sabia) e de que aprendi, finalmente, a gerir melhor o tempo.

Procuro um ou uma tripulante e estou aberto a praticamente todas as combinações idade /sexo / nacionalidade / experiência excepto uma que inclua a nacionalidade panamiana. A noção de serviço neste país começou por me espantar; agora faz-me rir. É divertido, a sério. Ouvir uma empregada de um restaurante de vinhos perguntar, algo espantada "mas um vinho estraga-se, se estiver aberto muito tempo?" (num restaurante que se chama Tinto de Verano e se pretende "de vinhos"); dizer bom dia, boa tarde ou boa noite e não ser respondido nem com um olhar;  deixar uma gorjeta completamente inútil em termos práticos (o clube fornece uma lancha gratuita, incluída no preço absurdo que custa) e não se ouvir nem um murmúrio de agradecimento são coisas que agora me fazem rir. Ao princípio - isto é, os três primeiros dias, afinal cheguei há pouco mais de uma semana - espantavam-me.

Hoje já não. Tiram-me simplesmente vontade de perder tempo. Não tive respostas de portugueses, tê-las-ei de franceses, belgas, colombianos ou argentinos. Panamianos não, obrigado.

Isto dito, o país é um paraíso para quem não está com vontade de ser, ou não precisa de ou não é de todo bem educado. A falta de educação é a norma, não a excepção.

Que as há, claro; já encontrei algumas. Mas não me apetece procurá-las. Que venham ter comigo quando sou cliente, não quando tenho clientes.

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As "coisas" - esse conjunto de acções, necessidades, objectivos para as quais não há um termo suficientemente preciso, ou satisfatoriamente vago - estão a avançar a bom ritmo. Bom sendo, como sempre, o melhor sinónimo possível de possível. A continuar assim dentro de três ou quatro dias estarei num avião, a caminho daquilo que um dia sonhei seria a minha casa e hoje é simplesmente o lugar de onde sou.

Há uma diferença muito grande entre o lugar de onde sou e o lugar de onde serei. Talvez seja esta a melhor definição de desenraizado - não quem não tem raízes, mas quem as não tem no lugar certo.

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Descubro - com um certo e inesperado espanto - que a felicidade ou a infelicidade nada têm a ver com as raízes. Volto a Lisboa - uma cidade que adoro e onde passei alguns dos piores e melhores momentos da minha vida - com um indescrítivel prazer. Quero misturar num gigantesco shaker sardinhas assadas, Ler Devagar, queques integrais, vinho a jarro, amigos, amigas, livros, família, amigos outra vez, muito bacalhau assado e pernas de borrego e tudo o que cabe numa cidade que é a minha mas na qual nunca, salvo raros momentos de rara felicidade, vivi, pôr-lhe algum rum, encher com Alexanders no Procópio (ou os do senhor Miguel no Pavilhão), terminar com uma exposição de fotografia da minha fotógrafa favorita, agitar com Piratas, Pernas de Pau, Ginginhas e Pataniscas na Merendinha do Arco, passeios na minha bicicleta Rolex, mais uma livraria ou duas, descer a Bica, subir a calçada da Glória, perder-me em Alfama - nunca lá me encontrei, seja a verdade dita - reclamar contra o Bairro Alto e ir dançar (se se pode chamar dançar ao que faço) no bar do meu irmão preto.

Não é isto a pátria?  Não. É uma cidade, a minha cidade. A pátria ainda estou por descobrir o que seja. Não terei decerto tempo de ir a Mértola, a coisa que para mim mais se aproxima da noção de pátria.

Nasci para viver nas Caraíbas e ir a Lisboa, não para viver em Lisboa e ir às Caraíbas.

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Gosto muito de trabalhar e do trabalho que faço. Gosto de barcos e do mar, de estar no estrangeiro e de ser estrangeiro.  Gosto de não ter raízes e de não sofrer com isso. Mas mais do que tudo gosto de Lisboa, porque para ser estrangeiro em qualquer lugar há que ter um lugar, e o meu é Lisboa.

Animula vagula blandula...

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Reencontro a vida urbana: buzinadelas, engarrafamentos, gritos.  Para gostar completamente de Panamá preciso de encontrar o resto daquilo que faz de uma cidade uma cidade: um bar de jazz, uma boa livraria, uma boa loja de discos (já não se pode dizer discoteca. Por que raio de carga de água boîte desapareceu?).  Se não a cidade fica desequilibrada, como uma vida da qual só metade está a correr bem.

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Sem melancolia não se pode apreciar a vida, mas o excesso de melancolia mata. Contradição que sem melancolia nunca será resolvida, e com ela tão pouco.

Só um corpo, o mar e uma quantidade apreciável de rum a podem resolver. Juntos.