4.6.13

Diário de Bordos - Balboa, Panamá, 03-06-2013

É impossível chegar  a um clube náutico sem ficar com uma impressão de déjà vu; todos iguais (ou pelo menos dividem-se por poucas categorias). Nada mais errado. Na verdade são todos diferentes, e alguns são mais diferentes do que os outros. O Balboa Yacht Club faz parte desta categoria. Não tem pontões, tem bóias (uma solução que sugeri há meia dúzia de unidades de tempo para o Seixal, não consigo impedir-me de o pensar em voz baixa); mas, sobretudo, está situado à saída do Canal do Panamá. Escrevo e vejo passar um fluxo de navios, de todas as formas e feitios, que chegam do Atlântico; em breve começarão a passar os que para lá vão.

(Passei por aqui há trinta e sete anos.)

A luz é soberba, filtrada pela humidade e pelas árvores; parece que as embarcações estão suspensas nela e não na água.

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A chegada a Panamá foi das mais bonitas da minha vida. N., o tripulante que veio comigo de Golfito, conhece o porto como as mãos dele, trabalhou aqui anos e anos. Pela primeira vez em muito tempo não tive de fazer nada se não supervisionar  o que ele ia fazendo; e concentrar-me na beleza da chegada, as luzes da cidade, os inúmeros navios fundeados, o futuro (um país estrangeiro: lá eles fazem as coisas de uma forma diferente).

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Morro de vontade de ir jantar à cidade (cidade deve ser pronunciado lentamente, letra a letra, como o amante que há muito tempo não está com o ser amado e lhe percorre a pele como se acabasse de descobrir o poder de uma carícia, o poder de um uma mão). Mas estou exausto, ainda. Dois dias e meio a dois não é fácil. Pergunto-me como fazia, quando fazia semanas e semanas assim.

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O chauffeur de táxi que hoje me acompanhou nas demarches administrativas - e tudo indica que vai ser o meu chauffeur de táxi doravante, o homem é realmente útil - chama-se Dios. Acho isto um bom prenúncio. Por exemplo: amanhã vou com Dios ver estaleiros navais.

Dios sabe onde se vendem cartas náuticas (na verdade, sabe tudo o que respeita a iates - não tive razões para o testar noutras áreas). E não é caro. Um dia poderei dizer "Cheguei ao Panamá e encontrei Dios".