7.7.13

Diário de Bordos - Cidade do Panamá, Panamá, 06-07-2013

A Cinta Costera tem três quilómetros; os meus dias começam portanto com um passeio de seis. Para Oeste vejo o Casco Antiguo, a parte velha da cidade. Para Leste é o bambuzal de arranha-céus. No meio fica a "vida real", quase me apetece pensar. Quase: na verdade só os arranha-céus me parecem irreais, E de certa forma são. Se os prédios reflectissem um país seria mais o Casco Antiguo, lindo, com casas a cair e outras renovadas que melhor o representaria. Os bambus de cimento mostram a faceta aberta e cosmopolita daquilo que Alexis, o meu taxista, designa por mi Panamá com um misto de ternura e ironia.

Mi Panamá é um país surpreendente, complexo, pobre vestido de roupas ricas; a cultura dos americanos, que aqui estiveram tanto tempo, não se misturou com a da América Central se não superficialmente. A miscigenação de culturas é um fenómeno lento, e se essas culturas forem água  e azeite ainda demora mais tempo.

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Os trabalhos no barco avançam lenta, penosamente. Mas avançam. Em breve poderei deixar o hotel e voltar para bordo; poucos dias mais (daqui a duas semanas. Uma eternidade) e estarei a trabalhar naquilo que verdadeiramente gosto de fazer: levar pessoas a passear de barco, partilhar um pouco do meu amor pelo mar, pela navegação à vela (aqui vai ser mais a motor, suspeito), por um bom vinho e um bom prato a bordo.

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Hoje fui almoçar com o grupo de leitura do Internations local. Das cinco pessoas presentes só duas tinham lido o livro que estava em discussão (eu estava no grupo maioritário). Quando chegou o momento das sugestões sugeri o meu bem-amado Passage to Juneau. O livro foi escolhido. Sorte de principiante, suponho. Vou gostar de o reler. Se um dia escrever um livro de viagens vai começar onde aquele acaba.

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O Balboa Yacht Club fica situado, já aqui o mencionei, na entrada Sul do Canal do Panamá, muito perto da ponte das Américas. Ontem ao fim do dia a vista era deslumbrante. É este lado mágico do Panamá que todos os dias me seduz: uma ponte entre duas metades de um continente, um canal entre dois oceanos, navios de todas as formas e feitios a atravessar uma coisa que para o ano faz cem anos e que nesse século viu passar - e ajudou a definir - praticamente tudo o que o homem fez para andar na água. Estão de fora alguns supertanques, graneleiros, porta-aviões e os grandes porta-contentores (para os acomodar o Canal está a ser aumentado).

Os navios com dimensões próximas do máximo que o Canal permite chamam-se Panamax. New Panamax são os que o poderão atravessar quando as obras de ampliação estiverem terminadas. (A título de curiosidade: os outros chamam-se Postpanamax, Overpanamax ou Capesize).