29.9.13

Diário de Bordos - Bocas del Toro, Panamá, 29-09-2013.

Um dos piores anos da minha vida está quase a chegar ao fim. Fim não é amanhã, dia do meu quinquagésimo sexto aniversário; o calendário tem para mim o valor das outras regras todas: é importante que exista, mas só deve ser respeitado quando absolutamente necessário e outras pessoas dependem disso. Fim é um dia destes, quase, em breve; não sei bem quando mas sei que está ali ao virar da esquina.

Foi um ano mau numa vida que conta muitos e muito maus; contudo e como tudo teve os seus lados bons. Uns no plano pessoal - quando, finalmente, terminar serei uma pessoa melhor do que era quando começou -; outros no plano profissional - fiz uma viagem com a qual há muito sonhava, descobri coisas sobre mim que desconhecia ou esquecera, e - no fim porque na verdade é um mixed blessing, un cadeau empoisonné - sou armador de uma embarcação de vela na qual posso esperar passar muitas boas horas no mar (e por causa da qual antes passarei muitas más,  mas isso é farinha para outro pão).

Um ano é pouco, é muito, é nada. Um vírgula pouco por cento de uma vida, sendo que o pouco varia consoante onde situemos os limites daquilo a que chamamos vida.  É decididamente pouco. Foi - terá sido, quando acabar - muito. Foi muito mais do que um vírgula pouco por cento do sofrimento todo pelo qual passei (e espero que seja infinitamente mais, em termos absolutos, claro, do que aquele pelo qual passarei). E - seria desonesto não o reconhecer - o conjunto das coisas boas, incluindo a esperança, quase certeza, de que sou hoje uma pessoa melhor do que era há quase um ano representa também muito mais do que uma tão pequena percentagem faria supor.

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Escrevo na esplanada do hotel Buena Vista, em Bocas del Toro, um arquipélago cum golfos no oeste da costa atlântica do Panamá. O sítio é bonito e as perspectivas de negócio bastante boas. O HELENA S. vai ficar aqui, entregue  às mãos honestas e competentes do M. Eu vou fazer aquilo que planeara: passar o inverno nas Caraíbas. Na Primavera reunir-nos-emos os três e vamos para o Mediterrâneo.  É preciso um plano se queremos poder não o respeitar, e este parece-me o mais fácil de cumprir e o mais agradável, se tal não for possível.

O cenário é adequado: ilhas, barcos, botes, rum, uma mesa por cima da água,  calor e duas ou três sombras no quadro. Não se pode pedir mais para elaborar planos, nem para nos lembrarmos de quão falíveis eles são.

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Morri em Antígua e vou muito provavelmente ressuscitar em Palma. Não sou dado a símbolos, sobretudo aos que me são enviados pelo acaso. Mas se isto não tem um sentido nada tem.