A maior qualidade de um marinheiro é a humildade, todos os dias algo ou alguém mo recorda. Um marinheiro é o último elo de uma cadeia de factores totalmente fora do seu controle: começa com o tempo, passa por fornecedores incompetentes, alfândegas arbitrárias e um longo encadeamento de coisas, pessoas, acontecimentos, acasos, imprevistos, imponderáveis - quantas vezes piorados por dificuldades de língua, costumes e práticas de trabalho diferentes. Há decerto outras profissões assim, mas eu não estou a ver muitas.
As peças que esperamos vai para duas semanas e deviam ter chegado hoje não chegaram: por uma dessas incompreensíveis e inelutáveis razões ficaram retidas na alfândega de Panamá. J., o competentíssimo senhor que trata da nossa logística dizia-me "Luís, sinto-me um tonto. Estou farto do Panamá hasta los huevos". Como te compreendo, J.
De maneira vamos, a continuar assim, voltar à primeira forma e rebocar o Artie com o HELENA S. Neste o trabalho deu hoje mais um daqueles pulos para a frente: estamos com a mecânica e a electricidade resolvidas (enfim, esta muito assim assim, mas pelo menos o suficiente para já). Amanhã vai ser dia de provas de mar, acabar de montar as velas e em princípio - se os papéis chegarem ou conseguirmos sair sem eles, o que não é nem desejável nem impossível - saímos na quarta feira. Se bem me lembro chegámos a Shelter Bay dia 19 de Agosto. Três semanas num lugar onde pensava passar uma.
Aceito que seja difícil para muita gente compreender isto, quanto mais adaptar-se ou gostar. Eu gosto. Sou o pedante mais humilde do mundo.
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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.