9.9.13

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 09-09-2013

A maior qualidade de um marinheiro é a humildade, todos os dias algo ou alguém mo recorda. Um marinheiro é o último elo de uma cadeia de factores totalmente fora do seu controle: começa com o tempo, passa por fornecedores incompetentes, alfândegas arbitrárias e um longo encadeamento de coisas, pessoas, acontecimentos, acasos, imprevistos, imponderáveis - quantas vezes piorados por dificuldades de língua, costumes e práticas de trabalho diferentes. Há decerto outras profissões assim, mas eu não estou a ver muitas.

As peças que esperamos vai para duas semanas e deviam ter chegado hoje não chegaram: por uma dessas incompreensíveis e inelutáveis razões ficaram retidas na alfândega de Panamá. J., o competentíssimo senhor que trata da nossa logística dizia-me "Luís, sinto-me um tonto. Estou farto do Panamá hasta los huevos". Como te compreendo, J.

De maneira vamos, a continuar assim, voltar à primeira forma e rebocar o Artie com o HELENA S. Neste o trabalho deu hoje mais um daqueles pulos para a frente: estamos com a mecânica e a electricidade resolvidas (enfim, esta muito assim assim, mas pelo menos o suficiente para já). Amanhã vai ser dia de provas de mar, acabar de montar as velas e em princípio - se os papéis chegarem ou conseguirmos sair sem eles, o que não é nem desejável nem impossível - saímos na quarta feira. Se bem me lembro chegámos a Shelter Bay dia 19 de Agosto. Três semanas num lugar onde pensava passar uma.

Aceito que seja difícil para muita gente compreender isto, quanto mais adaptar-se ou gostar. Eu gosto. Sou o pedante mais humilde do mundo.