8.9.13

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 07-09-2013

São sete da noite e ainda não choveu; quase tenho medo de o dizer, não vá o céu cobrir-se de nuvens e desabar numa daquelas chuvadas cataratas súbitas que têm sido o nosso lote quotidiano aqui desde que chegámos. E não só não choveu, mas o fim do dia estava lindo, ensolarado, quase a deixar-nos prever como será isto na época seca, com vento (havia um pouco à tarde; agora caíu) e sem chuva.

Bonito, sem dúvida.

Está na hora de largar, e a hora nunca mais chega: num dos barcos por uma série de razões, no outro por outra; tudo serve para nos lembrar de que as fontes de problemas com barcos - sobretudo velhos - são inúmeras, intermináveis e que não há experiência que chegue para as prever todas. Quem iria, por exemplo, pensar que a loja em Miami onde encomendei as peças do Artie não ligou nenhuma ao número de série que lhe enviei e me mandou as peças para o modelo recente do motor, em vez de me mandar as do modelo de 1986; ou que o antigo armador do agora HELENA S. navegava numa espécie de bomba flutuante, com cabos eléctricos em cima dos motores, tanques de gasóleo com buracos, e outras coisas. Trabalhar no HELENA tem sido uma espécie de tango, um passo para a frente dois para os lados um para trás e depois uma repentina corrida para a frente.

Já adiei a largada algumas duzentas vezes e só agora começo a ter a impressão de que cheguei a metade delas.

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Shelter Bay Marina fica na entrada atlântica do Canal do Panamá, numa antiga base militar americana, hoje devolvida aos Panamianos e meio em ruínas. Todos os dias de manhã ouvimos (pelo menos os que acordam cedo) os gritos dos militares nas suas actividades de team building.

Quando se vai a Colon passa-se pelas eclusas de Gatun. Por vezes temos de esperar muito tempo, se há navios a entrar ou sair; outras é rápido, e a viagem demora o tempo normal, cerca de três quartos de hora.

A marina é uma seca, cara e com poucos barcos. Quem aqui vem vem porque vai atravessar o canal e precisa de esperar ou porque precisa de fazer reparações - é o único estaleiro com capacidade de levantar barcos em muitas muitas milhas.

Felizmente encontrámos Nike e Dimitrios. Já fizemos dois jantares com eles; agora decidimos que podem usar o nosso barco como base logística: não têm frigorífico nem fogão. Hoje fazem o jantar; amanhã nós. E assim até nos irmos embora - Nike está à espera dos papéis do seu ex-VELA BIANCA, futuro KARL para ir, como nós, para Bocas del Toro.

É uma jovem de 32 anos que comprou um barco sem ter grande experiência de vela; Dimitrios um amigo que veio cá ajudá-la na preparação. Admiro muito a personalidade de Nike e a maneira como está a gerir o seu projecto. Ela ainda não sabe, mas vai para a galeria dos Encontros.

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Não se pode mentir ao mar; ele não engole tretas. Esta viagem tem sido uma viagem aos e nos limites, os meus limites. Estão muito mais perto do que eu pensava e só por isso estou-lhe grato, ao mar, que ao fim destes anos todos me relembra que a principal qualidade de um marinheiro - qualidade não é bem o termo, mas por agora fica - é a humildade; conhecer-se e aos seus limites.