12.9.13

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 11-09-2013

Se um dia a vontade de escrever esta viagem se concretizasse poderia intitular o livro "De S. Francisco a Bocas del Toro, uma viagem pela rejeição, depressão e ressurreição"; ou talvez simplifique e lhe venha a chamar, simplesmemte, Ressurreição, como a segunda sinfonia de Mahler,



ao som da qual escrevo este post.

Ainda não estou em Bocas del Toro e ainda não ressuscitei; mas em ambos quase estou. Talvez tenha sido esta a viagem mais difícil da minha vida - incluindo nas viagens da minha vida a do ciclone em 85, aquela em que ia afundando em 76 ou o transporte de Cherbourg a Dunkerque, duzentas milhas  e uma semana que dariam para fazer um compêndio de vela -.

A mais rica: numa viagem as dificuldades transformam-se em riqueza, interesse, vida, experiência, aprendizagem. Coisas boas. Saio desta mais perto de mim, mais perto do que serei porque é o que quero ser. Penso num dos livros de Jules Verne, a Viagem ao Centro da Terra, numa frase de James Baldwin "O mundo é sempre mais pequeno do que o viajante que nele viaja", em Rilke "A única viagem é interior": cada viagem é uma espiral ascendente. Quanto mais "difícil" maior a inclinação, mais perto do vértice ficamos.

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Eu não sei se isto se passa noutras profissões - sei que de médico e de louco todos temos um pouco, e que dantes - nos tempos gloriosos do MS-DOS - toda a gente sabia programar, desde que soubesse fazer um "programa" .bat de três linhas - ; na vela é impressionante a quantidade de gente que sabe fazer tudo, vírgula bem (um marinheiro, nunca é demais recordá-lo, sabe fazer tudo, vírgula mal).

Pessoas que provavelmente são muito exigentes com quem lhes fornece serviços em terra entretêm-se nos seus barcos a fazer disparates atrás de disparates - não para poupar dinheiro, aquilo acaba sempre por ficar mais caro, a eles e aos seguintes - mas para demonstrar que são capazes, que sabem, que são auto-suficientes.

Depois sai merda, claro. A diferença entre um marinheiro e um "elefante" (só não gosto desta designação francesa para quem não navega porque gosto muito de elefantes) é que o marinheiro sabe o que vem depois da vírgula: mal. O outro crê-se um génio.

Isto aplica-se tanto ao Artie como ao Lena; e a milhares e milhares de outras pobres embarcações de vela por esse mundo fora. Uso de vela propositadamente: nos barcos a motor este fenómeno manifesta-se menos (o que não signfica, longe disso, que não exista).

Enfim, amanhã (ou hoje à noite, mas não quero provocar quem manda nestas coisas) fico com os dois botes prontos a navegar. Faltam-me só os papéis do Lena, deve faltar pouco.

Tal como Bocas del Toro, ou o fim do túnel.