2.10.13

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 02-10-2013

O dia começa, os CD estão todos gravados - se não houver mais surpresas -, tudo está no seu lugar. Não há sopro de vento. O céu, que hesita entre ser azul ou encher-se de nuvens como de costume, o mangal, a água da marina, até as gotas suspensas do varandim - restos prováveis da chuva desta noite - parecem uma escultura. Imobilidade, silêncio - Gesualdo, com quem terminei as gravações e que agora oiço é uma das formas do silêncio -, paz.

Não sei se é para isto que se vive - não sei se se vive para o que quer que seja - mas para quem ainda há bem pouco tempo a vida parecia um bloco de cimento num bote a remos o quadro é como uma sombra num dia de sol, um beijo inesperado, o som de um organista solitário que ensaia numa igreja vazia.

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Ontem comprei três lagostas para o jantar (a cinco dólares cada uma, para fazer um bocadinho de inveja). Eram pequenas, deliciosas. Comêmo-las cozidas, sem qualquer molho, acompanhadas por umas cervejas bebidas a priori no Palmar. Menos é mais.

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Palmar onde finalmente conheci C., uma jovem portuguesa que aqui faz um trabalho de voluntariado, numa escola. Vêm, ela e os amigos, jantar a bordo na terça-feira. Parece simpática, cheia de energia, como convém a uma jovem voluntária. Por coincidência hoje de manhã "conheci" virtualmente uma outra jovem voluntária. Nos meus anos de humanitário havia pouquíssimos portugueses, fosse nos quadros fosse como voluntários. Agora parece haver muitos, não sei. Se calhar é esta coincidência que faz pensar assim. Não sou grande fan de ONG e similares (nem tão poco do OG, de passagem se diga), mas enfim, estou muito menos fundamentalista agora do que há meia dúzia de anos.

Apesar disso, falo com C. e não consigo deixar de me lembrar dos arranha-céus de Panamá, do seu parque automóvel, que faz o de Cascais parecer um parque de sucata, dos restaurantes de luxo onde uma mesa de quatro pessoas gasta num jantar aquilo que, provavelmente, C. ganha por mês.

Dá aulas de inglês, espanhol e alfabetização a miúdos que, de outra forma, não teriam escola nenhuma. Entretanto, Martinelli, o presidente do Panamá sobe tudo quanto é imposto e subvencia a compra de vivendas pela classe média.

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Se tudo correr como previsto em breve passarei uns dias em Lisboa a caminho de Palma, onde vou buscar um cata para trazer para as Caraíbas. Estive em Lisboa há três meses, nada justifica a alegria profunda, a expectativa com que lá volto. Nada? Não. Tudo. "O mundo é sempre mais pequeno do que o viajante que nele viaja", como escreveu um dia James Baldwin, num livro que daria tudo para poder agora folhear, página a página enquanto procuro a citação e descubro outras esquecidas.

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Os CD vão voltar para casa - infelizmente, preferia de longe poder deixá-los aqui, à escola da C., por exemplo -. Mas tenho medo de perder de novo os discos onde estão gravados.