27.10.13

Diário de Bordos - Lisboa, 27-10-2013

Fodo-te, Lisboa, as ruas e as mulheres, as calçadas e as paisagens; fodo-te dia e noite pela pele e pelos olhos, pelas mãos e pelas pernas. E tu vingas-te, claro: fodes-me o fígado e o calcanhar, fodes-me o ouvido e a carteira.

A verdade - dou-te razão, Lisboa, tem-la sempre - é que te percorro como se fosse um estrangeiro, como se tu fosses mulher de uma noite, como se estivesse de passagem. Conheço-te o metro e os autocarros e os táxis e pouco os uso: quero, Lisboa, é sentir-te no corpo, andar-te pelas ruas como me embrenho pelos corpos, receber-te como me dou. E fugir-te como me fujo.

És mulher, cidade, e eu fodo-te e amo-te e percorro-te e perco-me. Tomara me perdesses tu também.

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Tenho a Lisboa triste, desta vez, como alguns alcoólicos têm o vinho. Ando a fechar portas, e a abrir outras: nenhuma é fácil.

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Não sou daqui. Não sou de lado nenhum. Não tenho onde cair morto nem onde estar de pé vivo. A menos que o mar seja um lugar, claro. A menos que do mar se possa dizer "onde".

A menos que tu sejas um país:



(Com um pedido de desculpas pelo mielleux, mas a canção é bonita, vá).

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Já sei como se vai chamar o guia que um dia escreverei sobre Lisboa: "Roteiro de Lisboa para amigos, conhecidos, ex-mulher, futura mulher, e outras almas rebeldes". É preciso ser rebelde para se perceber e amar Lisboa.

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Não nos libertamos de Lisboa como não nos libertamos de alguns amores, tenham corrido bem ou mal: amar alguém é conhecer-lhe os defeitos, e saber onde lhe terminam as virtudes.