29.10.13

A imperativa imanência do silêncio

Seria preciso falar agora da imanência da mudança. Isto é: da mudança como um rigor mortis, a mudança cadavérica: muda-se de um estado de morte para outro estado de morte, de um estado de decomposição para outro.

Mudar é morrer muito, tal como partir é morrer um pouco; chegar é passar directamente ao estado da putrefacção completa, a que os especialistas dão o nome sem dúvida harmonioso de decadência seco ou palco esquelético.

Isto se nos limitarmos às mudanças geográficas, de longe as mais fáceis.

Porém a verdadeira questão continua por responder: é realmente importante falar da mudança? Não será a mudança auto-explicativa, e qualquer som sobre ela emitido, seja ele uma palavra, grunhido ou flatulência uma redundância?

Eu creio que não. De resto a redundância é tão necessária à verdadeira vida como o oxigénio, o vinho ou a morte, isto é: a mudança.

Ou a tristeza. Falo aqui da tristeza da cegonha que sedentarizou e não gosta do poste que lhe saiu na rifa, por exemplo; ou da da poeira que nenhum vento veio levantar e solidificou, se transformou numa rocha amarela e triste no deserto; ou, pior ainda: um grão de lama que assentou - os especialistas dizem sedimentou - no fundo de um rio, castanho e mole.

A liberdade é uma mistura de redundância e oxímoro: não existe e só existe quando se repete, quando se manifesta de todas as formas, em todos os níveis da decomposição cadavérica a que, nos momentos de optimismo ou equívoco chamamos vida (ou mudança, andam sempre juntas).

Não. Isto é, não é preciso falar da imanência da mudança. Não é preciso falar de nada.  Não é preciso falar, sequer.