16.1.14

Diário de Bordos - Le Marin, Martinica, Antilhas Francesas, 16-01-2014

Tal como os séculos não acabam quando diz o calendário, também o meu ano de 2013 não acabou no dia 31 de Dezembro. Acabou ontem, quando cheguei à Martinique; ou hoje, talvez.

A travessia foi um calvário. O ano termina como começou: miserável. Tenho pelo menos uma certeza: 2014 não pode ser pior.

A isto chama-se saltar da frigideira para o fogo. A ver se desta aprendo a controlar a impulsividade.

Não sei pactuar, não sei dizer que não quando penso sim ou sim quando o não é óbvio; não sei lidar com a estupidez e ela não sabe lidar comigo; e, descubro agora, não sei lidar com psicóticos - provavelmente só os profissionais da área sabem -. Acrescente-se a isto a minha habitual falta de sorte: é a receita infalível para se fazer um homem pobre. Livre, mas pobre.

Penso no Tevye, do Fiddler on the Roof:

"Lord who made the lion and the lamb,
You decreed I should be what I am.
Would it spoil some vast eternal plan
If I were a wealthy man ?"

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Isto dito, tudo é nada comparado com o que me rodeia: o barulho do casco na água, a sete nós apesar de estarmos no primeiro rizo; a lua em quarto crescente, promessa de lua cheia para a chegada; as estrelas tão claramente visíveis que o céu parece estar em três dimensões; as núvens que as tapam e destapam como lençóis voam numa cama de amantes; a auto-estrada prateada à minha frente a indicar o caminho e a dizer-me que tudo não é mau, que nada é tudo, nunca.

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Um autor que li há alguns anos pensa este tipo de comportamentos esquizóides um factor importante na hominização. Talvez tenha razão: sinto-me de regresso ao tempo em que os homens não falavam. E àquela cena dos macacos do início do 2001 Odisseia no Espaço.

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Onde acaba a cobardia e começa a inteligência? Ou será a cobardia a solução inteligente?

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Resta-me a luz, o cor-de-laranja do nascer do sol no azul do mar. Devem ser estas as cores da felicidade.

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Estou quase a chegar àquele ponto mágico de que fala Conrad: no meio do oceano, a mil milhas do porto mais próximo.

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Há muitos anos que não navegava num tupperware. Espero que venham muitos mais antes do próximo.