14.2.14

Diário de Bordos - Cartagena de Indias, Colômbia, 14-02-2014

O dia ontem foi fatigante; é uma das coisas de que gosto nisto de não ser um turista, de chegar seja onde for para trabalhar (as outras sendo que isso me faz sentir imediatamente em casa, por um lado; e o facto de se ficar a conhecer muito melhor uma cidade se se tiver de trabalhar do que passeando-se nela).

De manhã fiz os prospectos, com a ajuda do Jhon (sic) da Oficentro; à tarde distribuímo-los, a Danielle, o Luka e eu pela cidade. Enfim, pela parte da cidade onde estão concentrados os albergues e restaurantes que o nosso público-alvo frequenta.

Seria bom termos amanhã as primeiras respostas. Mais do que bom: essencial.

(Viajar à beira do abismo, numa corda bamba permanente também ajuda a conhecer uma cidade. É, suponho, o equivalente daquelas personagens que nos contos de O'Henry limam as unhas para melhor sentir as combinações dos cofres que estão a assaltar).

Foi portanto com toda a atenção aos pormenores que hoje percorri os bairros de Getsemani, Centro e La Matuna, todos eles parte da cidade velha, rodeada de muralhas e de mar.

Por vezes sentia-me na Grécia, por causa das plantas e flores que jorram das paredes das casas; outras em Itália, ou em Espanha. Cartagena é uma cidade mediterrânica habitada por mulheres com traços de índio e por turistas de mochila às costas (são os únicos segmentos da população que vejo).

Como todas as belas tem senãos. O preço absurdo de coisas básicas como o rum, o vinho e o pão é assustador, e ajuda a relativar o desgosto que sinto pelo Panamá cada vez que alguém me diz bom dia numa loja – isto é, cada vez que entro numa, mesmo que seja para simplesmente pedir uma informação – cada vez que alguém é simpático e amável e prestável – ou seja, quando falo com alguém seja por que motivo for.

Felizmente temos a bordo farinha que chegue para fazer pão uma boa semana; é assunto resolvido – quando chegar o gás, claro -. Já o vinho e o rum terão de encontrar outro caminho se querem vir para a mesa do HELENA S.

O qual HELENA S. parece outro barco; a Danielle é inparável e tem limpo este barco ao milímetro. E o Luka é um bom bricoleur, experiente e dinâmico e tem, ele também, trabalhado muito para que o bote esteja um pouco mais apresentável.

Por vezes acordo à noite e tenho a impressão de que oiço o Helena agradecer-me.

O maior problema que temos de resolver – a vela grande, o piloto automático e a chave da ignição do motor de estibordo não são problemas, são simplesmente custos – é o das escotilhas. O Luka foi procurar juntas, mas não havia. Vamos ter de improvisar e muito.

E esperar que alguém se inscreva para a viagem de regresso. Duas pessoas pagarão todas as despesas que temos em curso; as outras pagarão despesas antigas, e algumas das que estão para vir.