26.3.14

Diário de Bordos - Bocas Town, Bocas del Toro, Panamá, 26-03-2014

Não é que as aparências iludam; é que são o contrário da realidade, o exacto oposto. Visto de fora tudo parece calmo: venho para Bocas de manhã; passo muito tempo nos cyber cafés - o computador de bordo insiste em não funcionar -, falo ao telefone de vez em quando.

Não há melhor sintoma de tempestade do que esta calma de olho de furacão.

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Se fizesse uma árvore dos meus dias teria dois ramos principais - Artie e HS -; e cada um deles dividir-se-ia em não sei quantos ramos mais pequenos; e estes em raminhos. E nenhum parece dar flores; ou folhas, vá. De cada um deles só caem pedras do tamanho de cocos e com o peso do basalto.

Não faço a árvore: as raízes estariam secas como se estivesse em pleno Sahara e não numa das regiões mais pluviosas do mundo e induziria as pessoas em erro.

Há árvores no Sahara, não há? Poucas, eu sei; e espinhosas e pequenas. Mas há.

Há vida em todo o lado, mesmo num skipper e armador em Bocas del Toro cuja vida parece uma montanha russa gerida por um russo bêbedo num tapete rolante.

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O Panamá sendo o Panamá sei que a reparação do fuel do Artie vai levar tempo; eu sendo eu sei que desta vez não serei roubado. Já é qualquer coisa - pelo menos aprendi a lidar com o país. Não tarda começo a gostar dele.

Enfim, duvido. Impossível gostar de um país do qual não se gosta nem das mulheres nem da comida. As paisagens não as substituem. Nada as substitui.

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Há contudo uma coisa que devo reconhecer, e reconheço com tristeza: é muito mais apaixonante resolver problemas quando não há dinheiro.

Se esses problemas não forem, claro, uma horrível dor de dentes.