4.3.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 04-03-2014

Em finais de 1976 ou princípios de 1977 cheguei a um porto na Rússia chamado Nakhodka. Fica no Extremo Oriente russo, a cerca de cinquenta quilómetros de Vladivostok. A temperatura era de menos vinte, ou coisa que o valha; o mar estava gelado.

O navio, um graneleiro de trinta mil toneladas, avançava devagar na esteira de um rebocador / quebra-gelos. Por cima do gelo havia uma nuvem de condensação com um metro ou metro e meio de altura. Parecia que navegávamos num palco, ou num mar de algodão. O barulho das máquinas era abafado pelo gelo, pelo frio e pelas camadas de roupa com que me cobria.

A paisagem era branca, toda branca com algumas nódoas castanhas pelo meio - árvores desfolhadas, uma ou outra casa -. Pouco me lembro da cidade - nem da chegada, absorvido com o trabalho e com a vista daquelas colinas quase nuas, brancas, como se alguém estivesse a fazer um rascunho e o tivesse interrompido a meio, esquecido do que ia desenhar - nem da estadia, muito mais longa do que todos esperávamos por causa de um avaria.

Em Nakhodka bebi como nunca tinha bebido antes - ainda bem, era então um jovem de dezanove anos - e nunca mais voltei a beber. Ainda bem, igualmente. Os russos bebem de uma forma delirante, coisa que só me incomodava - enfim, devo reconhecer que não muito - quando voltávamos para bordo por um atalho que atravessava um pequeno bosque e eles saíam de detrás das árvores com garrafas de vodka e nos obrigavam a partilhá-las com eles, aparentemente porque quem não encontra amigos nem para beber é o último dos homens. Tínhamos de beber a mata-cavalos porque à meia-noite a tripulação toda, com a notável excepção do comandante devia estar a bordo sob pena de proibição de desembarque durante o resto da escala e escolhíamos aquele caminho porque já estávamos atrasados. (Tão pouco gostava do execrável costume que nos obrigava a beber de um só trago o que tínhamos no copo quando à mesa alguém dizia Nazdarovia. O truque consistia em ter sempre o copo o mais vazio possível, mas havia sempre um gajo que nos apanhava com ele cheio.)

Deve haver poucos climas mais diferentes do de Nakhodka do que o de onde estou agora, uma cidadezinha turística no oeste do Panamá, onde a cor dominante é o verde e a temperatura raramente passa dos vinte e tais positivos para baixo. E bebo, claro; sempre bebi. Mas bebo moderadamente: uns copos de vinho, outros tantos de rum. Nada das monumentais bebedeiras com que todos os dias, ou quase, me deitava na Rússia.

O que me traz Nakhodka à memória não é o clima, nem o álcool, nem a devastadora paixão que tive por uma jovem e linda senhora que mais tarde me veio ver a Antigua. Trinta e seis anos depois, creio. Há portas que são difíceis de fechar. Felizmente quando se fecham fecham-se para sempre.

Lembro-me de Nahodka porque estou com uma dor de dentes terrível e quase tão devastadora como a paixão. Quando lá cheguei vinha com uma cárie de tal forma dolorosa que fui o único tripulante a desembarcar - com o comandante, claro - para ir ao dentista. Íamos ficar três semanas fundeados (acabaram por ser só dez dias, se bem me lembro) e o dente estava de tal forma que não conseguia sequer respirar. Cada vez que abria a boca no exterior sentia-me como se tivesse um exército de dentistas sádicos a furar-me o molar.

A ida ao dentista foi uma daqueles acontecimentos que nos marcam, mudam a nossa maneira de ver o mundo - isto é, nós -. Fomos para terra numa pequena lancha quebra-gelos; o agente, cuja alcunha era Boca d'Ouro devido aos inúmeros dentes de ouro que mostrava cada vez que se ria - e eram muitas, essas vezes -, o comandante e eu.

O comandante ficou já não sei onde; eu fui com o agente para o hospital, um edifício enorme, do século XIX, sujo e cheio de gente. Talvez fosse uma das nódoas castanhas que tinha visto à chegada na paisagem. Não sei.

Passámos à frente de uma enorme fila, o agente bateu a uma porta, berrou qualquer coisa lá para dentro, fechou a porta e disse-me num inglês muito mau que tínhamos de esperar "um momento". Efectivamente muito pouco depois saiu da sala uma pessoa e eu entrei no consultório do dentista.

Da dentista. Era uma senhora cujos traços físicos esqueci por completo. Estava em estado de choque: o consultório era uma sala enorme, com manchas de sangue em tudo quanto era sítio: no chão, nas paredes, na cadeira - uma cadeira de barbeiro que lá estava muito provavelmente desde a inauguração do edifício - nas batas da médica e da enfermeira. Por vezes penso que até no tecto havia sangue, mas é pouco provável porque o pé-direito era altíssimo.

A broca devia ser contemporânea da cadeira e da casa: parecia um candeeiro articulado, muito fina, activada por uma correia de couro. Quando a médica a pôs em movimento tudo aquilo vibrava, tremia e ameaçava desintegrar-se dentro da cavidade do meu dente e lá ficar para sempre.

A médica pôs-me um rim - creio que é assim que se chamam aquelas travessas pequenas que nos põem no queixo para cuspir a baba e o sangue - também ele cheio de sangue seco à frente e começou a furar o dente. Enquanto o fazia conversava animadamente com a enfermeira e nem olhava para mim. De vez em quando interrompia a conversa e perguntava-me Dói? - foi a primeira palavra que aprendi em russo: ballit, creio -.

Ao fim de um momento, inevitavelmente, aquilo ballit um monte e eu resolvi que não ficava ali nem mais um minuto. Puxei a mão da senhora, fechei a boca e niet (palavra que só aprendi mais tarde, mas enfim, passe a diacronia); nada. Zero. Nesta boca aquela broca não entrava mais.

A senhora zangou-se, barafustou, gritou e acabou por mandar a enfermeira chamar o Boca d'Oiro. a quem expliquei, no inglês mais simples que consegui arranjar, que gostava, se ele não se importava, de ir a outro dentista. Quis saber porquê, mas eu não lhe contei. Limitei-me a dizer que queria outro dentista. A senhora pôs um penso no dente, disse qualquer coisa ao homem e viemos embora.

Três dias depois o Bocas chega a bordo, chama-me, diz-me que vamos a outro dentista e levou-me exactamente ao mesmo. Não me deu foi a possibilidade de recusar: empurrou-me lá para dentro e sentou-me (não me lembro, mas deve ter sido assim) na cadeira.

Nunca na vida fui tão bem tratado por um dentista. A mulher foi de uma atenção e um desvelo que quase roçava o embaraçoso. Um ano depois estava na África do Sul, tive de ir a um dentista e pedi´lhe para fazer uma radiografia ao dente que tina tratado em Nakhodka. "Excelente trabalho", foi o veredicto.

O facto de o Boca d'Oiro ser o chefe local da KGB deve ter influenciado a senhora, mas isso só o descobri quase à largada.

Tenho ido muito menos frequentemente ao dentista; na verdade não vou a um há doze anos. Agora metade dos meus dentes revoltou-se e já sei que vou ter de ir para o mar com pelo menos dois deles cariados e a doer e mais um a ameaçar. Não me queixo: a culpa é minha. Já por várias vezes tive simultaneamente tempo e dinheiro para ir tratar do campo minado em que a minha boca se transformou nos últimos anos. Agora não tenho nem um nem outro.

Quero ir-me embora quinta-feira. Os dentes podem esperar. Tal como tudo, de resto.

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Hoje é dia de trabalhar no barco, finalmente. Até agora tenho andado a tratar dos periféricos - computador (é onde tenho as cartas e o programa de navegação), venda de coisas desnecessárias, etc. Hoje e amanhã vão ser dias de preparação do bote; amanhã M. vem limpar o fundo, que claro está sujíssimo: com isto aqui parado há tanto tempo não há antifouling que resista.

É bom: já estou em modo largada. É tempo de o A. o ficar também.