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Diário de Bordos - Bocas Town, Bocas del Toro, Panamá, 01-04-2014

Aliviado de um peso enorme, continuo tranquilamente o caminho que me fixei: trabalhar em projectos rentáveis, com pessoas normais, em barcos decentes. Decisão tardia, bem sei: devia tê-la tomado há trinta anos, ou coisa que o valha. Mas mais vale tarde que nunca; e há males que vêm por bem. A minha galeria de tipos humanos enriqueceu-se extraordinariamente este último ano.

Conheci N. S., que em breve terá um post especialmente dedicado (se bem mereça muito mais do que um post, e muito mais do que o Don Vivo, coitada). E conheci M., o armador das embarcações às quais dediquei a maior parte do útltimo ano.

M. é uma cabeça de dezassete anos num corpo de cinquenta. Seria invejável, claro, se a mente fosse um bocadinho mais velha. Mas dezassete anos é uma idade ingrata, difícil mesmo quando o corpo a mostra. Caso contrário torna-se desconfortável, se não para o próprio pelo menos para quem com ele lida.

Durante algum tempo pensei que seria, pelo menos, um adolescente inteligente que teve o azar de crescer muito por fora e pouco por dentro. Depois revi essa ideia. É um adolescente medianamente esperto, com pouca sorte na lotaria genética (ainda escolheu o mau ângulo para me chatear).

Chatice essa à qual reconheço uma virtude, uma atenuante, quase um anestesiante: já não tenho o H.S.

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Tem chovido pouco, e Bocas sem chuva é um dos lugares mais lindos que conheço. Trabalho num dos barcos da marina, um trabalho ligeiro e agradável. Em breve terei outro trabalho, a dar aulas de vela a dois compradores de um First que lá está e parecem ser bastante simpáticos - pelo menos pagam-me um salário normal, coisa que há muito não tenho.

Poderei, finalmente, ir ao dentista.

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As ONG são um mercado extremamente agradável para quem as organiza. A grande maioria delas tem como beneficiários os seus donos e gestores. Reconheço-lhes as vantagens, mas continuo a achar abjecto usar as desgraças alheias para benefício próprio.

Apesar disso são uma boa escolha quando não se consegue fazer dinheiro de outra forma. Com a vantagem de que não se engana ninguém: quem as financia sabe perfeitamente o que está a fazer.

E se não sabe devia saber.