22.5.14

Reedição

Se isto tivesse acontecido teria sido mais ou menos assim. É um grande se.

Um pequeno bar de jazz; estou sentado na mesa do patrão, à esquerda quando se entra. Cortesia do dito. Passo duas etapas. A miúda era linda.

Há dois tipos de miúdas lindas, não sei se já viram: umas dizem "eu sou linda". Outras "eu estou a dizer-te que sou linda". São estas as mais interessantes. "Eu estou a dizer-te que". Um dia fui remar no lago Léman com uma dessas. Isto é: ela remava; eu ia ao leme e olhava para ela. Território proibido. Ela sabia: território proibido; e "eu sou linda e quero que tu saibas que o sei". Foi uma manhã dolorosa. Bonita, mas dolorosa. Ela ganhou: não transgredi. Excepto mais tarde; ela disse-me: "gosto de homens que me sabem ler". E eu respondi "gosto de mulheres que se sabem escrever".

Hoje não. Eu estava no canto do bar e ela entrou. Nem me viu, claro. Era linda. A mensagem que transmitia a quem via era: "eu sou linda e estou a dizer-vos que sei que sou linda".

Entretanto a banda começou a tocar. Foi a coisa mais fascinante que ouvi nos últimos tempos. Imaginem duas guitarras (uma solo, ou ritmo ou o que quer que seja, a outra baixo), e uma bateria. O baixo tocava como se fosse ritmo; o ritmo como se fosse Frank Zappa; e o baterista tinha a suprema qualidade de um baterista: não se ouvia, e quando se ouvia era excelente, sublime. A verdade é que entrei para beber um whisky na brasa e não foi bem assim. E depois ela entrou (só a vi enquanto ela passou: tinha o olhar vago, coisa para a qual não sei olhar). Vinte anos. Alta, magra, cabelos morenos longos, olhos verdes; metade da barriga à mostra. Normalmente isto não chegaria para a qualificar. Linda.

Ora bem: de um lado temos uma banda na qual o baixista toca como se fosse um ritmo; o baterista só se ouve quando tem que se ouvir, o que é raro; e o solo toca como se fosse Zappa (isto é um exagero grosseiro, mas pouco importa). Do outro um bar cheio, uma miúda linda e uma gaja feia que não pára de olhar para mim, mesmo quando beija o senhor que está com ela (o que acontece com uma certa frequência, de passagem seja dito).

É desagradável. A senhora é feia, mas não deve ser burra; tem um olhar inteligente, vivo.

II
Não era de nada disto que queria falar quando comecei.

III
Recomecemos. Meta-beleza: era disto. Beleza é a que se dá a ver, ou a que se deixa ver?

IV
Não. A miúda é linda. De Frank Zappa não conhece nem a letra "F". Não sabe o que é um meta-discurso. Abençoada seja.

V
Prefiro a beleza que se sabe à beleza que se oferece.

VI
A beleza deve saber-se. Se não, não sabe a beleza.

VII
Hú um dever na beleza. Um dever de reserva? Não: de auto-consciência.