2.7.14

Diário de Bordos - S. Luis, Maranhão, Brasil, 01-07-2014

As festas juaninas acabaram e o Reviver volta à calma habitual durante a semana.

É quase meia-noite. Está tudo fechado ou a fechar. Nas ruas sobra a miséria. Há pouco vi um tipo tirar um balde de água de um esgoto. Não sei se o tinha lá escondido ou se se preparava para se lavar naquilo.

A rua cheira a mijo, mas isto é uma redundância. A rua cheira.

Não é bem boémia. É miséria e voyeurismo. Acabo uma caipirinha no Raimundo. Fez-ma grande. Por uma razão quaisquer gosta de mim. Comprei-a para lhe agradecer a password do wifi.

Eu retribuo o gosto. É um homem com quem me entendo. Não sei porquê.  Há pessoas assim: não é por causa do dinheiro ou de outra coisa qualquer fácil de explicar. Deve ser uma questão de vidas, indefinível tal como, para muita gente, o amor é uma questão de pele.

Bebo a caipirinha enquanto fumo um cigarro - o segundo - e escrevo isto sentado numa cadeira à porta da tasca. Penso primeiro que é uma boa imagem. Um estrangeiro gordo e feio sentado à porta - fechada - de uma tasca imunda a fumar um cigarro e a beber um copo enquanto vai dizendo que não ao desfile de náufragos que lhe pedem "uma moedinha para comer". Mas não sei de que é a imagem: da minha vida? Do Brasil? Do Reviver? Marimbo nas imagens.

Uma dose de crack custa dois reais, menos de metade de uma cerveja.

Digo que não. Sei que daqui a duas semanas já ninguém me virá pedir seja o que for, para comer ou para comprar pulseiras ou porta-chaves (esta diz que é angolana. Talvez. Deve ter sido linda) ou nada, simplesmente "uma moedinha".

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O trabalho no barco não começou ontem, como eu tinha pensado. Nem hoje. Esperado é mais adequado do que pensado. Se eu tivesse pensado não teria posto uma data no principio dos trabalhos. Não teria posto datas em nada.

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É isto que me espera pelos próximos dois meses. Preparo-me como para uma travessia: ao dia.

Trinta dias no mar não são um mês. São trinta dias. Dois meses em S. Luís não são dois meses. São sessenta vezes um dia.

Tal como uma vida é todas as vidas que nela vivemos, sucessivamente e por ordem.