28.8.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 27-08-2014

As cervejas ao fim da tarde na Tia Amélia foram substituídas por longos passeios de bicicleta. Saio da Praia Grande pela marginal. A vista é de tirar o fôlego. (Não tenho, e isso falta-me, um sítio como tinha em Falmouth Harbour para me sentar e olhar: Mas pedalo e vejo esta enorme baía por vezes desperdiçada por vezes cheia, e penso na beleza que isto é, no que poderia ser).

Vou à Igreja da Sé (hoje até entrei) e vagueio pelo Largo dos Amores, a praça mais bem nomeada de todas quantas conheço (alguém decida acrescentar  "e do skateboard". Aí ficaria a designação completa). A vista da praça é linda ela também, com o horizonte cortado verticalmente pelas palmeiras e acompanhado pela ponte S. Francisco, um xadrez de rio céu e terra do qual não me canso, ninguém se cansa.

Depois depende. Ou vou ao Shopping S. Luís, se preciso de alguma coisa; ou volto para trás, perdendo-me pelas ruas que por enquanto são todas iguais.

Que os deuses te protejam do silêncio - ou te permitam pedalar através dele.

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É preciso começar por dizer que H. se deszangou. Logo no dia seguinte pediu-me desculpa. Tinha bebido muito, ou coisa que o valha. Estou-me nas tintas: os erros nada são quando há capacidade de os reconhecer. E foi ela quem comprou e preparou os legumes para a ratatouille.

O jantar foi soberbo. Magnífico. Éramos quase vinte, na longa tradição dos jantares que crescem ao sabor dos encontros. Fiz um porco com mostarda e a dita ratatouille.

O Celso diz-me que transformei porco e vinho em poesia e eu acho que não: tudo é poesia, quando olhamos para tudo com olhos de poeta e queremos que tudo se transforme.

Há encontros mágicos, afinidades que eclodem vulcanicamente, inevitáveis, profundas antes de o serem. Este é um deles.