3.9.14

"Brasil, meu Brasil brasileiro"

Vista de fora C. parece francesa: pequena, magra, fina de traços, simpática mas não muito expansiva. A primeira vez que falámos ela fez-me uma pergunta qualquer em inglês. Respondi-lhe em francês e por aí continuámos até lhe perguntar de onde era. Brésilienne, respondeu.

Agora falamos frequentemente. Encontramo-nos ao pequeno-almoço - temos os mesmos horários - e ao jantar. Comemos juntos e conversamos bastante (eu mais do que ela; maldita verborreia).

C. não é francesa mas podia ser. Não foi decerto por acaso que casou com um (por sinal velejador e dono de uma escola de vela). Ontem fomos às compras a pé. Na conversa falamos de liberalismo. Digo-lhe que sou um simples-liberal. Nem neo, nem ultra, nem coisa nenhuma. Simples, clássico, sem prefixos.

"Ah, então você é a favor dos ricos". O liberalismo perdeu a batalha da comunicação e eu confesso que não sei porquê. Gostava de saber. "Não, C. Sou liberal porque acho que é a melhor maneira de os pobres deixarem de ser pobres. Achas que o socialismo ajudou a acabar com os pobres no Brasil?"

A conversa continua neste tema, mas não me atrai. Gostava de perceber porque é que na cabeça de uma arquitecta relativamente culta, viajada, de trinta e poucos anos ser liberal é ser "a favor dos ricos" (obviamente o problema não está nela, está no facto de o liberalismo ter de insistir tanto na necessidade e importância da liberdade que deixa de lado as suas consequências. Uma das quais seria, claro, mais igualdade social).

O Brasil é um caso de estudo magnífico: um país mercantilista, proteccionista, com tudo quanto é mercado protegido, regulado, amarrado por uma burocracia que parece um livro de Kafka reescrito por Drácula, com um índice de Gini elevadísimo (o Governo diz que está a diminuir e é verdade. Mas não vai diminuir muito mais, porque esta diminuição tem sido feita à custa de subvenções e ajudas e não é sustentável. O próximo ciclo depressivo está à porta e o helicóptero vai ficar sem combustível). Os resultados estão à vista: desigualdade social, crack, miséria, criminalidade, produtos maus e comparativamente caros (com a notória excepção dos aviões e da música, dois produtos aos quais não há proteccionismo que valha), fiscalidade absurda.

Mas as pessoas acham que é preciso mais do mesmo. Os únicos beneficiários do proteccionismo são os donos das grandes empresas. Mas se alguém falar em reduzir tarifas, desbloquear o mercado de trabalho e de produtos, desmontar corporativismos - está a "favorecer os ricos"...

Não está, C. Está a favorecer os pobres. Mas vai levar muito, muito tempo até isto ser compreendido pela maioria das pessoas. O que é pena, porque este país é magnífico.