26.9.14

Diário de Bordos - Porto, 26-09-2014

Não. Não. Não. Não. Não. Não.

Sinto-me numa escola de freiras a pedir namoro às alunas, ou em S. Luís a tentar trocar uma nota de vinte reais (se fosse de cinquenta nem responderiam. Pensariam simplesmente que era um marciano).

Estou em Santa Apolónia a tentar levar a bicicleta para o Porto num comboio Intercidades, escolhido porque pensei que teria mais probabilidades do que num Alfa.

Não tenho.

Pelo menos em teoria. Portugal sendo Portugal a cada pequeno hitler (ou, vá lá, funcionário cumpridor) corresponde uma pessoa compreensiva, sensata, moderada na aplicação das regras - numa palavra: portuguesa -. (Aproveito para aqui agradecer aos dois revisores da CP que me permitiram pôr a bicicleta nos comboios - de resto em locais já equipados para elas -. Ninguém me explicou porque não se pode levar bicicletas, mas eu suponho que a CP queira ter todos os comboios equipados com aqueles ganchos. Suponho, não sei).

De maneira a Rolex Voadora foi ao Porto, de comboio. E voltou. Com a mania de que agora se chama Rolex Trepadora, mas isso passa-lhe.

"Sobe? Não faz mal. Depois desce" é o que costumo responder quando me falam numa potencialmente terrível subida. É verdade, Tudo na vida se equilibra, ou quase. Se sobe desce e se agora desce em breve subirá. Se hoje vais a um largo em breve estarás à bolina. A glória fugaz de uma descida, por mais longa que seja, será sempre compensada pela miséria de uma subida. Ou quase.

Em Lisboa há subidas longas e subidas íngremes; mas poucas o são simultaneamente. No Porto é o contrário: raras são apenas curtas ou apenas íngremes. Mas a Rolex portou-se bem, mostrou o que vale e ao que veio e galgou aquelas calçadas como se tivesse ao guiador um Eddie Merckx (um bocadinho mais lento, verdade seja dita).

Depois furou um pneu, mas enfim. De epifenómenos não reza a história.

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Pela primeira de muitas vezes uma estadia no Porto foi demasiada curta. O tempo ajudou, claro. E as companhias. E a tradicional simpatia das pessoas ou a qualidade da comida, que são as mesmas de sempre. Mas não foi só isso. A cidade mudou, parece mais leve e aberta e menos complexada em relação a Lisboa do que era.

E não me refiro aos bares e restaurantes, que são muito iguais aos de todo o lado. Refiro-me às pessoas, à dinâmica da cidade, aos discursos que fui ouvindo aqui e ali.

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Passeio pela margem do Douro. Uma embarcação da Douro Azul largava. Fizemos um pedaço do caminho juntos. Lembrei-me do meu Pai, que fez literalmente à força de braços a navegabilidade do Douro.

Foi a grande viagem da vida dele. A próxima vez que for ao Porto refarei esse trajecto, refastalado numa cadeira a beber um copo de vinho. E ver-te-ei, Pai, nas margens a passar cabos porque a barragem abriu antes da hora, ou porque vinha mais água do que o previsto; ver-te-ei a subir o rio com não sei quantos batelões e um rebocador insuficiente para o trabalho; ver-te-ei a falar com os tripulantes, tu que tanto jeito tinhas para as pessoas e tão respeitado eras.