31.12.14

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 30-12-2014

À primeira vista dir-se-ia que o ecossistema está montado: dormir na Little Crew House, comer na colombiana (Pollo Loco, se por acaso algum leitor passar por estes lados), ouvir música, escrever e beber no Lagoonies, trabalhar. Hoje tive uma ajuda. William apareceu de manhã no estaleiro e perguntou-me se tinha trabalho para ele. Disse-lhe que não: trabalho para ele significa menos trabalho para mim.

Mas o homem estava visivelmente aflito. Ficou ali a ver-me pintar as obras vivas do C., com este "olhar infinito" de que J. me falou. É um olhar que não tem foco, como se estivessem a olhar para o tempo, e não para um ponto qualquer físico. Senti-me a comer um banquete ao lado de um faminto e não resisti, obviamente. Trabalhou bem, mereceu o meio-dia que ganhou. De qualquer forma, fazer pintura de fundos não é nem de longe o meu trabalho favorito.

Achei piada porque torceu o nariz quando lhe paguei. Era pouco. "É o que eu ganho, William". Imagino a confusão naquela cabeça: brancos a ganhar o que muitos locais recusam? No fim lá percebeu, agradeceu-me e perguntou-me se tinha mais trabalho para ele.

Não tenho, mas aposto que amanhã vai estar no estaleiro. É teimoso, e não há melhor qualidade do que a que se mistura com um defeito tão intimamente como a teimosia.

Talvez seja um bom critério para avaliar qualidades: as que estão a um fio de ser defeitos são as boas.

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Começo também a conhecer melhor o meu colega de quarto, um equatoriano a quem o patrão acaba de propor um trabalho aqui na ilha. Vive em Miami, é especialista em frio, veio para cá só para dar apoio ao princípio da época e há tanto trabalho que a empresa quer que fique.

É jovem, acha Miami "um stress" e quer vir para St. Maarten. Amanhã fico sozinho no quarto: vai a Miami vender o carro e rescindir o contrato com o senhorio. Volta na primeira semana de Janeiro.

Com sorte estarei a viver no C., que vai para a água dia cinco. Com mais sorte ainda estarei a navegar.

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Ausência de frio, ausência de calor. O clima desta ilha é a forma agradável da ausência. Há outras, suponho. Infelizmente interessam-me pouco.

Na verdade poucas são as coisas que me interessam muito.