4.12.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 22-11 a 04-12-2014

Estou cansado, exausto; e não tenho computador, ainda. Quando preciso de um vou à biblioteca municipal de Galveston, que tem quarenta para uso público - e gratuito -. Mas é por fatias de hora e meia, e uma parte desse tempo é passada a trabalhar, outra a percorrer o livro das caras, outra a ler e responder a mails, outra a divagar... Perdi o meu telefone - enfim, perdi-o e perdi-me - na noite da prisão de Sócrates. Agora ando com um minúsculo, que me obriga a escrever três vezes cada palavra.

Fica pouco tempo para o blogue, coitado.

Verdade seja dita: pouco há a contar. O trabalho absorve-me os dias, o sono as noites. Entre os dois, pequeno-almoço e almoço rápidos e jantar em terra, quase sempre na Stuttgarten Tavern. Ou no Stork Club, um restaurante local, agradável, sem mais. Ou no Fuddruckers, de que já aqui falei e onde devia ir mais vezes.

Agora descobri outro canto, e encanto; o Mod Coffee House. Como é uma Coffee House a água é um bocadinho mais escura do que nos outros sítios e tem um ligeiro acréscimo de sabor. Não muito, claro, que aquilo está longe de ser café. Mas enfim, o local é agradável e tem uma atmosfera de café: pessoas a conversar, trabalhar, estudar, escrever, ler, boa música e - infelizmente, que raramente lhes resisto - óptimos biscoitos.

Como sempre um, por vezes dois para punir o meu corpo das malandrices que ele me faz: o cansaço, a incapacidade de gerir correctamente o açúcar no sangue, a miopia, o tinitus e essas coisas todas.

O frio voltou, a indecisão também, a solidão continua. Tudo isto mudará, mais tarde ou mais cedo. Com excepção do tempo, que gostaria mudasse já, o resto pode esperar.

........
Tudo tem um fim, menos as viagens: as que hoje faço são a continuação da que me levou a dar uma volta ao mundo em 1976? Provavelmente.

E tudo tem um princípio; menos a dor, claro. É uma aluvião, a dor. Sedimenta, consolida-se e ao fim de uma vida vamos a ver e foi ela que fez o leito pelo qual o rio correu. Já a felicidade não: vai com as águas, não pousa, nunca fica muito tempo no mesmo sítio.

........
Sei pouco da história de Galveston. Foi criada no início do século XIX no que era então a República do Texas. Está na trilha dos ciclones. Em 1900 um deles matou oito mil pessoas. E do presente tão-pouco sei grande coisa. Cidade turística, portuária, hospitalar e balneária, agora fora de época.

Tem uma universidade - cujos alunos são de resto uma boa parte da clientela do café Mod -. Não sei se vota à direita se à esquerda. É uma ilha, maior do que parece: no outro dia tentei dar-lhe a volta de bicicleta e não cheguei nem a um terço.

"A época da solha está quase a acabar?" pergunta um jornalista no jornal local. "Tudo leva a crer que não", responde: "o organismo que gere o parque nacional (uma grande parte da ilha está num parque, ou coisa que o valha) prolongou o limite da captura de duas solhas por pessoa até dia quatorze". É preciso dizer que a pesca recreativa é uma actividade vital para a população. A marina está sempre cheia de pescadores e de solhas acabadas de pescar; há lojas de isco e artigos de pesca em tudo quanto é canto; o jornal menciona frequentemente o tema.

Recentemente perguntei à rapariga do Stork qual a atracção turística de Galveston, para além, claro está, da praia. "Pode andar-se com bebidas na rua", responde, ao fim de bastante tempo de reflexão.

A cidade é bonita. E monótona. John, um dos donos do Stuttgarten diz-me que isto não são os Estados Unidos. "As pessoas deixam o cérebro do lado de lá da ponte quando a atravessam". É da Geórgia, mas viveu "em todo o lado", Trabalhou num navio de cruzeiros. Conhece Lisboa, o Estoril, Cascais. Está aqui apenas para ir à escola náutica, quer progredir na carreira e "chegar a comandante".

É o tipo mais simpático que aqui encontrei, juntamente com Ben, o mecânico que ontem veio a bordo. "A ética de trabalho aqui é..." John faz uma careta, desfaz, refaz e conclui "horrível". Vai-se embora assim que acabar o curso.

E eu logo que o trabalho acabe. Já não faltava muito, quase nada, mas agora apareceu outra porcaria para resolver. Mais um dia ou dois.

........
O bar 21 tem Laphroaig a sete dólares e a barmaid mais bonita de Galveston, do Texas e do Universo, para cortar caminho. A rapariga tem classe, mais classe do que idade. Nasceu com ela. Já vem de trás. Aquilo é a refinação de muitos ciclos de DNA.

O bar é bonito, a música boa e calma (excepto aos fins-de-semana) e a barmaid - perdoem-me a insistência - linda como um dia de sol nas Baleares. Mas as televisões - duas! - estragam tudo. Somos perseguidos pela merda da televisão. Não se pode dar um passo sem que ela, ou elas se espequem à nossa frente como uma namorada mal escolhida.

........
Ontem foi o primeiro dia de folga desde que cheguei. Refiro-me a uma folga explícita, formal, assumida e voluntária. A do sábado a seguir à prisão de Sócrates não responde a nenhum desses critérios. É bom, mas pouco. Uma tarde não chega. Precisava pelo menos de mais um dia, mas não vai ser possível.

Por isso faço durar o Laphroaig, enquanto oiço - impossível não ouvir - uma conversa entre dois clientes. Um está à minha direita e só faz pergunats e o outro, acompanhado pela namorada, à esquerda e só responde. Este vai ficar desempregado. Tinha um bar, mas vai ter de o fechar não percebi bem porquê. Mas entretanto parece que se alistou na Marinha. É médico ou enfermeiro, tal como a mulher, de resto. Tento não ouvir muito, vou escrevendo e olhando para a televisão ou para a barmaid, quando ela não pode ver quer a miro como se a criação fosse o museu do Louvre e ela a Gioconda.

........
Aos fins-de-semana Galveston humaniza-se. Enche-se de gente ("de Houston, vêm aqui passar o fim-de-semana" diz-me a tal rapariga do Stork Club) e os carros ganham condutores humanos: buzinam, aceleram... Deixam de ser conduzidos por robots.

São os únicos dias desagráveis. Os outros? Meramente chatos.