7.1.15

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 07-01-2015 - cont.

O dia começou mal, claro. A bárbarie é uma das coisas que ajuda a relativizar muitas outras. Enquanto esperava R. para tratar da residència - não apareceu, mas o meu stock de fúria estava esgotado e não me importei muito - vi televisão no café ao lado da Capitania.

Sou mau juiz, porque raramente vejo televisão e leio jornais (a menos que se considere ler os resumos do Observador como ler jornais. Trata-se apenas de uma boa aproximação). Mas pela primeira vez ouvi de boca de um dirigente muçulmano uma condenação clara, explícita, firme, sem ambiguidades.

É por aí que tem de se começar: enquanto a comunidade muçulmana não condenar estes atentados a amálgama entre muçulmano e terrorista não terminará.

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R. não apareceu, já o disse. Fica para amanhã. Mas aprocura de trabalho deu alguns frutos: três dias de charter numa empresa rival daquela em que trabalho, ou trabalhava; e um cata de 52' que precia de uma tripulação skipper / stew.

Estava com C., uma jovem italiana com bastante experiência do meio e me propôs procurarmos trabalho juntos. Infelizmente a rapariga fala de mais e disse duas ou très coisas que não devia ter dito ao agente.

Vamos ver. Tenho o perfil e pedi um salário no limite mais elevado da fasquia. Um bocadinho de estabilidade sem problemas de residência, bancos e concomitantemente cartas de condução vinha mesmo a calhar.

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Afinal a luta entre o sistema imunitário foi breve, intensa - passei o dia todo meio febril - mas acabou com uma clara vitória da cavalariça. ajudada apenas por um toalhete anti-séptico que expirava em 2002 e trouxe do TL, juntamente com uma série de coisas de primeiros socorros que os armadores queriam deitar fora. Não acreditava em prazos de validade para gazes, ligaduras e quejndos e agora tão pouco acredito neles para o Iodine (suponho que seja a mesma coisa que Betadine, mas não tenho a certeza).

A infecção não passou mas está reduzida a uma mísera sombra de si mesma.

(Também usei uma daquelas coisas que desde a gripe das aves ou outra farsa qualquer se encontram em todos os escritórios e dizem "Mãos limpas começam aqui". Talvez tenha sido daí e não do Betadine. Mais uma razão para estar feliz com os três dias de charter, foi nessa empresa).

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Bebo o meu rum punch no Lagoonies. É mais barato do que um copo de vinho, e de qualquer tenho de incluir fruta na dieta. De repente ocorre-me uma pergunta fundamental, basilar: em quantos bares já terei estado desde que comecei a frequentar bares?

Que pena tenho de não poder dedicar muito tempo a este assunto fundamental.